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sábado, 13 de janeiro de 2018

BLADE RUNNER 2049 (Blade Runner 2049) EUA / Inglaterra / Canadá, 2017 – Direção Denis Villeneuve – elenco: Ryan Gosling, Harrison Ford, Jared Leto, Robin Wright, Ana de Armas, Dave Bautista, Wood Harris, Mark Arnold, David Dastmalchian, Tómas Lemarquis, Sylvia Hoeks, Edward James Olmos, Hiam Abbass, Mackenzie Davis, Vilma Szécsi, Lennie James, Sean Young – 164 minutos 
Visualmente deslumbrante, encontra beleza até mesmo na decadência de seu mundo

Este novo grande filme ultrapassa toda as expectativas, graças à inteligência com que o diretor apropria-se do projeto, com uma ousadia que desmente quem até agora o considerava somente um esteta. Ryan Gosling interpreta o agente K. Ele é um Blade Runner, oficial designado a encontrar e eliminar replicantes infratores, ou seja, seres artificiais que não possuem autorização para fazer ou viver da forma que estão. Logo na cena de abertura, o oficial irá confrontar o personagem do grandalhão Dave Bautista. Nesta única cena em que aparece, Bautista será essencial e dará o primeiro passo do grande enigma a ser desvendado ao longo das quase 3 horas de projeção. Esta é uma obra contemplativa, de ritmo deliberadamente lento, que não faz uso de nenhuma grande cena memorável de ação. “Blade Runner 2049” segue sendo um filme de questões, de mais perguntas do que respostas e de imersão, na qual nos pegaremos pensando dias após o término da exibição.
O filme já impacta em seus primeiros segundos com a densa trilha sonora assinada por Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch (ambos envolvidos em Dunkirk e Estrelas Além do Tempo), cheia de intensos sintetizadores, e com o brilhante e belíssimo trabalho do fotógrafo Roger Deakins (colaborador de Villeneuve em outros filmes). A atmosfera evocada é completamente idílica, psicodélica e envolvente; ora cheio de cores neon e uma paleta amarelada, ora com o cinza já característico do noir, o mundo cyberpunk apresentado pelo longa-metragem é de tirar o fôlego, com uma bela direção de arte que evoca tanto o vintage, em seus monitores de tubo, quanto o moderno, com suas cores e sons de sistema operacional eletrônico.


O maior acerto de “Blade Runner 2049” está na manutenção da ambientação que consagrou o filme dirigido por Ridley Scott - que retorna nesta sequência, agora apenas como produtor executivo. Os carros voadores, a chuva (ou neve) constante, os prédios imensos com poucas pessoas nas ruas, os gigantescos painéis em neon etc está tudo lá, apontando um futuro decadente onde o brilho vem apenas do que é falso - não por acaso, a única personagem que demonstra vivacidade é justamente uma acompanhante digital programada com tal finalidade. Trata-se de um mundo seco e sério, de preconceitos arraigados, onde as pessoas pagam para ter um vislumbre de felicidade sem se importar se este é verídico. A sensação, ou a necessidade, é mais importante.

Apesar do destaque dado em peças publicitárias a Jared Leto e Harrison Ford, a participação dos dois aqui é muito pontual, apesar de bastante efetiva. O Deckard de Ford demora a aparecer, mas sua presença é sentida durante toda a projeção. Quando ele finalmente surge em tela, o faz no momento certo, com o seu personagem colocado de forma orgânica dentro da narrativa e mantendo a mesma aura e carisma de 35 anos atrás, embora o antigo Blade Runner se mostre um homem mais amargurado, haja vista tudo que perdeu nas últimas décadas. Assim como o Tyrell de Joe Turkel em 1982, o Wallace de Leto considera-se um criador, dotado de uma aura quase divina. Nisso, diversos panteões são referenciados através do personagem. O Egito antigo é representado pelos opulentos cenários banhados em luz dourada nos quais Wallace surge. Tal referência egípcia reforça uma certa alegoria bíblica, Wallace inclusive cita textualmente outra passagem do Bom Livro para ilustrar um outro paralelo. Já os robôs que servem como olhos do criador remetem aos corvos de Odin na mitologia nórdica. Esteticamente falando, o filme é de encher os olhos de qualquer um. Com a já citada bela fotografia do premiado e experiente Roger Deakins, o resultado final é um filme delirante, estonteantemente belo e obrigatório.  


quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

DIÁRIO DE UM BANANA: CAINDO NA ESTRADA (Diary of a Wimpy Kid: The Long Haul) EUA, 2017 – Direção David Bowers – elenco: Jason Drucker, Alicia Silverstone, Tom Everett Scott, Charlie Wright, Owen Asztalos, Dylan Walters, Wyatt Walters, Chris Coppola, Joshua Hoover, Mira Silverman, Carlos Guerrero – 91 minutos

    ENQUANTO CRÔNICA DE UMA GERAÇÃO, O ROTEIRO SE SAI MUITO BEM  


Esse é o quarto filme da franquia, que sempre foi um sucesso absoluto de público. Principalmente por focar num grupo muito específico, a faixa etária dos pré-adolescentes, trabalhando bem os dilemas nessa fase da vida, utilizando um humor que está na barreira entre a inocência infantil e o escracho juvenil. Quando o êxito editorial chegou aos cinemas não foi diferente, e seu público foi ver as aventuras de Greg Heffley agora na tela grande, a franquia ganhou outros dois filmes e agora, com uma reformulação total do elenco, prova mais uma vez que o filme ainda tem o que render.
O personagem principal convence a família a ir para a festa de 90 anos de sua avó de carro, tudo porque Greg quer chegar numa convenção de gamers que acontece perto de lá, e assim conseguir um vídeo com um youtuber famoso e “limpar” a imagem ruim que um meme que viralizou na internet causou a ele. O roteiro do também diretor David Bowers dos dois filmes anteriores, mantém o formato humor pastelão com mensagem família, a diferença dessa obra é que é um road movie, que infelizmente usa todos os clichês possíveis desse formato, ainda assim, consegue ser envolvente e bem engraçado, claro que isso ganha força de acordo com sua idade, já que o filme é totalmente direcionado para o público infanto-juvenil.

Enquanto crônica de uma geração, o roteiro se sai muito bem. Mesmo com a direção hiperbólica, pautando qualquer gesto com um efeito sonoro engraçadinho, o diretor David Bowers sabe criar cenas assustadoras, como o pacote de salgadinhos caindo na jacuzzi e transformando toda a água num pântano alaranjado – algo muito mais potente do que os discursos da mãe contra junk food. Susan e Frank estão longe de serem pais perfeitos, demonstrando cansaço na criação dos filhos, o que transmite uma visão menos idealizada da paternidade. Neste núcleo, quem dá as cartas é a mãe autoritária, uma competente Alicia Silverstone. No elenco o novato Charlie Wright, atuando como um impagável e novo Rodrick, ajuda a compor com hilaridade as sequências da trama. Há bons momentos, como a divertida paródia de “Psicose” (1960), que convivem com cenas divertidas como o ataque dos pássaros (homenagem ao clássico de Alfred Hitchcock “Os Pássaros – 1963). Na tentativa de explorar tudo o que poderia acontecer de errado numa única viagem, o roteiro sai de situações hilárias e comete alguns excessos, mas os excessos fazem parte da comédia e do universo infantil e o filme acaba valendo a pena.


terça-feira, 9 de janeiro de 2018

AO CAIR DA NOITE (It Comes at Night) EUA, 2017 – Direção Trey Edward Shults – elenco: Joel Edgerton, Christopher Abbott, Kelvin Harrison Jr., Carmen Ejogo, Riley Keough, Griffin Robert Faulkner, David Pendleton, o cão Mikey (Stanley), Mick O’Rourke, Chase Joliet – 91 minutos

UM TERROR PSICOLÓGICO ABORDA O MEDO DO COMPORTAMENTO HUMANO


Toda a narrativa deste filme é estabelecida com a sutileza de cenas ambíguas. A alusão à peste bubônica, por exemplo, se faz presente em dois momentos muito sucintos: quando um grande quadro mostrando a Humanidade medieval combatendo caveiras é mostrado por alguns segundos e quando Travis desenha uma floresta ocupada por esqueletos. Unindo essas duas passagens às profissões de Paul e Will, os dois líderes do filme, é fácil compreender o caminho que o longa trilha. Paul, o protagonista, é um ex-professor de história ao passo que Will já exerceu diversos trabalhos de “construção”, como mecânico e assistente de obras; portanto, um conhece a história da Humanidade, e outro, supostamente, pode proteger a casa e elaborar armadilhas/bugigangas/sistemas de defesa. Mesmo com todo esse preparo, porém, os personagens permanecem vulneráveis diante de um inimigo invisível. Da mesma produtora do já cult “A Bruxa, “Ao Cair da Noite) combina texto, fotografia (escura e úmida), trilha (minimalista e discreta), todos os elementos a favor da dramaturgia. E o resultado é uma atmosfera de constante apreensão e medo rural.

A estratégia do diretor é simples e eficaz: sugerir ameaças que, ainda que invisíveis, se fazem presentes e reais. Para alcançar este resultado, Shults e o diretor de fotografia Drew Daniels mantêm a câmera sempre em movimento, investindo em zooms lentos que, fechando o quadro enquanto focam algum ponto do cenário ou da locação, levam o espectador quase a espremer os olhos ao tentar enxergar o que exatamente encontra-se escondido ali – como no instante, por exemplo, em que o cachorro da família late para algo na floresta. Enquanto isso, o ótimo design de produção concebe a casa que abriga aquelas pessoas como um conjunto de espaços escuros e claustrofóbicos que insinuam perigos ocultos nas sombras – e mesmo que a porta vermelha situada ao fim de um corredor seja óbvia em sua cor e simbolismo, isto não a torna menos eficiente como recurso narrativo. O grande protagonista dessa obra tensa é o adolescente Travis, filho de  Paul (Joel Edgerton). Interpretado por Kevin Harrison Jr., Travis é um rapaz introspectivo e solitário que, dividindo o quarto com seu cão, tem o hábito de se esconder no sótão para ouvir as conversas dos pais e, posteriormente, aquelas entre Will e Kim – e quando o vemos rir de uma piada particular do casal, sua solidão se torna ainda mais tocante. Além disso, como alguém atravessando o auge de seu despertar sexual, o jovem não demora a demonstrar certo interesse por Kim, o que resulta numa conversa entre os dois na cozinha, no meio da noite, durante a qual - mesmo nada de comprometedor sendo dito - ambos percebem o subtexto que move o diálogo, sendo admirável o trabalho dos dois intérpretes, já que Harrison evoca o desconforto excitado do garoto enquanto Keough permite que Kim pareça estar se divertindo internamente com a reação do outro.


“Ao Cair da Noite” fala muito mais sobre nossos medos internos e transborda tópicos como paranoia, experimentando a forma como lidamos e convivemos sob circunstâncias extremas. O mal pode existir e estar lá fora, mas permeia todos nós, se mostrando muito mais perigoso e urgente quando é deflagrado de dentro para fora. O filme revela-se, então, muito mais do que um suspense/horror que o marketing pode sugerir, mas uma análise da fragilidade humana diante de forças muito além de nosso controle, como as da natureza. É um verdadeiro estudo de nossa espécie, capaz de mostrar como cedemos ao nosso  lado primitivo a qualquer sinal de desordem.  

sábado, 6 de janeiro de 2018

120 BATIMENTOS POR MINUTO (120 Battements Par Minute) França, 2017 – Direção Robin Campillo – elenco: Nahuel Pérez Biscayart, Arnaud Valois, Adèle Haenel, Antoine Reinartz, Ariel Borenstein, Félix Maritaud, Aloïse Sauvage, Simon Bourgade, Médhi Touré, Simon Guélat, Catherine Vinatier, Théophile Ray, Saadia Bentaïeb, Jean-François Auguste, Yves Heck – 140 minutos

UM FILME QUE REVISITA DISCUSSÕES QUE HOJE VOLTAM A SEREM VISTAS COMO IMORAIS E PROVA COMO ALGUNS SETORES ESTÃO REGREDINDO


Este é um grande filme militante, de luta - mas também de amor -, sobre o começo da aids. O combate aos laboratórios, ao governo do socialista François Mittérrand, que se recusava a encarar a extensão da crise da saúde. “120 Batimentos Por Minuto” se passa na França, início dos anos 1990. O grupo ativista Act Up está intensificando seus esforços para que a sociedade reconheça a importância da prevenção e do tratamento em relação a AIDS, que mata cada vez mais há uma década. Recém-chegado, Nathan (Arnaud Valois em uma interpretação devastadora) logo fica impressionado com a dedicação de Sean (Nahuel Pérez Biscayart, brilhante performance) junto ao grupo, e os dois iniciam um relacionamento sorodiscordante, apesar do estado de saúde delicado de Sean.


Esse filme muito elogiado chegou ao Brasil (lançado nos cinemas na quinta-feira, dia 04) e provavelmente terá muito sucesso nas salas de arte. Não pelo fato de ser um filme francês que conta a história de um relacionamento homoafetivo, mas sim porque o filme traz a questão da militância LGBT que acontecia em Paris há 28 anos e que volta a ser polêmica em um país no qual a onda conservadora volta a tomar força. O diretor Robin Campillo segue no caminho para se tornar um dos mais importantes realizadores LGBT da atualidade com esse filme delicado. É importante perceber, no entanto, que assim como Gus van Sant ou Xavier Dolan, seu cinema está além da orientação sexual daqueles presentes em seus enredos, impondo-se com uma temática pertinente e relevante, que não pode ser ignorada, independente de quem se situa no lado de cá da tela grande. 


Neste mais recente longa, o diretor não perde tempo com distrações ou amenidades, construindo uma bela e emocionante relação amorosa, ao mesmo tempo em que ela está inserida numa passagem crítica da história recente da nossa sociedade. A justaposição de uma trama em meio a outra coloca em evidência não apenas as ligações inegáveis que existem entre ambas, mas também a urgência de se olhar para uma sem esquecer da outra. Somos somas de nossos gestos, e tanto Campillo quanto seus personagens sabem muito bem disso. Premiado no Festival de Cannes com o Grande Prêmio do Júri – chegou a levar o presidente do corpo de jurados de 2017, Pedro Almodóvar, às lágrimas – e com o troféu da crítica, além da Queer Palm como melhor filme de temática LGBT. A direção de Robin Campillo se destaca principalmente nos momentos em que se foge da narrativa e vemos os protagonistas dançando ou durante algum protesto, somos levados para um momento utópico, com todos felizes, se misturando às luzes que piscam, destacando a envolvente trilha sonora do longa e deixando claro que, apesar das diferenças, a luta é uma só. Essa união também é trabalhada nas cenas mais íntimas, com destaque para uma cena de sexo em que o casal conta como teve o primeiro contato com o HIV, vemos parte da história acontecendo, mas em momento algum saímos do cenário escuro em que os personagens se encontram. Um dos filmes mais importantes do ano!! Obrigatório e Emblemático!! 
         O PRIMEIRO GRANDE FILME DO ANO!!  DEVASTADOR E MAGNÍFICO!!



sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

VIVA: A VIDA É UMA FESTA (Coco) EUA, 2017 – Direção Lee Unkrich e Adrian Molina – com as vozes de Anthony Gonzalez, Gael García Bernal, Benjamin Bratt, Alanna Ubach, Renee Victor, Jaime Camil, Alfonso Arau, Herbert Siguenza, Gabriel Iglesias, Lombardo Boyar, Ana Ofelia Murguía, Natalia Cordova-Buckley, Selene Luna, Edward James Olmos, Sofía Espinosa – 105 minutos

                 UMA JORNADA DE AMADURECIMENTO EM DOIS MUNDOS 


O que chama mais atenção a esta nova animação, no entanto, é ser o primeiro filme da Disney totalmente no México e dedicado à cultura mexicana. Desde o início, o filme apresenta diversos elementos do país e seu povo como os mariachis, as telenovelas e a devoção ao Dia dos Mortos. “Viva – A Vida é Uma Festa” é apresentado através dos olhos do menino Miguel de forma perspicaz e inocente. Apesar da proibição musical, ele mantém sua paixão em um esconderijo onde toca sua viola quebrada e assiste às apresentações do seu grande ídolo já falecido Ernesto de la Cruz (Benjamin Bratt).

Existem filmes que conseguem fazer com que o espectador se sinta mais leve depois de assisti-los. “Viva – A Vida é uma Festa” é um deles: traz uma sensibilidade única para tratar de temas complexos como morte, de uma maneira que não subestima os espectadores e, ao mesmo tempo, não assusta os mais jovens que não têm tanta experiência em lidar com perdas. Isso dá ao filme uma linguagem tradicional. A jornada de Miguel é clássica - um garoto que precisa lutar pelo seu direito de cantar e no caminho aprende valiosas lições sobre perdão e legado -, o que se reflete no visual do filme. A qualidade técnica da animação, capaz de recriar texturas com profundidade, se sobressai a sua inventividade estética. 


As decisões tomadas são esperadas e seguras, seja no design dos personagens ou no contraste entre os tons terrosos do mundo dos vivos e o colorido do mundo dos mortos. É o que afasta o filme da assinatura de um estúdio conhecido pela inovação visual, subtexto complexo e profundidade psicológica de personagens variados, sejam brinquedos, formigas, peixes ou idosos rabugentos. É um dos filmes mais visualmente impressionantes da Pixar e talvez de todas as animações em computação gráfica já feitas. Você se sente no meio da multidão que povoa as diferentes regiões da cidade, entende como cada uma delas funciona e imagina que suas pessoas amadas que partiram estão se divertindo por lá, já que você se lembra delas com carinho. Extremamente alegre, divertido e deslumbrante!! 



quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

CORPO E ALMA (Teströl és Lélekröl) Hungria, 2017 – Direção Ildikó Enyedi – elenco: Géza Morcsányi, Alexandra Borbély, Zoltán Schneider, Ervin Nagy, Tamás Jordán, Zsuzsa Járó, Réka Tenki, Júlia Nyakó, Itala Békés, Attila Fritz – 116 minutos

QUANDO É CHEGADA A HORA DE SE ENCONTRAREM DE VERDADE, A SITUAÇÃO SE MOSTRA AINDA MAIS COMPLEXA


Mária (Alexandra Borbély) e Endre (Géza Morcsányi) são dois funcionários de um abatedouro de gado. Ele é o diretor financeiro, ela acaba de ocupar o cargo de inspetora de qualidade. Em comum, têm a profunda inadequação social: o chefe quase não possui muitos amigos, e carrega traumas como antigas histórias de amor e um braço paralisado. Mária não conversa com ninguém, recusa-se a tocar outras pessoas ou tratá-las com familiaridade, e manifesta traços obsessivos-compulsivos. Não é muito difícil ao espectador entender que o relacionamento entre os dois não será, à primeira vista, muito fácil. A virada no roteiro de “Corpo e Alma”, contudo, ocorre quando descobrimos que essas duas pessoas solitárias partilham todas as noites de um mesmo sonho: um casal de cervos que vivem juntos em uma floresta. Conectados por este cenário lírico, mas incapazes de qualquer comunicação na realidade, aos poucos um sentimento incomum aproxima estes protagonistas e eles decidem se aprofundar nesta história inusitada.

A roteirista e diretora Ildikó Enyedi parte, então, para uma investigação entre o metafísico e o material, entre o corpo e a alma, a crueldade e o sublime. Os animais – tanto aqueles que são abatidos na frente da câmera quanto os cervos gigantes e, ao mesmo tempo, delicados dos sonhos – tornam-se figuras mediadoras dessas transições – às vezes, um tanto óbvias, mas sempre muito bem pautadas nas intepretações da dupla central. “Corpo e Alma” é uma incrível jornada sobre o amor que chega ao espectador de maneira inusitada, ligada por sonhos, onde somos testemunhas, ao longo das quase duas horas de projeção, de uma das histórias mais bonitas que apareceram numa tela de cinema esse ano. O projeto, que demorou mais de dez anos para ficar pronto por conta de uma grave crise no órgão que administra o cinema da Hungria, possui uma riqueza nos detalhes, há um silêncio preponderante em muitas cenas, seja nos olhares distantes dos protagonistas, seja nos reflexos que acompanham as metáforas cotidianas na arte do descobrir. Um trabalho primoroso de direção.


[A diretora] ousa o romantismo poético e também o realismo brutal. Ela celebra a beleza de uma união possível sem esconder as feridas que a acompanham. É isso, o amor. (Frédéric Strauss – Télérama)

O filme se transforma numa metáfora surpreendentemente emocionante sobre a aleatoriedade e a imprevisibilidade do amor, o que se torna parte de seu apelo. Sempre que o resultado corre o risco de ficar emotivo demais, Enyedi fornece momentos de humor negro. (Jessica Kiang – The Playlist)

É de Borbély a performance inteligente e melancolicamente discreta em que Maria permanece simpática mesmo quando se transforma mais em uma condição do que em personagem - e a riqueza das ideias do escritor-diretor se movem e intrigam, mesmo quando são expostas mais artificialmente. (Guy Lodge – Variety)


Construindo sua narrativa em torno de um par de performances impassíveis que produzem traços de humor em meio a um profundo sentimento de saudade humana, Enyedi às vezes pode revelar demais em suas representações da solidão moderna... sem levar o tema muito mais longe. (Jordan Mintzer – The Hollywood Reporter) 



segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

NICHOLAS E ALEXANDRA (Nicholas and Alexandra) Inglaterra, 1971 – Direção de Franklin J. Schaffner – elenco: Michael Jayston, Janet Suzman, Roderic Noble, Tom Baker, Harry Andrews, Irene Worth, Jack Hawkins, Michael Redgrave, Laurence Olivier, John McEnery, Martin Potter, Lynne Frederick, Eric Porter, Maurice Denham, Julian Glover, Ian Holm, Ania Marson, Candace Glendenning, Fiona Fullerton, Timothy West, Katherine Schofield, Jean-Claude Drouot, John Hallam, Guy Rolfe, John Wood, Ralph Truman, Gordon Gostelow, Brian Cox, Michael Bryant, Vivian Pickless, Alan Webb, James Hazeldine, Stephen Greif, Roy Dotrice, Alexander Knox, Curd Jürgens – 183 minutos

O MAIS INTELIGENTE, ARREBATADOR E EXTRAORDINÁRIO ESPETÁCULO JÁ REALIZADO PELO CINEMA INGLÊS


Um filme de raro prazer e beleza! É, sem dúvida, o mais inteligente e bem realizado espetáculo cinematográfico desde LAWRENCE DA ARÁBIA (1962). Robert K. Massie se interessou pela história da família Romanov enquanto pesquisava sobre hemofilia, doença da qual seu filho sofria. Para compreender como outras famílias lutaram contra a doença, Massie começou a estudar a vida e o tempo do Czar da Rússia, Nicholas II, cujo próprio filho Tsarevitch Aléxis, padecia do mal. Os resultados do seu trabalho foram publicados em 1967 como “Nicholas e Alexandra”, um livro histórico que passou quatro meses na lista dos mais vendidos e mais lidos dos EUA. Em 23 de janeiro de 1968, Sam Spiegel (o mesmo de LAWRENCE DA ARÁBIA) anunciou que havia adquirido os direitos para o cinema do livro de Massie, o qual seria adaptado pelo roteirista James Goldman (o mesmo do extraordinário O LEÃO NO INVERNO - 1968) e dirigido por Franklin J. Schaffner (o realizador de PATTON, REBELDE OU HERÓI? – 1970). 


Contratados para interpretar as personagens do papel-título estavam os atores da Royal Shakespeare Company, Michael Jayston e Janet Suzman. Eles seriam coadjuvados por um elenco formado pelos mais importantes atores da Inglaterra: Laurence Olivier, Irene Worth, Harry Andrews, Jack Hawkins, Michael Redgrave, Lynne Frederick, Roderic Noble (como Aléxis), Eric Porter, Maurice Denham, John McEnery, Julian Glover, Ian Holm e o astro do Tesouro Nacional inglês Tom Baker como Rasputin (uma extraordinária atuação), além da presença notável de Martin Potter (que brilhou em SATYRICON, de Fellini). O filme faz um belíssimo panorama da Rússia na época da Revolução de 1917, que tirou o poder das mãos do Czar Nicolau II, um homem que perdeu um império porque não podia dizer “não” a sua esposa. É a épica, grandiosa e trágica história verdadeira de um mundo que desabou e afundou em outro mais trágico. Recebeu 6 indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme do Ano, Melhor Atriz (Janet Suzman), Melhor Fotografia, Melhor Trilha Sonora, ganhando nessas duas categorias: Melhor Figurino e Melhor Direção de Arte. Não ganhou o de melhor filme porque foi um ano de difícil escolha. Os concorrentes eram todos muito fortes. Havia o inesquecível “Um Violinista no Telhado”, de Norman Jewison;  o extraordinário “Laranja Mecânica”, de Stanley Kubrick; o comovente “A Última Sessão de Cinema”, de Peter Bogdanovich e “Operação França” (que saiu vencedor). Um filme inesquecível, emocionante e extraordinário.  Absolutamente belo!!!!
NICHOLAS E ALEXANDRA começou a ser produzido em 30 de novembro de 1970, nos Estúdios Sevilla, em Madri – Espanha. Entre os cenários que mereceram esmerada pesquisa, figuravam corredores, halls, escadarias, escritórios e o salão de recepção do Palácio Tsarskoe Selo, fora de São Petersburgo, a sala de troféus de caça de Spala, o vestiário em malva da Czarina, a enfermaria de Aléxis, o salão de jantar e o salão de baile do Grão Duque Nicholas, o apartamento de Rasputin, a adega do palácio do Príncipe Felix Yussoupov (magnífica atuação de Martin Potter) e onde Rasputin foi assassinado) e os interiores de várias casas  onde a Família Real foi aprisionada e mais tarde executada. As cenas exteriores foram filmadas em locações com as mesmas características dos palácios e estações de trem que existiam na Rússia pré-revolucionária. Os exteriores da prisão da Sibéria foram filmados nas montanhas nevadas entre Madri e Segóvia. A produção de 11 milhões de dólares (uma fortuna na época) foi concluída em 17 de abril de 1971. NICHOLAS E ALEXANDRA teve sua estréia mundial em 29 de novembro de 1971, seguida de sua estréia nos Estados Unidos, em 13 de dezembro do mesmo ano. NICHOLAS E ALEXANDRA continua um épico grandioso e magnífico. O Los Angeles Times escreveu: “É um dos filmes que trazem a história à vida com clareza, fidelidade e uma proximidade que o tornam compreensível e inesquecível”. Um espetáculo soberbo, belo e extraordinariamente arrebatador!!!!