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quinta-feira, 7 de setembro de 2017

FANNY E ALEXANDER (Fanny och Alexander) Suécia, 1982 – Direção Ingmar Bergman – elenco: Bertil Guve (Alexander), Pernilla Allwin (Fanny), Ewa Fröling (Emilie), Lena Olin (Rosa), Kristina Adolphson (Siri), Allan Edwall (Oscar Ekdahl), Maria Granlund (Petra), Eva von Hanno (Berta), Pernilla August (Maj), Börje Ahlstedt (Carl Ekdahl), Kristian Almgreen (Putte), Siv Ericks (Alida), Majlis Granlund (Srta. Vega),  Sonya Hedenbratt (Tia Emma), Gunn Wällgren (Helena Ekdahl), Jan Malmsjö (Bispo Vergerus), Jarl Kulle (Gustav Ekdahl) – 178 minutos.

DE INDISCUTÍVEL BELEZA, UM ELENCO IMPECÁVEL E UM ROTEIRO EXTRAORDINÁRIO, ESTE EXCELENTE FILME É A QUINTESSÊNCIA DE BERGMAN E ALGO DIFERENTE DE TUDO O QUE ELE JÁ FEZ.  


Um dos maiores nomes do cinema mundial, o diretor Ingmar Bergman realiza, aqui, uma obra-prima e um dos seus trabalhos mais acabados, ao refletir com delicadeza e perfeccionismo, sobre os terrores e os prazeres da infância. O tom autobiográfico é  flagrante no filme: o garoto Alexander é sem dúvida um alter-ego de Bergman, vivendo entre o puritanismo hipócrita (representado pelo bispo Vergerus) e os prazeres mundanos que o garoto encontrou nas fartas refeições, no bom humor e na liberação da casa da avó. O pai do diretor era pastor luterano, tendo várias vezes castigado-o severamente na infância. Com grande sensibilidade para descobrir e dirigir talentos femininos, Bergman descobre uma nova musa: Ewa Fröling, que vive a mãe de Fanny e Alexander, tão bela e fascinante como as estrelas anteriores do diretor: Harriet Andersson, Bibi Andersson, Kabi Laretei e Liv Ullmann. Realizada com capital sueco, francês e alemão, a produção utilizou cerca de 140 atores e mil figurantes, com o cineasta planejando tudo minuciosamente como é do seu estilo, inclusive a reconstituição de uma mansão burguesa do início do século XX. Vários temas e obsessões já presentes nos filmes anteriores de Bergman se entrecruzam com grande magia e humor: a angústia da morte, a neurose familiar, o amor pela arte (em especial pelo teatro), o horror pelo fanatismo religioso e a celebração da sensualidade. 


É um dos filmes mais belos da década de 1980. Tudo gira em torno de uma cidade sueca, no começo do Século XX, dominada por sua Catedral. Um rio de curso caudaloso com suas ondas sombrias que corta a cidade. Lá está o tradicional Teatro, a secular Universidade e um bispado poderoso. As únicas mudanças são aquelas que resultam do ritmo invariável das Estações. A vida é próspera, mas sem escândalos, a segurança não tem falhas, e a felicidade é sensível a todos. Nesse cenário vamos conhecer os membros da família Ekdahl e seus empregados durante as faustosas celebrações do Natal. Há também o Mosteiro do Bispo, velho e úmido, que exprime a abnegação puritana de seus ocupantes, exatamente o oposto da casa dos Ekdahl. O garoto Alexander e sua irmã Fanny são membros dessa poderosa família de burgueses suecos no início do Século XX, criado em meio ao rígido puritanismo luterano do padrasto – o bispo Vergerus. Alexander descobre um mundo mágico e surpreendente na casa da avó, uma atriz abastada e sem preconceitos. De indiscutível beleza, um elenco impecável e um roteiro extraordinário, este excelente filme é a quintessência de Bergman e algo diferente de tudo o que ele já fez. 


É uma grande crônica familiar, sombria, generosa e bela, que aborda muitos dos temas já explorados em filmes anteriores, ao mesmo tempo que introduz algo que, em Bergman, pode passar como sendo serenidade. A obra se movimenta entre os mundos da realidade e da imaginação com a facilidade característica da grande ficção, enquanto conta a história de uma família maravilhosa, mas mergulhada num mundo sombrio e de severos preconceitos. Apesar da maior parte do filme ser vista através dos olhos de Alexandre, tudo em FANNY E ALEXANDER tem a qualidade de algo lembrado à distância – eventos lembrados ou como foram vivenciados, ou como se imagina que eles  tenham acontecido. Desta forma, Ingmar Bergman, consegue misturar fatos e fantasias de forma que jamais negam o que nós, no público, julgamos ser verdade. Foi indicado a 06 Oscar, incluindo Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original, ganhando nessas quatro categorias: Melhor Filme Estrangeiro, Melhor Fotografia, Melhor Figurino e Melhor Direção de Arte. Sem dúvida alguma, é um marco na história do cinema, um espetáculo soberbo e magnífico e mais um triunfo fabuloso na carreira de um dos maiores diretores de toda a história do cinema. Imperdível, magnífico, arrebatador e obrigatório!!!!  


quarta-feira, 6 de setembro de 2017

O SILÊNCIO (Tystnaden) Suécia, 1963 – Direção Ingmar Bergman – elenco: Ingrid Thulin, Gunnel Lindblom, Birger Malmsten, Hakan Jahnberg, Jörgen Lindström, Kristina Olausson, Lissi Alandh, Karl-Arne Bergman, Birger Lensander, Eskil Kalling – 96 minutos

                      BERGMAN TENTA DIZER ALGO AO ESPECTADOR
                            E CADA UM DEVE DESCOBRIR SOZINHO


Ingmar Bergman, um dos mais aclamados diretores do cinema mundial, apresenta aqui outro dos seus filmes mais surpreendentes. Este forte drama é uma visão íntima e fascinante de um mundo onde as pessoas procuram se comunicar através da cruel satisfação de seu apetite sexual. Estrelando, num brilhante retrato da delicada e complexa intimidade do amor lesbiano, Ingrid Thulin. E como sua irmã, uma linda e arrogante criatura da carne vivendo somente para a luxúria e o prazer, Gunnel Lindblom. Duas mulheres viajando por uma terra estranha. Uma existência estranha, onde encontram solidão e uma paixão avassaladora. Indiscutivelmente o filme mais forte do diretor sueco!!


Uma franqueza sexual que marca um novo caminho. Excelente, maravilhoso e com atuações esplêndidas. Estranha amálgama de vários estados de solidão e luxúria. Bergman tenta dizer algo ao espectador que cada um deve descobrir sozinho. O filme é inadequado para pessoas puritanas, pois exige maturidade e sofisticação do público, e contém a mais aberta sexualidade já vista no cinema.  Foi em “O Silêncio” que o cineasta esbanjou tudo o que havia proposto em sua carreira até então, e foi neste filme que o frenesi erótico, a histeria, a sensibilidade, a inocência e “a vida como espetáculo” mostrou-se pela primeira vez de forma completa em uma obra sua. O filme nasceu das explosões e do sufoco de um Concerto para Orquestra de Béla Bartók. Quem conhece a obra do compositor entende o clima claustrofóbico que se vê no início de “O Silêncio”, quando três protagonistas estão em um trem, visivelmente sufocados pelo calor. O que se segue é a (não)-relação entre as irmãs Anna e Esther, e a ambiguidade do relacionamento entre Anna e seu filho Johan. 


Nesta grande obra-prima, é impossível saber qual das irmãs é projeção da outra, qual seria a verdadeira ou quem é o ego liberado da primeira, se a reprimida intelectual ou a liberada fútil. No duelo verbal, confrontadas, ambas se aniquilam. Cada uma quer ser uma parte da outra, têm inveja, mas não suportam as limitações. “O Silêncio” foi eleito o oitavo melhor filme do ano. Ingmar Bergman estava no auge do prestígio, já havia ganhado Cannes e o Oscar (esse, duas vezes), gozava de fama internacional (os cinéfilos brasileiros devoravam seus filmes com fervor quase religioso, um paradoxo) e garantido seu nome na história. Falar deste filme é, portanto, falar de um tempo mítico em que o cinema não era uma diversão, mas a legítima representação artística do que pensava, ansiava e esperava toda uma geração. Obrigatório!! 


terça-feira, 5 de setembro de 2017

LUZ DE INVERNO (Nattvardsgästerna) Suécia, 1962 – Direção Ingmar Bergman – elenco: Gunnar Björnstrand, Ingrid Thulin, Max von Sydow, Gunnel Lindblom, Allan Edwall, Kolbjörn Knudsen, Olof Thunberg, Elsa Ebbesen, Lars-Olof Andersson (Young boy), Eddie Axberg, Ingmari Hjort, Stefan Larsson, Johan Olafs, Christer Öhman – 80 minutos

           UMA AMARGA REFLEXÃO SOBRE A EXISTÊNCIA OU NÃO DE DEUS

O mais aclamado cineasta de todos os tempos realiza o seu primeiro trabalho depois de ganhar dois Oscar, dois anos seguidos – “A Fonte da Donzela” (1960) e “Através de um Espelho” (1961). Ingmar Bergman conquista novos feitos na dramatização ao explorar a vida de um pastor, sua relação com a amante e as pessoas que o cercam. Gunnar Björnstrand é o pastor que luta para encontrar Deus e o amor num mundo de inverno; Ingrid Thulin é a amante, que supera tudo na tentativa de dar seu amor; Max von Sydow, o astro do extraordinário “O Sétimo Selo” (1957) e “A Fonte da Donzela” faz um pescador atormentado e Gunnel Lindblom, a professora Märta, sua esposa. Um casal estranho, preso por um medo compulsivo num mundo que vê somente como hostil. Um filme brilhante interpretado com rara sensibilidade e expressão. Absolutamente imperdível, sério, provocativo e comovente!! Um história forte em mais uma obra-prima do mestre soberano do cinema sueco!!


Dono de uma filmografia praticamente impecável, Bergman conseguiu aproximar o cinema como arte e influenciar cineastas por todo mundo. Woody Allen, por exemplo, nunca escondeu que o admira. Bergman era ateu e em sua filmografia sempre encontramos diversos filmes que falam sobre vida e morte. Desenvolveu o que chamaram a “Trilogia do Silêncio”, também conhecida como “Trilogia da Fé”, no qual “Luz de Inverno” faz parte e termina com “O Silêncio” (1963). Neste filme que, como ele sabia, dificilmente iria agradar a um grande público aborda o silêncio de Deus perante a tantas perguntas. Mesmo que seja um tema difícil para muitos, o cineasta realizou uma obra que resiste ao tempo e envelhece bem. Em comum, os três dramas abrangem questões como crise existencial, amor, religião e morte.
“Luz de Inverno” fala da perda da fé. Não só os fiéis sofrem com as hesitações do pároco descrente: sua amante também é massacrada com a desilusão da autoridade religiosa local, homem distante, incapaz de amar. Ele se culpa pelo suicídio do humilde pescador, dilacerado pelo medo da guerra nuclear então em curso no mundo. É difícil dizer o que mais chama a atenção no filme: a temática – perda de fé –, sempre relevante principalmente para quem é católico; as personagens – não deveria dizer as personagens, mas as pessoas, tal a autenticidade que elas passam; os belíssimos e tocantes diálogos; ou o clima pesado, reforçado pela neve, pelo frio etc. O filme, como outros filmes de Bergman, aparentam serem lugares distanciados de tudo, do mundo moderno (quem imagina, por exemplo, que naquele tempo onde a fé cristã está em seu ápice, depois de voltar das cruzadas, o cavaleiro Antonius, de O Sétimo Selo, teria dúvidas sobre a existência de Deus). Parece que esse fim do mundo que é o mundo de Bergman é incomunicável com seu próprio mundo nas quais as pessoas vivem um outro tempo em suas vidas camponesas. Realizado no apogeu da Guerra Fria, “Luz de Inverno” é uma amarga reflexão sobre a existência ou não de Deus. Uma obra-prima sobre a crise da fé!! Um filme notável e obrigatório!! 


segunda-feira, 4 de setembro de 2017

ATRAVÉS DE UM ESPELHO (Sasom i em Spegel) Suécia, 1961 – Direção Ingmar Bergman – elenco: Harriet Andersson, Gunnar Björnstrand, Max von Sydow, Lars Passgard – 89 minutos

DRAMA PSICOLÓGICO INTENSO E FORTE EM QUE BERGMAN DISSECA O PROCESSO DE DEGRADAÇÃO DE UMA FAMÍLIA 

Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, esta obra-prima do aclamado cineasta sueco, é uma de suas obras imortais e o início da “Trilogia do Silêncio”, formada ainda por “Luz de Inverno” (1962) e “O Silêncio” (1963).  Quatro personagens estão em uma ilha. Karin (Harriet Andersson, em magnífica interpretação), seu esposo Martin (Max von Sydow), seu pai David (Gunnar Björnstrand) e seu irmão Minus (Lars Passgård, em seu primeiro filme). Eles comemoram o retorno da jovem após ser liberada de um tratamento no hospital — ela sofre de uma desordem mental normalmente identificada como esquizofrenia, mas existem outros comportamentos psicológicos desordenados que podemos ler a partir dela — e também o fato de David retornar da Suíça, após isolar-se para escrever seu novo livro. Ele é um homem egoísta, que praticamente abandona os filhos. Está escondendo deles sua mediocridade como escritor, pai e ser humano. Não compartilha da vida deles, renega-lhes atenção, isola-se, sendo que muitas vezes se assusta com o próprio egoísmo e os efeitos perversos que suas atitudes causam.

“Através de um Espelho” é um trabalho nunca menos que brilhante, criando uma aura especial para os ambientes que se passavam no entardecer e à noite – Bergman não tinha à mão os artifícios que existem hoje para externas no período noturno. Uma questão muito interessante para ser analisada e mencionada é o título do filme, que em sueco (ou seja, na língua original na qual o filme foi rodado) refere-se a uma passagem bíblica. Este aspecto é curioso porque uma das marcas mais notáveis na grandiosa carreira de Ingmar Bergman, é justamente a religiosidade. O cineasta usou esta temática de maneira muito profunda e simbólica em mais de uma obra. Saber disso, por certo pode ajudar a compreender melhor e analisar mais atentamente sua carreira, além de possibilitar leituras mais completas de suas produções.

“Através De Um Espelho” foi rodado na Ilha de Farö, localizada na costa da Suécia. Este mesmo cenário foi usado pelo cineasta para outras filmagens e tornou-se um dos marcos da filmografia do diretor. Nesta obra, o ambiente é de grande importância, pois a natureza da ilha e a maneira crua e honesta através da qual Bergman manuseia a câmera, integram-se e resultam num potente senso de realismo que irá permear e configurar a atmosfera do filme, do começo ao fim. Este realismo, por sua vez, pode perturbar os espectadores pela maneira como é genialmente arquitetado pela sabedoria e talento de Bergman. É impossível não ser afetado pelo excelente roteiro. A parte técnica também colabora para que o filme atinja em cheio o espectador. A fotografia se destaca pelas imagens poéticas e pela iluminação. Para completar, a trilha sonora de Bach soa melancólica e hipnótica, aumentando ainda mais o tom dramático do que se vê. Isso tudo permite que o diretor discuta temas mais grandiosos, como um preocupante vazio existencial do ser humano e a presença ou não de um poder maior ao redor do espectador. Poderoso, pujante, obrigatório e belo!! Uma verdadeira obra-prima!!



domingo, 3 de setembro de 2017

 O SÉTIMO SELO (Det Sjunde Inseglet) Suécia, 1956 – Direção Ingmar Bergman – elenco: Max von Sydow, Gunnar Bjornstrand, Nils Poppe, Bibi Andersson, Bengt Ekerot, Inga Gill, Maud Hansson, Inga Landgré, Gunnel Lindblom, Bertil Anderberg, Gunnar Olsson, Anders Ek, Erik Strandmark – 100 minutos.


                    UMA PARÁBOLA SOMBRIA SOBRE A SOLIDÃO DO HOMEM 

Um dos mais importantes filmes da história do cinema! É uma parábola sombria sobre a solidão do homem diante da morte e da incerteza acerca da existência de Deus. O próprio Bergman sugeria aos espectadores que fizessem um paralelo entre a situação descrita no filme e a do homem contemporâneo, descrente e perplexo diante da possibilidade do fim do mundo. O filme surgiu como uma peça (“Pintura Sobre Madeira”, em 1954). Bergman pensava em encenar uma peça para alguns jovens, e como não encontrou nada que o agradasse, resolveu ele mesmo escrever. Quando fazia o teatro, ocorreu-lhe que deveria transformar a peça em filme e tudo aconteceu naturalmente. Apenas alguns elementos foram aproveitados no roteiro final do filme: o medo da peste, a queima da feiticeira, a Dança da Morte. Mas a partida de xadrez entre a Morte e o Cavaleiro não havia, e, nem existia o artístico-bufanesco "santo casal" Jof e Mia com seu bebê. Somente Jons, o Escudeiro, não sofreu mudanças. 


Bergman retornou à Suécia, reescreveu o roteiro e reuniu a equipe. Deram-lhe trinta e cinco dias e um orçamento apertado, até minúsculo pelos padrões vigentes no Reino Unido. Foram gastos cerca de 150 mil dólares e o diretor manteve-se dentro do cronograma e do orçamento. O filme foi feito em 1956 e estreou na Suécia em fevereiro de 1957. Ganhou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes e significou a definitiva consagração internacional do diretor. Ele mesmo declarou que sua principal inspiração para O SÉTIMO SELO foi o filme A CARROÇA FANTASMA (1920), de seu compatriota Victor Sjöstrom. O título do filme refere-se ao livro dos segredos de Deus, lacrado por sete selos.  

Os questionamentos religiosos e existencialistas estão sempre muito presentes. O cavaleiro está perturbado com a possibilidade de morrer, chegando ao ponto de considerar que aquele vazio que sente dentro de si é causado pela falta de significado da própria vida e sua religiosidade. Antonius considera que sua vida fora em vão, mas espera, com esse tempo que conquistara ao desafiar a Morte, adquirir a maior quantidade de conhecimento possível, desejo expresso também na lenda do Fausto, que vende a alma ao Diabo em troca desta realização - a coincidência entre o caso destas duas personagens é algo que merece certa reflexão. O Cristo que aparece alternadamente aos planos feitos do cavaleiro, nos dão a idéia da menção de uma plena discussão sobre o real estado de espírito de Jesus quando descobriu que seu sacrifício era iminente. Será que absorvera sereno, ou discutiu sua sanidade, destino e o futuro que lhe era desenhado e que estaria sendo usurpado por seus juízes? O filme possui inúmeros planos belos e funcionais contidos nessa obra-prima, dentre eles o de um crânio seguro por mãos, cobrindo a tela, tendo em segundo plano os braços entrelaçados dos suplicantes religiosos. Também a chama que brota por trás do cavaleiro e seu escudeiro, iluminando o fundo como um fogo do inferno, pronto para acender as lascas que queimarão a jovem sacrificada. Outro que merece atenção, principalmente pela quebra do simbolismo seguido dentro do filme, é o do homem desesperado por estar morrendo por causa da peste e que agoniza ocupando somente um canto de tela, deixando o resto preenchido pela floresta e o negrume da noite. O SÉTIMO SELO foi aclamado internacionalmente como uma obra-prima cinematográfica! Um dos melhores filmes de todos os tempos!!!!!

sábado, 2 de setembro de 2017

MORANGOS SILVESTRES (Smultronstället) Suécia, 1957 – Direção Ingmar Bergman – elenco: Victor Sjöström, Bibi Andersson, Ingrid Thulin, Gunnar Björnstrand, Jullan Kindahl, Björn Bjelfvenstam, Max von Sydow, Folke Sundquist, Gunnel Broström, Gertrud Fridh, Sif Ruud, Gunnar Sjöberg – 91 minutos

UM FILME QUE COSTURA MUITO BEM A REALIDADE COM O DEVANEIO, O FATO COM O SONHO, O ALCANÇADO COM O DESEJO. 


Indicutivelmente é o mais comovente dos filmes de Ingmar Bergman. “Morangos Silvestres” é possivelmente seu trabalho mais carregado de emoção, é uma viagem em torno de si, dentro da própria alma. Ao longo de um único dia, o professor Isak Borg (Victor Sjöström), um velho médico, vai receber uma distinção acadêmica em Lund por seus cinquentas anos de exercício profissional na medicina. Na noite que antecede a viagem, tem sonhos estranhos. Ao acordar, decide ir de carro e não de avião. Leva consigo sua nora, Marianne (Ingrid Thulin), que está separada do marido. No trajeto, reencontra a casa de verão onde passou a infância. Dá carona a uma moça e três rapazes. É um Road movie existencial. 


Junto com “Umberto D” (1952), de Vittorio De Sica, “Morangos Silvestres” é, também, um dos grandes filmes sobre a velhice e um dos mais belos de toda a história do cinema. É um conto que reflete basicamente sobre finitude, num processo de reminiscência com altas referências de seu amadurecimento enquanto ser humano. Com profundidade reflexiva, sensibilidade e fotografia soberba, o filme lida de forma complexa e madura com assuntos densos como a morte, a inexorabilidade do tempo e os legados que deixamos ao partir. 
É uma obra repleta de ideias e reflexões, mas construída com uma disciplina e um rigor estético invejáveis. Quando Marianne narra para Isak a conversa que teve com o marido, por exemplo, a montagem salta entre planos e contraplanos que ocasionalmente substituem o velho médico por seu filho e vice-versa, indicando como ambos se igualam em seu distanciamento emocional aos olhos da moça. De maneira similar, todos os parentes vistos na casa de verão vestem branco e têm sua conversa retratada de forma dinâmica através dos cortes rápidos, contrapondo-os à presença escura e monótona de Isak. Para completar, Bergman praticamente resume um dos temas principais de seu filme através da imagem simples, mas perfeita, de um relógio sem ponteiros – o que, somado ao som do “tic-tac” que abre a projeção, sintetiza sua preocupação com o tempo que se esgota à medida que nos aproximamos do fim da vida. “Morangos Silvestres” é um filme que mexe com a psique não só dos personagens, mas também do espectador como a grande maioria dos filmes do diretor. É um filme que costura muito bem a realidade com o devaneio, o fato com o sonho, o alcançado com o desejo. Uma verdadeira obra-prima!! Absolutamente essencial e obrigatório!!  


sexta-feira, 1 de setembro de 2017

PERSONA (Persona) Suécia, 1966 – Direção Ingmar Bergman – elenco: Bibi Andersson, Liv Ullmann, Gunnar Björnstrand, Margaretha Krook – 83 min.

                O RECONHECIMENTO DA NOSSA TERRÍVEL SOLIDÃO!!!! 
                           UMA CONFISSÃO DE NOSSOS MEDOS!!!! 
                              UMA VITÓRIA SOBRE O SILÊNCIO!!!! 


Após cinco décadas, continua como o filme mais emblemático, mais admirado, mais exaustivamente analisado e mais fascinante de todos os tempos!!!! Importante e obrigatório, merece mais do que uma simples revisão. Em São Paulo, na 40ª Mostra de Cinema Internacional de São Paulo, além da exibição do filme com direito a palestra com gente que entende, ocorreu a exposição “Por Trás da Máscara – 50 Anos de PERSONA”. Esse meio século de distância serve apenas para reforçar o quanto o filme foi uma espécie de objeto cinematográfico não identificado, à época de seu lançamento. E o quanto continua a nos dizer coisas novas a cada vez que nos dedicamos a ele.
                                               
Um dos temas recorrentes à obra de Ingmar Bergman, o conceito do pecado e principalmente da culpa a ele associada é o que se pode extrair, de início, dessa obra enigmática e importante. Começa de forma inesquecível (e original na época), mostrando o processo de projeção de um filme com um velho cartão queimando, o fotograma, o desenho animado, o filme antigo e mudo, a morte da ovelha (meio Buñuel), a mão pregada na cruz como Cristo. Deixando claro que é cinema. É um dos grandes filmes do cineasta, notável em vários aspectos, inclusive por ter sido o primeiro trabalho com sua então nova mulher, a atriz Liv Ullmann. A história gira em torno de Elisabeth Vogler (Liv Ullmann), atriz que após uma de suas apresentações no teatro sorrateiramente deixa de falar. Sua psiquiatra, Lakaren (Margaretha Krook), a deixa sob os cuidados de Alma (Bibi Andersson), uma dedicada enfermeira. Após meses de tratamento sem nenhum resultado, Lakaren decide levar as duas a uma isolada casa de praia. Isoladas, as duas mulheres desenvolvem uma relação de forte intensidade emocional. 


Considerado a maior obra-prima de Ingmar Bergman e uma das maiores da história do cinema, foi com esse filme que o diretor ganhou o mundo e a fama de ser o melhor cineasta a filmar o rosto humano. Até hoje idolatrado por cinéfilos no mundo todo, que se debruçaram durante décadas sobre as imagens de dor, prazer e morte construídas pela sua câmera impassível, PERSONA possui uma margem incrível de interpretações, aliado à experiência única que faz desse filme algo Extraordinário. Aclamado entre as melhores realizações da história do cinema, o filme vai além do simples deleite: ele desperta a reflexão e questionamentos sobre o cinema, seu papel, a representação, o teatro e o próprio homem. PERSONA  não apresenta apenas uma história, instiga o espectador a decifrar suas imagens e seus significados implícitos. Mais do que um filme que trabalha a metalinguagem, é um questionamento sobre o ser humano e sua psiquê. PERSONA é o reconhecimento da nossa terrível solidão, nossa singularidade, nossa inabilidade de se comunicar com os outros. É uma confissão de nossos medos, do homem, do fracasso, da morte. É o drama do desespero, o terror indescritível da vida em todos os aspectos. PERSONA é uma ilusão estilhaçada, uma vitória sobre o silêncio.