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domingo, 9 de julho de 2017

O ESPÍRITO DA COLMÉIA (El Espiritu de la Colmena) Espanha, 1973 – Direção de Victor Erice – elenco: Ana Torrent, Isabel Tellería, Teresa Gimpera, Fernando Fernán Gómez, Kétty de la Cámara, Estanis González, Juan Margallo, José Villasante, Laly Soldevila, Miguel Picazo – 97 minutos

                  ACLAMADO COMO UM DOS MAIS BELOS FILMES DO CINEMA



O espanhol Victor Erice tinha apenas 23 anos ao estrear na direção cinematográfica de longas-metragens com a estranha e bela fábula alegórica “O ESPÍRITO DA COLMÉIA”. Foi um início de carreira arrebatador. A obra venceu o prestigiado Festival de San Sebastian e decolou, em uma trajetória vitoriosa que acumulou prestígio ao longo dos anos, a ponto de ter sido votada por cinéfilos do país de origem como terceiro melhor filme espanhol de todos os tempos, em votação realizada em 1996. É um título justo para um filme belo e difícil, que usa técnicas de realismo fantástico para pôr uma criança no centro de uma história que une dois temas duros e aparentemente inconciliáveis – a política e a filosofia. Exibindo enorme segurança narrativa e olho privilegiado para compor imagens de luz e textura inesquecíveis, Victor Erice ousa entrelaçar, com muita habilidade, dois temas que raramente aparecem juntos num mesmo longa-metragem. Através de alegorias intrincadas, o drama rural traça um panorama pessimista e tristonho da alienação e do isolamento provocados pela guerra civil espanhola, sem soar em nenhum momento engajado ou mesmo doutrinador. Ao mesmo tempo, acompanha com delicadeza o processo de tomada de consciência, pela pequena protagonista, da inevitabilidade da morte. Talvez seja um dos retratos mais bonitos e pungentes desta fase melancólica da infância de todos nós. 

A história traz como protagonista Ana (Ana Torrent), filha de seis anos de um apicultor. Ela freqüenta a escola de uma aldeia isolada, na área rural da Espanha, junto com a irmã mais velha, Isabel. Certo dia, um comboio itinerante exibe para os estudantes o clássico de horror “Frankenstein” (1931), de James Whale. Fascinada pela figura do monstro, Ana não entende muito bem o que ocorreu na mais famosa cena do filme (aquela em que ele mata sem querer uma menina, jogando-a num lago). Com os parentes sempre distantes e em crise – o pai passa os dias cuidando de colméias, enquanto a mãe espera em vão um amor do passado que nunca surge – ela busca resposta com a irmã, que está mais próxima. Meio de brincadeira, Isabel diz a Ana que as mortes da criança e da criatura são pura fantasia cinematográfica. Ela garante que o monstro está vivo e mora num galpão abandonado perto da casa delas. Segundo Isabel, Frankenstein é um fantasma, e sua aparência externa grotesca, no longa exibido para os meninos, é apenas uma roupa. Excitada com a possibilidade de encontrar e conversar com a criatura, Ana passa a freqüentar o tal galpão com assiduidade, ainda que ele esteja quase sempre vazio. É lá que ela vai manter um encontro inesperado que mudará para sempre sua maneira de ver a vida.



Trata-se de uma bela história. Impressiona, sobretudo, pela destreza com que o jovem e inexperiente Victor Erice consegue erguer metáforas complexas e originais para traduzir a sensação de isolamento que a Espanha experimentava na época, sob a cruel ditadura de Franco. Em certo momento, por exemplo, o pai ensina as crianças a observar o “movimento histérico das abelhas na colméia”. O espectador mais atento vai observar que as janelas do casarão velho e escuro onde vive a família tem a aparência de gomos de mel. A colméia, portanto, simboliza a residência da família, que por sua vez vive sem conseguir se comunicar, com os membros em permanente mutismo, distantes entre si. O diretor ilustra essa incomunicabilidade filmando os quatro moradores da casa sempre em planos distintos – não há uma única tomada em que pai, mãe e filhas apareçam todos juntos. Em uma leitura mais ousada, é possível ainda compreender o casarão como uma metáfora para a própria Espanha: um lugar dividido, em que a crise é claríssima e evidente, mas ninguém tem coragem de abordá-la. Corajosamente, o cineasta não se põe em nenhum lado, tecendo apenas um lamento pungente pela situação em que o país se encontra. E faz isso de modo sutil, sem jamais mencionar diretamente a guerra civil que rachava o país em dois. No meio de tudo isso, ele encontra espaço para abordar a jornada pessoal da criança, que gradativamente começa a tomar consciência desta situação de crise, ao mesmo tempo em que percebe o significado da morte e todas as suas conseqüências. Se é belíssimo, contudo, O ESPÍRITO DA COLMÉIA é também um filme extremamente difícil. A ausência quase completa de diálogos, bem como as longas tomadas com a câmera estática, emprestam ao filme um ritmo bastante lento. Dão a ele, também, um caráter reflexivo, já que absolutamente nada é exposto diretamente. Tudo precisa ser deduzido a partir da observação atenta – e os longos silêncios auxiliam o espectador na tarefa de desvendar os significados ocultos das belas imagens em tons de mel, erigidas pelo excepcional fotógrafo Francisco Cuadrado. Uma obra-prima do cinema  mundial!! Poderoso, sensível, tocante, nostálgico e arrebatador!! Um belíssimo filme!!




sábado, 8 de julho de 2017

A TARTARUGA VERMELHA (La Tortue Rouge) França / Bélgica, 2016 – Direção Michael Dudok dev Wit – Animação com as vozes de Emmanuel Garijo (o pai), Tom Hudson (o filho adulto), Baptiste Goy (o filho criança), Axel Devillers (o filho bebê), Barbara Beretta (a mãe) – 80 minutos

                           UMA ALEGORIA EXISTENCIAL DE RARA BELEZA!!


Merecidamente indicado ao Oscar 2017 de Melhor Animação, o filme mantém o tom poético e fabular típico das histórias trazidas pelo estúdio Ghibli, assim como uma animação visualmente deslumbrante, especialmente ao assumir seu lado paisagístico. Completamente sem diálogos, o filme acompanha os esforços de um náufrago pela sobrevivência em uma ilha deserta. Não demora muito para que este protótipo de Robinson Crusoé tente deixar o local, construindo uma jangada. Só que, sempre que se afasta do litoral, uma imensa tartaruga vermelha destrói a embarcação. A dinâmica entre homem e natureza é importantíssima dentro desta narrativa silenciosa, não apenas quando os expoentes da história se encontram. Mesmo antes é possível notar o respeito existente por parte do náufrago, que apenas se alimenta do que encontra e consegue colher na própria ilha. Diante desta postura, torna-se ainda mais impactante a reação brutal vista no esperado encontro, realçada pelo tom avermelhado que a animação assume naquele instante.

Encantando o espectador com sua história de amor e emocionando-o com a trajetória temporal de seus amantes, essa obra provoca lágrimas com sua doçura e com o profundo afeto que evoca. A passagem do tempo, o poder e a indiferença da natureza e os desafios da sobrevivência são temas belamente incorporados. Simplesmente é a animação em movimento no seu auge. É muito mais do que uma trama ecológica qualquer. Ele incorpora a beleza dos elementos, tanto vivos quanto minerais, com a força das grandes narrativas mitológicas. Com traços minimalistas e um distanciamento às vezes quase clínico dos personagens, "A Tartaruga Vermelha" é um triunfo da animação por conta de sua beleza visual e força narrativa. No seu ritmo poético e lírico propõe a incompletude, coloca em cena imagens não para o agora, mas que proporcionam uma viagem por caminhos em busca de significado. Comprova como pode ser gratificante ficar à deriva diante de uma experiência fílmica.


Com um roteiro que à primeira vista parece simples, o filme é uma daquelas obras que se constrói nos detalhes e lentamente. Ela usa o que há de mais sutil e essencial na existência humana para contar sua história. Essa aventura, emoldurada por traços muito simples e cores vivas, além da bela música de Laurent Perez del Mar, tem como centro a saudade de uma vida que foi deixada para trás. Extremamente delicado e poético, brilha pela qualidade da animação, pela dinâmica do silêncio empregada e por tão bem retratar o ciclo da vida inerente a todos. Contemplativo sem jamais cansar, trata-se de um libelo ao amor e à natureza, contado a partir da história de uma vida. Um estudo de silêncio, solidão e beleza impressionante, É um retorno aos princípios. É poesia em forma de cinema, uma alegoria existencial de rara beleza, que diz tudo que precisa sem ter que falar absolutamente nada.


sexta-feira, 7 de julho de 2017

QUATRO VIDAS DE UM CACHORRO (A Dog’s Purpose) EUA, 2017 – Direção Lasse Hallström – elenco: Josh Gad, Dennis Quaid, Peggy Lipton, Bryce Gheisar, K. J. Apa, Juliet Rylance, Luke Kirby, Gabrielle Rose, Michael Bofshever, Britt Robertson, Logan Miller, John Ortiz, Nicole LaPlaca, Kirby Howell-Baptiste, Pooch Hall, Michael Patric – 100 minutos

                          TODO CACHORRO EXISTE POR UMA RAZÃO 


Um filme com cara de “sessão da tarde”, que não tem qualquer ambição fora ser um passatempo ameno até demais e nenhuma vergonha de ser descaradamente melodramático. O sueco Lasse Hallström, realizador de “Minha Vida de Cachorro” (Mitt Liv Sum Hund - 1985); “Gilbert Grape – Aprendiz de Sonhador” (What’s Eating Gilbert Grape – 1993); “Regras da Vida” (The Cider House Rules – 1999); “Chocolate” (Chocolat – 2000), com a Juliette Binoche e Johnny Depp; “Sempre ao Seu Lado” (Hachi: A Dog’s Tale – 2009), entre outros, volta a usar um cachorro como protagonista e isca para choro livre. Baseado no homônimo best-seller de W. Bruce Cameron, “A Dog's Purpose” (título original) é estrelado por um cão inquieto sobre o seu existir. Conforme o título indica, ele morre e reencarna várias vezes em busca de respostas e do reencontro com seu dono mais querido, Ethan, primeira pessoa a amá-lo. O menino entra em cena na segunda vida do cachorro, em 1961, o batiza de Bailey e é realmente o melhor companheiro que ele poderia sonhar. Cheio de energia, carinhoso, cúmplice e paciente, Ethan tem sua imagem boa construída com tanto esmero que chega até a roubar o protagonismo durante algum tempo - o que não chega a ser ruim para a história. Bryce Gheisar, que interpreta o garoto, é puro carisma e fofura, e o adolescente K. J. Apa mantém as características quando ocorre a passagem de tempo. 

Narrada com inocência e leveza pelo cachorro, que na versão legendada tem a voz um tanto quanto infantil de Josh Gad (“Frozen – Uma Aventura Congelante”), a produção começa tentando "ser" o cão, com uso e abuso da câmera subjetiva. No início a opção é divertida, mas depois incomoda um pouco. O diretor continua com seu estilo que funciona. Ele filma bem, sabe contar histórias familiares, tem talento para fazer chorar e sempre consegue. Comparando com “Sempre ao Seu Lado”, este “Quatro Vidas de um Cachorro” é menor pela irregularidade da narrativa e incongruências do personagem principal, mas tem a vantagem de não buscar tão desesperada e escancaradamente as lágrimas dos espectadores. O filme teve problemas com as acusações de maus tratos animais, que caíram como uma bomba pouco antes da sua estreia e o transformaram no famoso "filme do cachorro que apanhou".  Mesmo assim é um filme leve, divertido, que por muitas vezes se entrega aos clichês, mas sempre tendo consciência da sua simplicidade, não tentando conquistar seu espectador através das lágrimas somente. Lasse Hallström segue a cartilha do melodrama espírita numa vertente canina. Embora manipulador de emoções, o filme sabe como comover o espectador que tem um pet em casa.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

NA VERTICAL (Rester Vertical) França, 2016 – Direção Alain Guiraudie – elenco: Damien Bonnard, India Hair, Raphaël Thiéry, Christian Bouillette, Basile Meilleurat, Laure Calamy, Sébastien Novac, Baptiste Roques, Adrien Marsal – 98 minutos

UMA NARRATIVA ENVOLVENTE E CONVINCENTE CONECTA FRAGMENTOS SOLTOS E ABSURDOS EM TORNO DE UMA HISTÓRIA BIZARRA PRÓXIMA DE UMA FÁBULA 


O cinema de Alain Guiraudie apresenta um dos filmes mais polêmicos do ano e adquire uma amplitude magistral. Uma amplitude ao mesmo tempo geográfica (atravessa-se a França da Bretanha à Lozère), temática (o filme aborda uma ambição política direta e discreta) e formal. Ao invés de um sonho, o filme vai rapidamente para o lado da ironia do pesadelo. O diretor prolonga de maneira ainda mais pessimista o que já dizia em "O Rei da Fuga": a evasão, a linha de fuga, é na verdade um círculo. Com uma singularidade quase ímpar aborda paternidade, falta de moradia, homossexualidade e eutanásia, esta última de maneira rara e espetacular. O filme se eleva a uma altitude fantástica e libertadora: os sentimentos, os desejos e as aspirações de cada um se transformam diante dos nossos olhos, como se todos os personagens pudessem interpretar a totalidade dos papéis, pouco importa seu sexo e sua idade. A busca desesperada por companhia e por afeto cria um divertido jogo de troca de casais, que é também revelador desse vazio, tão humano, em que os personagens de Guiraudie estão mergulhados. Explicando seu título nos últimos segundos, ‘Na Vertical’ é uma obra sólida e devastadora. Desencaixa as próprias regras e encara as emoções com um impacto sexual ainda mais deslumbrante. Às vezes a estranheza das pessoas e a dura indiferença da natureza que os cerca parece ser real, mesmo se realismo seja a última coisa que o cineasta pretendia atingir. Com uma narrativa envolvente e convincente, conecta fragmentos soltos e absurdos em torno de uma história bizarra próxima de uma fábula.
“Na Vertical” causou sensação, espanto e até mal estar por onde passou. Ele explora bastante o mistério. Pouco se sabe sobre o personagem principal além do nome Leo, e que ele ronda o interior da França em um carro (que sequer pode ser realmente seu). O espectador também sabe que ele escreve um roteiro, sabe-se lá o porquê ou para onde. A construção de tal personagem tão misterioso se baseia muito em seus atos e olhares, que revelam um desejo velado muito bem captado pelo seu intérprete, Damien Bonnard. Este, por sinal, é outro ponto bastante interessante do filme: o diretor trabalha a sexualidade de todos os personagens, seja ela latente ou enrustida. Ninguém, absolutamente ninguém, fica em cima do muro neste conto onde o sexo tem peso importante. O filme traz cenas de nudez frontal feminina e masculina, sem o menor pudor, sempre integradas neste ambiente onde todos estão de olho em todos, sem distinção de gênero. É a partir desta teia entre personagens tão desconexos que o diretor, pouco a pouco, constrói um universo envolvente, mesmo com tão poucas informações à disposição. Mas nem é preciso. Acima de tudo, é um filme muito bem dirigido, pela composição deste clima que ronda toda a história. Vale ressaltar ainda o uso das canções do Pink Floyd e a sequência do suicídio assistido, surpreendente e impactante. O filme foi apresentado no Festival de Cannes em maio de 2016.



domingo, 2 de julho de 2017

PATTON, REBELDE OU HERÓI? (Patton) EUA, 1970 – Direção de Franklin J. Schaffner – elenco: George C. Scott (General Patton), Karl Malden (General Bradley), Michael Bates (Montgomery), Ed Binns (Bedell), Stephen Young (Cap. Chester), Lawrence Dobkin (Coronel Gaston), John Doucette (General Lucian), Siegfried Rauch (Cap. Steiger), Paul Stevens (Tenente-Coronel Codman), Karl Michael Vogler (Marechal Rommel), James Edwards, Frank Latimore, Richard Münch, Morgan Paull, Michael Strong, Tim Considine (Soldier who gets slapped) – 173 minutos

          UM FILME DE GUERRA ABSOLUTAMENTE DEVASTADOR!! 


Aclamado pela crítica internacional como um dos mais espetaculares e assombrosos filmes sobre a Segunda Guerra Mundial. PATTON é um retrato absorvente de um dos maiores gênios militares do Século XX. Ele foi o único general aliado que realmente era temido pelos nazistas. Radical, conservador, rígido e extravagante, Patton desenhava seus próprios uniformes, ostentava um revólver com cabo de marfim, e acreditava que havia sido um grande guerreiro em vidas passadas. Ele ludibriou Rommel na África, e após o Dia D, comandou tropas em uma campanha sem descanso por toda a Europa. Mas ele era tão rebelde quanto brilhante, e apesar de ter uma incrível visão e perspicácia, sua própria personalidade era um inimigo que ele jamais conseguiria vencer. 

O que Francis Ford Coppola conseguiu com seu roteiro – pronto desde 1964, mas só filmado em 1970 – foi levantar uma polêmica sem precedentes, ao talhar seu personagem principal com uma eloqüência febril, um messianismo desproporcional e um caráter tão violento que parece filiado ao fascismo. O verdadeiro general George Patton (nascido em 1885 e falecido em 1945) era, pelo visto, tudo isso e mais um pouco. Ele entrou para a História comandando o III Exército dos EUA na Segunda Guerra, quando se mostrou um demônio estrategista nas batalhas de blindados em solo europeu e na Tunísia. O Patton que Coppola traçou e Franklin J. Schaffner dirigiu à risca é um maníaco que oscila entre o brilho ofuscante das estratégias vitoriosas e a vileza no tratamento de seus comandados. A carreira do mais controvertido comandante norte-americano da Segunda Guerra é contada aqui de forma brilhante e competente. O diretor realizou um trabalho primoroso, com, entre outros fatores, uma fotografia extraordinária e de grande impacto. 

O filme possui duas seqüências que se tornaram clássicas e famosas, que ficarão para sempre como um dos grandes triunfos do cinema:  a primeira é a seqüência antes dos títulos, com a bandeira norte-americana tomando toda a tela, sem som, e Patton, em uniforme completo, fazendo um discurso de seis minutos sobre sua filosofia de batalha; e a segunda, é aquela quando Patton esbofeteia um soldado, que sofria de fadiga de batalha, acusando-o de covardia. Por causa dessa atitude, ele foi destituído do comando do Sétimo Exército, na Sicília. Anos mais tarde, ele fez um pedido de desculpas. Essas duas seqüências antológicas causaram enorme repercussão quando do lançamento do filme. A rivalidade com o Marechal Montgomery chegou a um ponto crítico e, mesmo depois do espetacular avanço pela Normandia, quando venceu o cerco de Bastogne, Patton foi mobilizado por ordem de Eisenhower que, pressionado politicamente, dá prioridade à frente de Montgomery. O filme termina pouco antes do desastre de automóvel em que Patton morreu, em 1945. 

Desde 1951, o produtor Frank McCarthy, general-brigadeiro reformado, queria filmar a biografia de Patton. Ninguém demonstrava interesse, até que Darryl F. Zanuck e a 20th Century-Fox aceitaram o projeto. O filho de Patton não aceitava o roteiro; John Huston e William Wyler desistiram de dirigí-lo; os historiadores do Pentágono e os contemporâneos de Patton custavam a concordar entre si. Coppola fez o roteiro final em 1965, mas Edmund H. North teve que reforçar a estrutura da história. As filmagens começaram em fevereiro de 1969, na Espanha, com um orçamento de 12 milhões de dólares. O filme recebeu dez indicações ao Oscar e ganhou sete, inclusive Melhor Filme do Ano. George C. Scott foi premiado como melhor ator, mas recusou o Oscar alegando: “A vida não é uma corrida de competição, por isso não me considero em competição com meus colegas de profissão, em busca de prêmios ou reconhecimento”. Nunca foi buscar a estatueta. Um filme poderoso e perpétuo!!!. 


sexta-feira, 30 de junho de 2017

KONG: A ILHA DA CAVEIRA (Kong: Skull Island) EUA, 2017 – Direção Jordan Vogt-Roberts – elenco: Tom Hiddleston, Samuel L. Jackson, Brie Larson, John C. Reilly, John Goodman, Thomas Mann, Toby Kebbell, Corey Hawkins -  118 minutos

                                                  VIDA LONGA AO REI 

Renovando a temporada de “filmes de monstros”, "Kong: A Ilha da Caveira" recicla o bom e velho King Kong, apresentando-o no maior tamanho até agora visto na tela (100 metros) e adaptando sua natureza para novos tempos. Um filme alucinante, bastante elegante, com referências a clássicos dos anos 1980 e 1990, e com um acabamento primoroso na fotografia, montagem, direção de arte, efeitos visuais. O diretor apresenta uma versão light de Zack Snyder. Mistura e estetiza games, quadrinhos e temas orientais com a cinefilia obrigatória pós-Nova Hollywood, de Steven Spielberg a Francis Ford Coppola. O filme não é ruim, mas também não é bom. Se a intenção então é se focar nos elementos trash de cinema de monstro, ela é atingida com maestria, seja nos designs das criaturas, nos excelentes efeitos especiais, ou nas empolgantes e grandiosas cenas de ação.


“Kong: A Ilha da Caveira" é vitaminado por doses constantes e aceleradas de muita adrenalina, orquestradas com precisa habilidade e um interesse tão gigante quanto o protagonista em reinventar a roda, ao mesmo tempo em que segue reverenciando-a. Este retorno muito divertido de um dos monstros mais icônicos do cinema se movimenta loucamente e atinge um equilíbrio entre ação insana e comédia. Nos aspectos visuais, tudo é um grande prazer. O filme ignora as armadilhas dos blockbusters de ação, evitando a montagem rápida e câmera tremida, para usar um estilo mais elegante de composições e ritmos. A grande surpresa não é o fato de "Kong: A Ilha da Caveira" ser dez vezes melhor que "Jurassic World"; é um espetáculo de história de origem sobre um monstro que é empolgante e inteligente. Repleto de sequências de ação em câmera lenta, é uma verdadeira homenagem à "Apocalypse Now" (1979).
Diverte com eficácia, reservando ainda espaço para o humor, particularmente nas cenas com o simpático capitão Marlow, e mexendo com o saudosismo ao brincar com a tecnologia da década de 1970. Visualmente o filme é inspirado. Os efeitos em computação gráfica são muito bem feitos. Mas, algumas vezes, perde força, abusa dos clichês, inclusive elementos batidos da história de Kong como sua obsessão por mulheres loiras. Felizmente a novidade da paisagem, a ação constante, as frequentes cenas de explosões e até a metragem não exagerada tornam o filme um passatempo bem eficiente. Não chega a ser indicado para crianças, mas foi dinheiro mais bem gasto do que muitos outros. Os efeitos visuais impressionam, há eficiente ambiência de terror e o surgimento de novas criaturas. Mas nem tudo é perfeito. Entre o grande prólogo e o saboroso epílogo, o roteiro anda em círculos, deixando a narrativa um pouco arrastada, mas mesmo assim vale o ingresso.

                A ETERNA LUTA FILOSÓFICA ENTRE O HOMEM E A NATUREZA




















quarta-feira, 28 de junho de 2017

ESSE MUNDO É DOS LOUCOS (Le Roi de Coeur) França / Itália, 1966 – Direção Philippe de Broca – elenco: Alan Bates, Geneviève Bujold, Pierre Brasseur, Jean-Claude Brialy, Adolfo Celi, Michel Serrault, Micheline Presle, Palau, Jacques Balutin, Françoise Christophe, Julien Guiomar, Pier Paolo Capponi, Madeleine Clervanne, Marc Dudicourt, Philippe de Broca, Yves Robert, Daniel Prévost – 102 minutos

UMA DELICADA ALEGORIA ANTIGUERRA


É um dos filmes mais encantadores e mais belos dos agitados, vulcânicos e loucos anos 1960. É um dos filmes mais marcantes, e mais memoráveis do cinema francês. É uma violenta sátira antiguerra, antimilitarismo, que demonstra, como num teorema, que louco é quem faz guerra. Que acreditam no ser humano; que mostram as hipocrisias, os pecados, as insanidades das pessoas e das instituições, mas apontam que tudo poderia ser muitíssimo melhor. O filme abusa das cores. Têm muitas cores fortes, vibrantes, quentes, em cada uma das tomadas. E, nesse detalhe das cores, ESSE MUNDO É DOS LOUCOS é primo-irmão de outros filmes marcantes, impressionantes, emblemáticos, que ao mesmo tempo refletem o espírito dos anos 1960 como também ajudaram a moldar esse próprio espírito: “Os Guarda-Chuvas do Amor” (Les Parapluies de Cherbourg -1964) e “Duas Garotas Românticas” (Les Demoiselles de Rochefort) - 1967), ambos de Jacques Demy, “As Duas Faces da Felicidade” (Le Bonheur -1965), da mulher de Demy, Agnès Varda, “Elvira Madigan” (1967), do sueco Bo Widerberg.
Fracasso absoluto em seu país, o filme conheceu um imenso sucesso nos Estados Unidos, o maior mercado consumidor de entradas de cinema do mundo. Num país dividido ao meio entre os favoráveis e os opositores à intervenção militar no Vietnã, em meio a protestos constantes contra a guerra, o antimilitarismo, o pacifismo de “Esse Mundo é dos Loucos” (Le Roi de Coeur) caiu como maná abençoado no gosto dos estudantes, do nascente movimento da contracultura, os hippies etc. Na ficção de Philippe De Broca, o regimento de Alan Bates chega a uma pequena cidade do interior da França. Os habitantes, alarmados, fugiram, não sem antes abrir a porta do hospício. Quando Bates, que se chama Plumpick, se instala, os louquinhos mansos já tomaram conta do lugar. Num mundo ameaçado pela loucura da guerra, são eles os verdadeiros 'sensatos' - os racionais. Há quem diga que o filme sendo de 1966, antecipou-se e ajudou a criar o slogan "Faça amor, não faça guerra", que virou o emblema da geração paz e amor. Foi em 1965, simultaneamente à escalada da Guerra do Vietnã, que surgiu pela primeira vez o termo hippie no artigo de um jornalista de São Francisco que refletia sobre mudanças comportamentais da juventude da época. 
Na trilha aberta pela beat generation, esses jovens adotavam um modo de vida comunitário, tendendo a uma espécie de socialismo utópico e libertário. Nesse quadro, Plumpick abdica das armas para viver sua história de amor com Coquelicot, a doce Geneviève Bujold, que o diretor veste com a roupa da trapezista de “O Circo”, de Charles Chaplin, que também era o (inatingível) objeto de desejo de Carlitos. Decorrido todo esse tempo, é bom verificar que o impacto da cena final de “Esse Mundo É dos Loucos” permanece inalterado. Mas com certeza contribuiu para a aura do filme o desfecho em que o soldado, nu - e carregando a gaiola com o pássaro -, bate à porta da casa de loucos, pedindo permissão para entrar. No mundo que voltou ao "normal", os loucos precisam ser apartados e alienados de novo. E Bates não quer fazer parte dessa (des)ordem. “Esse Mundo é dos Loucos” espelha um estado de espírito, um comportamento libertário próprio dos anos 1960. Rever o filme é um pouco como viajar no tempo para encontrar a gênese da contracultura.

                   A ENCENAÇÃO DO ABSURDO EM TEMPOS ABSURDOS
    FÁBULA ANTIMILITARISTA QUE SE MANTÉM IMPLACAVELMENTE ATUAL