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quinta-feira, 30 de novembro de 2017

BINGO: O REI DAS MANHÃS – Brasil, 2017 – Direção Daniel Rezende – elenco: Vladimir Brichta, Leandra Leal, Ana Lúcia Torre, Emanuelle Araújo, Ricardo Ciciliano, Soren Hellerup, Raul Barreto, Pedro Bial, Augusto Madeira, Cauã Martins, Domingos Montagner, Tainá Müller, Fernando Sampaio – 113 minutos

O RETRATO DE UM MUNDO QUE PARECE ABSURDO, MAS QUE FOI ONTEM


Os anos 1980. Um período da história que se apresenta quase como um ponto fora da curva da realidade brasileira, seja pelos acontecimentos, pela moda, pelos produtos culturais. Bingo, o Rei das Manhãs se passa nesta época e é demonstração clara deste cenário improvável e quase anárquico. Com os olhos de hoje, a década de 1980 surge quase que como uma realidade paralela, algo impossível de acontecer. Em que outra época teríamos um palhaço sob efeito de drogas se esfregando com a Gretchen enquanto ela canta "Conga" em um programa para crianças? “Bingo” conta esta e outras histórias inspiradas na vida real de Arlindo Barreto, ator que interpretou o palhaço Bozo, que fez sucesso nas telas do SBT nos anos 1980. Por questões de direitos, Bozo virou Bingo, Arlindo virou Augusto, Globo virou Mundial e por aí vai. Apenas Gretchen continuou Gretchen, afinal é uma instituição por si própria e não criou caso com a produção. (Lucas Salgado – Adoro Cinema)

O roteiro [...] é brilhante, primeiro porque ele consegue criar o mito do misterioso palhaço de forma precisa e além disso, descontrói o homem por detrás da máscara, diante das frustrações de um real reconhecimento que nunca teve, tudo de forma orgânica e sem pudor. (Kadu Silva – Ccine 10)

O grande trunfo da obra é como ela captura o espírito da cultura pop no Brasil, com seu jeito nonsense, psicodélico e sem limites. Bingo se torna o símbolo do clima de zoeira dos anos 80 e, apesar de se passar 30 anos atrás, é mais atual do que nunca. (Daniel Reininger – Cineclick)

Vladimir Brichta, que sob a máscara de Bingo mostra ser mais do que um ator mediano, também brilha. Se incluirmos na conta o momento levanta-defunto da aparição de Emanuelle Araújo no papel de Gretchen, o filme passa fácil de "bom" a "muito bom". (Cassio Starling Carlos – Folha de São Paulo)

O que fica da produção é um diretor muito promissor para o cinema nacional e um ator no seu auge. O que é contado é pura curiosidade, em um roteiro que em nada chama a atenção. Um filme que faz rir um pouco com o palhaço, mas que emociona mesmo quando ele tira a maquiagem. (Diogo Rodrigues Manassés – Cinema com Rapadura)



domingo, 26 de novembro de 2017

QUANDO SE TEM 17 ANOS (Quand on a 17 Ans) França, 2016 – Direção André Téchiné – elenco: Corentin Fila, Kacey Mottet Klein, Sandrine Kiberlain, Alexis Loret, Jean Fornerod, Mama Prassinos, Jean Corso – 116 minutos
EM UM MUNDO EM QUE AS PESSOAS CADA VEZ MAIS TÊM DIFICULDADES EM ACEITAR O DIFERENTE, É IMPORTANTE UMA PRODUÇÃO COMO ESTA

Depois do admirável "Rosas Selvagens" (1994), o veterano cineasta francês, André Téchiné (realizador de obras viscerais como “As Testemunhas” – 2007 e “Tempos Que Mudam” – 2004), em sua melhor forma, volta a centrar-se no processo transformador da adolescência, e realiza o filme mais marcante desde então. É um filme silenciosamente político. No quadro do elenco principal, há que se destacar a progenitora de um dos rapazes, uma memorável performance de Sandrine Kiberlain, além, é claro,  das revelações dos dois jovens atores Kacey Mottet Klein e Corentin Fila, em magistrais atuações. Aqui a descoberta da sexualidade e a passagem de idade a certo ponto contrapõem-se com uma "passagem de tempo" global, independentemente da idade - e daí haver uma ironia divinal no título "Quando Se Tem 17 Anos". Existem ainda outros pormenores em jogo: como a fisicalidade inicial entre os dois rapazes em primeiro plano a interagir como a fisicalidade "ausente" da guerra que acontece fora do ecrã, até de fato, percebermos o que se vai passar.

Aclamado  na seleção competitiva do Festival de Berlim 2016, “Quando Se Tem 17 Anos” aborda o drama de se ter dezessete anos, um confuso período de transição à idade da maturidade “oficial”, com seus medos, anseios, descobertas da identidade sexual, ansiedades, desejos, necessidades, obrigações, tanto dos dois lados do “muro” (o do universo da escola e o dos “adultos”). Esses “pós-adolescentes” vivenciam a pressão das aceleradas e hiperbólicas escolhas e decisões. Talvez quando essa idade acontece na nacionalidade francesa seja melhor, devido à pluralidade comportamental-existencial-social.

Muitas descobertas ocorrem quando somos adolescentes. Esta é a fase da vida em que aprendemos muito sobre nós mesmos e, principalmente, sobre os outros. “Quando Se Tem 17 Anos”  fala justamente sobre algumas dessas descobertas e sobre outros temas importantes – e não apenas para adolescentes. Como normalmente acontece com o cinema francês, neste filme temos, mais uma vez, um olhar cuidadoso, atento e muito sincero sobre realidades que nem sempre outros cinemas se preocupam em abordar. Mais um grande filme francês, bastante notável e com um olhar interessante e sensível. É um dos melhores filmes do ano!! 


quarta-feira, 22 de novembro de 2017

A ESPERA (L’attesa) Itália / França, 2015 – Direção Piero Messina – elenco: Juliette Binoche, Lou de Laâge, Antonio Folletto (Paolo), Domenico Diele (Giorgio), Corinna Locastro, Giorgio Colangeli, Giovanni Anzaldo – 95 minutos

Um filme extravagante e rebuscadamente triste, buscando a sacralização do sofrer de suas protagonistas.


O luto é um dos processos mais revisitados no cinema que se atem ao registro do sofrimento. Falando sobre a perda em uma escala intensa e com direito a um ritual de passagem do luto instaurado, o filme é forte, denso e requer a atenção e a paciência do espectador. “A Espera” combina uma sofisticada direção junto a reflexões morais e existenciais para desembocar nesta obra lírica em seu tom dilemático amargo e tumultuosamente túrbido. O espectador é convidado pelo diretor Piero Messina, a uma viagem rumo ao universo enigmático das emoções e como as reações que tomam, ou que não conseguem tomar, nesses momentos, acarretam uma infinidade de consequências para as pessoas ao redor. Falar que Juliette Binoche é uma excelente atriz é redundante, mas nesse filme ela praticamente agracia o público com uma extraordinária atuação. Impecável e brilhante. Perdida na própria solidão, sua personagem Anna é o espelho da amargura como se não tivesse mais forças para acreditar em dias melhores. Tudo muda com a chegada de Jeanne que revitaliza nela a presença do filho distante (Giuseppe) que tanto ama. Por meio de uma mentira escancarada, a plateia é testemunha, se projeta rumo ao desabrochar de seu estado de luto sem pensar em consequências pelos seus atos.


As atrizes principais – Juliette Binoche e Lou de Laâge -, como a trama, trabalham de maneira sutil. Há muita potência nos pequenos gestos, anedotas e olhares trocados. Ritmado metodicamente, "A Espera" não se move rapidamente, mas faz o tempo voar.

Se beneficiando enormemente do seu evocativo cenário siciliano, este filme usa o espaço, o tempo e o som de uma maneira sedutora, criando uma atmosfera quase meditativa. Transformando um casarão silencioso em um palco de sombras, o roteiro escrito a quatro mãos consegue ser lentamente hábil ao não entregar tudo. A ‘jornada’ se intitula como uma imersão quase desconhecida que edifica as protagonistas como principais alicerces. Jeanne repete algumas vezes que Anna é estranha, e cada vez mais essas indefinições parecem preparar esse clima estagnado em algo de maior fricção. As atrizes dualizam com atuações enigmáticas e a química em cena é arrepiante. Por mais que parte da realidade esteja sendo omitida de Jeanne, suas dúvidas e angústias (principalmente as finais) são muito próximas. Para Anna, conviver com a dor e uma falsa felicidade parece ainda mais doloroso; seu olhar, porém, jamais deixa de ser aflito.

Aos poucos, essas duas mulheres aparentemente distintas, encontram afinidades, para além do amor por Giuseppe ou do fato de serem francesas. Há uma espécie de reconhecimento de si mesma por parte de Anna na figura impetuosa da nora, até mesmo certa admiração, como na cena em que a observa se despindo e adentrando a água. Isso faz com que a jovem se torne não só uma companhia, mas também uma confidente, para quem expõe seu passado – o divórcio, a mudança para a Itália – e seus sentimentos reprimidos. A recíproca também ocorre, ainda que sem o total conhecimento de Jeanne, nas confissões feitas em mensagens de voz deixadas no celular do namorado, que Anna ouve secretamente. O filme nos consterna por meio de dois caminhos: o primeiro gira em torno da decisão da mãe de não contar a verdade para Jeanne, já que esta carrega embates morais significantemente lacerantes, e o do desenvolvimento emocional e até mesmo da individualidade das personagens, cujas experiências recentes as quais o filme retrata levam marcas irretocáveis em seus âmagos. “A Espera” é um filme sensível e rebuscadamente triste, buscando a sacralização do sofrer de suas protagonistas.

domingo, 19 de novembro de 2017

HORIZONTE PERDIDO (Lost Horizont) EUA, 1973 – Direção Charles Jarrott – elenco: Peter Finch, Liv Ullmann, Michael York, Olivia Hussey, Sally Kellerman, George Kennedy, John Gielgud, Charles Boyer, Bobby Van, James Shigeta, Kent Smith, John Van Dreelen, Larry Duran, Paul Delucca, Michael Bernal – 150 minutos 

VOCÊ JÁ SONHOU ALGUMA VEZ COM UM LUGAR LONGE, BEM LONGE DA FÚRIA DEVASTADORA DE UM MUNDO EM TUMULTO?? 


Esse é um remake do clássico de Frank Capra, realizado em 1937. Para muitos a versão antiga é melhor, mas para outros tantos especialistas em cinema preferem essa versão do Charles Jarrot, considerada superior.  Na época do seu lançamento, em 1973, em vários países, tanto a crítica quanto o público não apreciaram muito. Mas no Brasil foi um sucesso enorme, causando uma certa surpresa aos seus realizadores. O filme é recheado de canções inesquecíveis, todas do genial Burt Bacharach. Há que se dizer que houve um pequeno exagero em colocar tantos números musicais. O elenco do filme conta com um time de estrelas de primeira grandeza: Peter Finch, Liv Ullmann, Michael York, Olivia Hussey, George Kennedy, Sally Kellerman, Charles Boyer, Bobby Van, James Shigeta e John Gielgud. Coreografias de grande beleza e simplicidade contribuem para o charme do filme.

Durante um conflito no sul da Ásia - não fica claro qual é o conflito e nem qual é o lugar. Um grupo de fugitivos, desconhecidos entre si, tem seu avião sequestrado. Enquanto voam sem saber qual será o destino, uma tempestade derruba o avião que cai em algum lugar do Himalaia. Os sobreviventes são resgatados por pessoas que habitam um lugar chamado Shangri-la, onde existe a eterna juventude e a felicidade plena. Ainda no avião o espectador é apresentado aos personagens dessa utópica história. Richard Conway (Peter Finch), é um graduado funcionário da ONU e seu irmão, o egoísta George Conway (atuação inesquecível de Michael York). Olivia Hussey (a eterna Julieta de Zeffirelli) esbanja beleza e sofisticação. Também a solitária Sally (Sally Kellerman), uma repórter do Newsweek infeliz que vive se entupindo de remédios para perder a sobriedade. Sam Cornelius (George Kennedy), na verdade um empresário/engenheiro ganancioso e Harry Lovett (Bobby Van) uma espécie de humorista que não tem mais a atenção do público. Charles Boyer, já em fim de carreira, faz o Grand Lama, em uma performance tocante. E o grande ator inglês John Gielgud completa o painel de grandes interpretações. 

O filme é mais que um manifesto pacifista e cumpre seu papel de questionar qual é a civilização que estamos criando e o que nos motiva. HORIZONTE PERDIDO (1973) é um filme reflexivo, que questiona grandes valores e faz o espectador olhar para o mundo com um olhar crítico, mas ao mesmo tempo compassivo. Baseado no clássico romance de James Hilton é um filme para sempre!! Belo e inesquecível!!



sexta-feira, 17 de novembro de 2017

BOM COMPORTAMENTO (Good Time) EUA, 2017 – Direção Benny Safdie e Josh Safdie – elenco: Robert Pattinson, Benny Safdie, Jennifer Jason Leigh, Taliah Webster, Buddy Duress, Barkhad Abdi, Peter Verby, Saida Mansoor, Necro, Ben Edelman – 100 minutos

ROBERT PATTINSON INCENDEIA A TELA NUMA INTERPRETAÇÃO GRANDIOSA 


O filme se resume a um fio narrativo – uma história de fuga – com meandros que dialogam com o caos da cidade e que Ben e Josh Safdie julgam coniventes mais uma vez com seus macetes cinematográficos: o close e a textura. Parece uma busca mais discreta de um sentido ao qual referências modernas do gênero como Tony Scott ou Abel Ferrara já chegaram usando outros caminhos. “Bom Comportamento” se resume à tensão fantasma. Logo, é também um filme fantasma. Uma espécie de farsa, um filme de ação que inexiste, um jogo implícito da imagem e seu conteúdo jogado incessantemente ao espectador. Uma cidade que oferece apenas presas e caminhos tortuosos. 


O filme tem uma relação íntima com o tempo, não só em duração, mas também numa espécie de tempo cinematográfico, ou seja, fatos e ações pré-determinados que acontecem premeditadamente numa período diegético, fictício. “Bom Comportamento é um filme do tempo, de informações colocadas rigidamente para comporem um exercício formal que se revela extremamente rigoroso.


Um dos aspectos mais notáveis dessa obra é como ele nos coloca na posição do protagonista através da decupagem de Benny e Josh Safdie. Com constantes closes nos rostos dos atores, a dupla busca passar a sensação de instabilidade, com um ar frenético, que incomoda visualmente, mas que cumpre sua função, nos fazendo entender a preocupação do personagem, enquanto que ele próprio soa como se estivesse sob efeito de drogas, embora não esteja. Isso, claro, dialoga com sua ausência de sono, que já é bem marcada pela eficiente montagem de Ronald Bronstein e do próprio Benny Safdie, que esconde a transição entre sequências, de tal forma que sentimos como se tudo estivesse acontecendo seguidamente em poucas horas. 


Quem brilha é Robert Pattinson. Em seu trabalho mais consistente, o ator entrega um personagem que oscila entre a frieza e tranquilidade nos momentos que deve tomar uma atitude para resolver problemas, e a confusão quando percebe que seus planos não saem como o esperado. Pattinson vai bem, mas não se impõe gratuitamente. Seu personagem não é grandioso (ao contrário, é um ladrão comum) e não há uma tentativa de torná-lo maior do que o roteiro pede do ator. Mas é nos detalhes que vemos o destaque. No olhar e nos trejeitos criados. Interpretação poderosa e elogiada. 


quarta-feira, 15 de novembro de 2017

O FILME DA MINHA VIDA - Brasil, 2017 – Direção Selton Mello – elenco: Vincent Cassel, Selton Mello, Bruna Linzmeyer, Johnny Massaro, Bia Arantes, Rolando Boldrin, João Prates, Antonio Skármeta Vitória Strada – 113 minutos

                               ONDE SUTILEZA SE ENCONTRA COM BELEZA 


“O Filme da Minha Vida” é daqueles longas em que todos os personagens importam, incluindo a pequena trama de um menino que está doido para perder a virgindade. Um filme que conquista a nossa simpatia e mantém nosso interesse constante. (Almanaque Virtual)


Em certo momento da projeção, ao explicar a Johnny por que não gosta de ir ao cinema, Paco diz que este “é um troço escuro que você fica lá dentro vendo a vida dos outros em vez de cuidar da sua e perde duas horas da vida”. Pois de minha parte só tenho a agradecer aos responsáveis por esta obra. (Cinema em Cena)


Aliado ao tom episódico, cada minuto de projeção de “O Filme da Minha Vida” demonstra-se útil para entendermos os problemas, as decisões, os personagens (principais e secundários) e a vida simplória naquela cidade pacata e dona de charme marcante, duas características que podem ser literalmente atribuídas também a esse filme, dono de final forte e eficiente. (Cinema com Rapadura)


Esse trajeto existencial vem num formato em que a beleza joga papel fundamental. Sem ser um feel good movie (filme para se sentir bem) no sentido clássico, "O Filme da Minha Vida" é, como definiu Selton Mello, um presente para o espectador em tempos difíceis. Um bombom. (Jornal O Estado de São Paulo)


Mello guarda para si um papel coadjuvante e elege como protagonista Johnny Massaro. É a delicadeza da performance do jovem que dá corpo a uma discussão sobre ausência, herança e missão. (Rolling Stone)


A tradição de uma sociedade patriarcal manda que o filho assuma a liderança da família quando o pai vai embora. É assim na vida e, por reflexo, é assim no cinema; mas com a diferença que o segundo torna possível qualquer justificativa. Daí vem seu encanto. (Jornal O Globo) 



domingo, 12 de novembro de 2017

PATERSON (Paterson) EUA / França, 2016 – Direção Jim Jamursch – elenco: Adam Driver, Golshifteh Farahani, o cão Nellie, Rizwan Manji, Dominic Liriano, Trevor Parham, Troy T. Parham, William Jackson Harper, Chasten Harmon, Luis da Silva Jr., Brian McCarthy, Jaden Michael, Masatoshi Nagase, Barry Shabaka Henley, Method Man, Kara Hayward, Jared Gilman – 118 minutos

            O MELHOR FILME DO ANO!! UM TRIUNFO CINEMATOGRÁFICO!! 

A POÉTICA DO SIMPLES COMO ANTÍDOTO AOS EXCESSOS ALIENANTES DO MUNDO CONTEMPORÂNEO


Paterson é um motorista de ônibus que mora na cidade de Paterson, New Jersey – ele e a cidade dividem o mesmo nome. Diariamente, Paterson vive uma simples rotina: dirige pela rota diária, observa a cidade, ouve fragmentos de conversas, escreve poesias num caderno, passeia com o cachorro, bebe uma cerveja no bar de sempre e, finalmente, volta para casa, para a esposa Laura. Ela, em contraste, vive num mundo que sempre muda, com novos sonhos diários. Eles se amam. Ele a apoia no alcance das novas ambições, ela festeja nele o dom da poesia. “Paterson”, o filme, observa os triunfos e derrotas da vida diária com poesia evidente nos mínimos detalhes. 


Sim, Paterson (Adam Driver) é um motorista de ônibus na cidade de ... Paterson. Essa redundância é o primeiro achado poético do filme. Depois, de maneira inesperada, Paterson também acaba por escrever poesias. E, mais, vive poeticamente. Ou seja, tem contato com as coisas, na contramão da maneira distanciada e voltada para si que passa por normalidade em nossos dias. Paterson, o homem, é tão poético que escreve poesias sem qualquer pretensão de ser publicado, ficar famoso, ganhar dinheiro. É como se escrevesse para si em primeiro lugar, o que é boa definição do que seja vocação literária. Se alguém precisa escrever, se o impulso para a escrita nada tem de pragmático, mas expressa apenas sua necessidade interior, então sim se pode dizer que se é um escritor. Aliás, era um dos conselhos que Rilke dava ao jovem poeta. Se conseguir não escrever, não escreva. Se não tiver jeito de evitar, então você é um poeta. O roteiro é muito bem trabalhado e joga contra as certezas do espectador mais experiente. Ele repete uma situação inúmeras vezes. O espectador espera que sempre haverá uma consequência, mas ela nunca chega.


A atuação contida de Adam Driver, que entrega sua cara estranha e assimétrica a um homem estranho e assimétrico, colabora muito na realização desse personagem. O ator oferece um comportamento desinteressado de Paterson diante de seu grande dom. Numa das cenas mais preciosas do filme (que é recheado delas), Driver observa o acidente caseiro causado pelo cão de sua companheira com uma despretensão absolutamente carregada de ressentimento. Vê-se, pelas minúcias das feições do ator, uma torrente de intenção e sensações entregues à tela. Os melhores momentos, contudo, são quando os poemas invadem o quadro. Repetidos algumas vezes, geralmente com pequenas variações entre elas, os poemas são literalmente escritos em tela, quebrando a estética naturalista adotada até então. Paterson distrai-se pelo canto de um pássaro fora de enquadramento, e de algum modo isso nos transmite algo, coisa do que significa a poesia, essa escrita tão peculiar que parece mover a mente de tantos, ainda que sempre se mantenha restrita a um público pequeno. Assim, ele é didático sem perder a poética, porque a poesia demanda certas explicações.UM DOS MAIS BELOS FILMES DO ANO!! ABSOLUTAMENTE EXTRAORDINÁRIO!! 

sábado, 11 de novembro de 2017

DIVINAS DIVAS – Brasil, 2016 – Direção Leandra Leal – elenco: Rogéria, Jane Di Castro, Eloína dos Leopardos, Divina Valéria, Marquesa, Brigitte de Búzios, Camille K., Fujika Di Halliday – 110 minutos

UMA BELÍSSIMA HOMENAGEM A UM GRUPO DE ARTISTAS TANTAS VEZES CALADAS E EXCLUÍDAS


"Divinas Divas" além de mostrar um lado pouco comum das pioneiras artistas travestidas do Brasil, serve de inspiração para buscarmos um mundo mais inclusivo e respeitador a qualquer tipo de manifestação individuais, ainda que não seja igual a sua. Sem ser saudosista, o documentário mostra que para além das rugas, pregas e carnes flácidas, há uma riqueza infinita na arte de atuar e é preciso muita garra e coragem para assumir as escolhas de vida. Um velho ditado diz que os artistas morrem duas vezes, uma quando somem dos palcos e outra quando partem deste mundo, sendo a primeira vez a mais triste. Com “Divinas Divas”, Leandra Leal deu uma sobrevida artística a um grupo incrível de performers.

Por trás das câmeras, a diretora, uma das melhores atrizes de sua geração, tem atuação discretíssima. Pouco aparece, suas perguntas são delicadas, e não deixa dúvidas: reverencia, com prazer, essas artistas, tantas vezes caladas e excluídas. Este belo filme aporta como um grande sopro de criatividade e simplicidade em uma era que os direitos humanos nunca estiveram tão ameaçados pela truculência religiosa e política. Leandra Leal entrevista as grandes estrelas do passado e consegue fazê-las despejar um pouco de suas essências no filme, deixando pouco espaço, ou nenhum, para vontades não supridas do público. "Divinas Divas" é realmente mais do que um filme, é parte digna e muito necessária da cultura de nosso país.


Sem fugir de sua extrema aproximação com o que é contado em tela e aproveitando todo o saudosismo para transformar "Divinas Divas" tanto em um material histórico para a memória de sua família, o filme agarra e conquista os espectadores com seus sentimentos tão energizantes e carinhosos. A atriz Leandra Leal assume a tarefa de contar, na primeira pessoa, uma história que é a sua própria. Como nos melhores filmes, há momentos de ternura, melancolia e do humor mais desbragado, digno dos ícones deste carisma e valentia. "Divinas Divas" é sensível, tocante e necessário, pois quebra qualquer estereótipo preconceituoso ao relembrar que um dia já fomos mais alegres e menos intolerantes. E tudo isso, com muito brilho!



quinta-feira, 9 de novembro de 2017

METELLO, UM HOMEM DE MUITOS AMORES (Metello) Itália, 1970 – Direção Mauro Bolognini – elenco: Massimo Ranieri, Ottavia Piccolo, Tina Aumont, Lucia Bosé, Frank Wolff, Pino Colizzi, Mariano Rigillo, Luigi Diberti, Manuela Andrei, Corrado Gaipa, Adolfo Geri, Claudio Biava, Franco Balducci, Steffen Zacharias, Sergio Ciulli, Renzo Montagnani, Piero Morgia, Gino Pernice, Luigi Antonio Guerra, Compagnia Stabile del Teatro Comunale di Firenze – 107 minutos

                         UMA OBRA DE ARTE MEMORAVELMENTE REALIZADA!! 


O Filme que representou oficialmente a Itália no Festival de Cannes e deu o prêmio de interpretação à novata Ottavia Piccolo. É o aclamado filme do requintado Mauro Bolognini. A história gira em torno de um rapaz, Metello Salani (Massimo Ranieri), que órfão desde cedo, ruma para a Florença em 1890, onde vai trabalhar como ladrilheiro. Mas logo é reconhecido pelos socialistas e anarquistas que foram companheiros de lutas de seu pai. E também se verá envolvido nas intrigas e prazeres da sociedade “Oitocentista”, querido pelas mulheres e tudo mais. No elenco feminino, uma grande presença: Lucia Bosé.  


Metello é um rapaz que luta para escapar da pobreza que levou seus pais à morte prematura, e que parece ser o destino de grande parte da classe trabalhadora no norte da Itália durante a segunda metade do Século XIX. Metello luta para sair de sua condição pobre através do trabalho duro, de uma vontade inabalável de resistir à opressão herdada de seu pai, mas também tirando proveito de sua boa aparência quando se trata de seduzir as mulheres. Ele assume progressivamente um papel importante na organização de um movimento operário emergente, e tenta conciliar suas atividades políticas arriscadas com sua vida privada. Uma obra de arte memoravelmente realizada!! 



domingo, 5 de novembro de 2017

A VIAGEM DE FANNY (Le Voyage de Fanny) França, 2017 – Direção Lola Doillon – elenco: Léonie Souchaud, Fantine Harduin, Juliane Lepoureau, Ryan Brodie, Anaïs Meiringer, Igor van Dessel, Lou Lambrecht, Cécile De France, Stéphane De Groodt, Lucien Khoury, Victor Meutelet, Elea Körner, Jérémie Petrus – 94 minutos

                   UMA INCRÍVEL HISTÓRIA DE BRAVURA E SOLIDARIEDADE


Com seus 12 anos, Fanny é uma menina muito teimosa, mas é, sobretudo, uma jovem corajosa que, escondida num lar distante de seus pais, cuida das duas irmãs mais novas. Tendo que fugir precipitadamente, ela se coloca à frente de um grupo de oito crianças e inicia uma perigosa viagem através da França ocupada para chegar à fronteira da Suíça. Baseado em fatos reais, A Viagem de Fanny conta os horrores da Segunda Guerra Mundial atravessando impiedosamente a infância de judeus obrigados a uma vida errante, longe dos pais. Diferentemente de outros filmes, que filtram as agruras de conflitos e/ou de períodos nefastos, como as ocupações e as ditaduras, por exemplo, pelo olhar pueril que acompanha tudo de fora, aqui as crianças são tragadas pela fúria nazista, enfrentando constantemente situações limítrofes. A cineasta Lola Doillon mescla aventura e drama de sobrevivência, não se esquecendo das minúcias históricas, até mesmo criticando abertamente o colaboracionismo francês, visto, aliás, como decisivo para a instauração das tensões vistas ao longo da trama. A protagonista é a menina Fanny (Léonie Souchaud), mais velha de três irmãs que, como outros tantos mais ou menos de sua idade, vive numa casa sob a proteção de gente abnegada, cuja oposição à intolerância se dá na esfera da solidariedade, na ajuda perigosa ao próximo.


O filme é uma realização atenta aos detalhes, dos quais se desprende a relevância de um relato que choca o mundo dos adultos, então assombrados pela violência alemã, com o das crianças, que penam para entender o que está acontecendo. A Segunda Guerra Mundial parece ser uma fonte inesgotável de enredos para a indústria cinematográfica. Diversos filmes já retrataram o período sobre os mais diversos aspectos e personagens. Histórias para os mais diversos públicos. Filmes como “O Pianista”, “O menino do Pijama Listrado”, “O Zoológico de Varsóvia”, “O Resgate do Soldado Ryan”, até mesmo o brasileiro “Olga”, são alguns dos exemplos de obras que resgataram a memória dos horrores da Segunda Guerra. Aqui a imaginação não permite brincar, o que está em jogo é a sobrevivência de um grupo de crianças, que sem os pais, fogem da possibilidade da execução. Ainda que a perspectiva seja o olhar de uma criança de doze anos, o tom do filme está longe de ser infantil, a realidade faz com que o olhar sobre a infância se perca em meio a necessidade da sobrevivência.



sábado, 4 de novembro de 2017

BANCANDO A AMA-SECA (Rock-a-Bye Baby) EUA, 1958 – Direção Frank Tashlin – elenco: Jerry Lewis, Marilyn Maxwell, Connie Stevens, Salvatore Baccaloni, Reginald Gardiner, Hans Conried, Isobel Elsom, James Gleason, Gary Lewis, Ida Moore, Hope Emerson, Alex Gerry, Mary Treen, Judy Franklin – 103 minutos

JERRY LEWIS PÕE EM PRÁTICA O SEU HUMOR NONSENSE QUE TANTO LHE AGRADAVA


Após uma longa temporada trabalhando ao lado de Dean Martin em filmes produzidos pela Paramount, Jerry Lewis deu início à carreira solo e pôde colocar em prática o humor nonsense que tanto lhe agradava. Sob a direção de Frank Tashlin, ele interpreta Clayton, um técnico em eletrônica que nutre uma paixão por Carla, uma vizinha que se tornou estrela de cinema. Ele, no entanto, tem sua vida alterada quando sua musa lhe entrega suas trigêmeas para que tome conta enquanto ela termina as filmagens de um épico. E aí começa uma sequência de situações engraçadas envolvendo mamadeiras, ursinhos de pelúcia e fraldas.
Bancando a Ama-Seca não faz propaganda enganosa. A cena em que apresenta Clayton para o espectador dura quase oito minutos em função de uma mangueira fora de controle, que molha e destrói casas. Jerry Lewis deita e rola, literalmente, pois atingiu a sua meta: o público sabe que está ali para se divertir. E o auge dessa diversão se dá quando ele, tentando enganar o avô das trigêmeas, interpreta vários papéis dentro de uma televisão quebrada. O filme foi produzido em 1958, e por conta disso tem tendências bem machistas, mesmo que o protagonista assuma a responsabilidade de cuidar de três bebês sozinho. Compreensível, já que Hollywood pode até bancar a moderninha, mas no fundo alimenta sonhos de princesa, com direito a casamento e casa com jardim florido. Jerry Lewis virou lenda do cinema com seus filmes de comicidade e, para ele, a hilaridade sempre comandava o espetáculo. Excelente filme, merece ser visto e revisto. 




quinta-feira, 2 de novembro de 2017

A PEREGRINAÇÃO (Pilgrimage) Irlanda / Bélgica / EUA, 2017 – Direção Brendan Muldowney – elenco: Tom Holland, Richard Armitage, Jon Bernthal, John Lynch, Rúaidhrí Conroy, Hugh O’Conor, Tristan McConnell, Donncha Crowley, Stanley Weber, Peter Cosgrove, Lochlann O’Mearáin, Nikos Karathanos – 96 minutos

                                           UMA VIAGEM FEITA DE SANGUE 


Com uma direção primorosa de Brendan Muldowney, a trama gira em torno de um grupo de monges que se comprometem com uma peregrinação para o transporte da relíquia mais sagrada de seu mosteiro em Roma. Quando o verdadeiro significado da relíquia é revelado, a viagem torna-se muito mais perigosa, e a fé do grupo e lealdade para com o outro são testados. Jon Bernthal interpreta um monge mudo com um passado violento. Richard Armitage retrata um cavaleiro misantropo com quem os monges são obrigados a compartilhar sua jornada. E Tom Holland, o atual Homem-Aranha do universo da Marvel, é o irmão Diarmuid, o jovem noviço que encabeça a travessia. 


A produção é considerada um veículo para a ascensão desses três atores principais, e   apesar de não ser uma super produção, o filme tem muito a oferecer. Com uma ambientação impecável e uma narrativa cativante, o filme está agradando plateias por onde é exibido. No filme, ambientado na Irlanda do ano 1209, um pequeno grupo de monges inicia uma relutante peregrinação por um país dividido e ameaçado pelo crescente poder de invasores nórdicos. Escoltando uma relíquia cristã, que supostamente teria o poder supremo, os corajosos integrantes do grupo arriscarão suas próprias vidas, e dentre eles, está o jovem Diarmuid (Tom Holland), que nunca viu o mundo fora da ilha onde convive com seus irmãos monges, e um misterioso estranho mudo (Jon Bernthal), que foi acolhido pelo grupo anos atrás. Ambos terão um papel decisivo no destino do grupo e da relíquia que carregam.


O cineasta irlandês apresenta um cuidado com a qualidade de sua produção. Maravilhosamente fotografado por Tom Comerford, colaborador habitual do diretor, o filme explora com perfeição o belo e desolador cenário invernal da Irlanda, que garante à produção um clima um tanto opressivo que se encaixa perfeitamente na narrativa. Também o cuidado do diretor na concepção de sua obra, que ganha em veracidade por exemplo na utilização de diversos idiomas em sua produção, onde o talentoso elenco profere diálogos em dialetos irlandeses, em francês, entre outras línguas. O roteiro do estreante Jamie Hannigan explora bem o turbulento momento religioso do período que sua história retrata, dissertando sobre as inconsistências do cristianismo e das vertentes religiosas que o confrontavam. É uma produção rica em contexto e executada com bastante competência, que discorre de maneira interessante sobre os desígnios da fé em conflito com as antigas superstições, além do poder da irmandade e da lealdade entre os homens.