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sábado, 6 de janeiro de 2018

120 BATIMENTOS POR MINUTO (120 Battements Par Minute) França, 2017 – Direção Robin Campillo – elenco: Nahuel Pérez Biscayart, Arnaud Valois, Adèle Haenel, Antoine Reinartz, Ariel Borenstein, Félix Maritaud, Aloïse Sauvage, Simon Bourgade, Médhi Touré, Simon Guélat, Catherine Vinatier, Théophile Ray, Saadia Bentaïeb, Jean-François Auguste, Yves Heck – 140 minutos

UM FILME QUE REVISITA DISCUSSÕES QUE HOJE VOLTAM A SEREM VISTAS COMO IMORAIS E PROVA COMO ALGUNS SETORES ESTÃO REGREDINDO


Este é um grande filme militante, de luta - mas também de amor -, sobre o começo da aids. O combate aos laboratórios, ao governo do socialista François Mittérrand, que se recusava a encarar a extensão da crise da saúde. “120 Batimentos Por Minuto” se passa na França, início dos anos 1990. O grupo ativista Act Up está intensificando seus esforços para que a sociedade reconheça a importância da prevenção e do tratamento em relação a AIDS, que mata cada vez mais há uma década. Recém-chegado, Nathan (Arnaud Valois em uma interpretação devastadora) logo fica impressionado com a dedicação de Sean (Nahuel Pérez Biscayart, brilhante performance) junto ao grupo, e os dois iniciam um relacionamento sorodiscordante, apesar do estado de saúde delicado de Sean.


Esse filme muito elogiado chegou ao Brasil (lançado nos cinemas na quinta-feira, dia 04) e provavelmente terá muito sucesso nas salas de arte. Não pelo fato de ser um filme francês que conta a história de um relacionamento homoafetivo, mas sim porque o filme traz a questão da militância LGBT que acontecia em Paris há 28 anos e que volta a ser polêmica em um país no qual a onda conservadora volta a tomar força. O diretor Robin Campillo segue no caminho para se tornar um dos mais importantes realizadores LGBT da atualidade com esse filme delicado. É importante perceber, no entanto, que assim como Gus van Sant ou Xavier Dolan, seu cinema está além da orientação sexual daqueles presentes em seus enredos, impondo-se com uma temática pertinente e relevante, que não pode ser ignorada, independente de quem se situa no lado de cá da tela grande. 


Neste mais recente longa, o diretor não perde tempo com distrações ou amenidades, construindo uma bela e emocionante relação amorosa, ao mesmo tempo em que ela está inserida numa passagem crítica da história recente da nossa sociedade. A justaposição de uma trama em meio a outra coloca em evidência não apenas as ligações inegáveis que existem entre ambas, mas também a urgência de se olhar para uma sem esquecer da outra. Somos somas de nossos gestos, e tanto Campillo quanto seus personagens sabem muito bem disso. Premiado no Festival de Cannes com o Grande Prêmio do Júri – chegou a levar o presidente do corpo de jurados de 2017, Pedro Almodóvar, às lágrimas – e com o troféu da crítica, além da Queer Palm como melhor filme de temática LGBT. A direção de Robin Campillo se destaca principalmente nos momentos em que se foge da narrativa e vemos os protagonistas dançando ou durante algum protesto, somos levados para um momento utópico, com todos felizes, se misturando às luzes que piscam, destacando a envolvente trilha sonora do longa e deixando claro que, apesar das diferenças, a luta é uma só. Essa união também é trabalhada nas cenas mais íntimas, com destaque para uma cena de sexo em que o casal conta como teve o primeiro contato com o HIV, vemos parte da história acontecendo, mas em momento algum saímos do cenário escuro em que os personagens se encontram. Um dos filmes mais importantes do ano!! Obrigatório e Emblemático!! 
         O PRIMEIRO GRANDE FILME DO ANO!!  DEVASTADOR E MAGNÍFICO!!



sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

VIVA: A VIDA É UMA FESTA (Coco) EUA, 2017 – Direção Lee Unkrich e Adrian Molina – com as vozes de Anthony Gonzalez, Gael García Bernal, Benjamin Bratt, Alanna Ubach, Renee Victor, Jaime Camil, Alfonso Arau, Herbert Siguenza, Gabriel Iglesias, Lombardo Boyar, Ana Ofelia Murguía, Natalia Cordova-Buckley, Selene Luna, Edward James Olmos, Sofía Espinosa – 105 minutos

                 UMA JORNADA DE AMADURECIMENTO EM DOIS MUNDOS 


O que chama mais atenção a esta nova animação, no entanto, é ser o primeiro filme da Disney totalmente no México e dedicado à cultura mexicana. Desde o início, o filme apresenta diversos elementos do país e seu povo como os mariachis, as telenovelas e a devoção ao Dia dos Mortos. “Viva – A Vida é Uma Festa” é apresentado através dos olhos do menino Miguel de forma perspicaz e inocente. Apesar da proibição musical, ele mantém sua paixão em um esconderijo onde toca sua viola quebrada e assiste às apresentações do seu grande ídolo já falecido Ernesto de la Cruz (Benjamin Bratt).

Existem filmes que conseguem fazer com que o espectador se sinta mais leve depois de assisti-los. “Viva – A Vida é uma Festa” é um deles: traz uma sensibilidade única para tratar de temas complexos como morte, de uma maneira que não subestima os espectadores e, ao mesmo tempo, não assusta os mais jovens que não têm tanta experiência em lidar com perdas. Isso dá ao filme uma linguagem tradicional. A jornada de Miguel é clássica - um garoto que precisa lutar pelo seu direito de cantar e no caminho aprende valiosas lições sobre perdão e legado -, o que se reflete no visual do filme. A qualidade técnica da animação, capaz de recriar texturas com profundidade, se sobressai a sua inventividade estética. 


As decisões tomadas são esperadas e seguras, seja no design dos personagens ou no contraste entre os tons terrosos do mundo dos vivos e o colorido do mundo dos mortos. É o que afasta o filme da assinatura de um estúdio conhecido pela inovação visual, subtexto complexo e profundidade psicológica de personagens variados, sejam brinquedos, formigas, peixes ou idosos rabugentos. É um dos filmes mais visualmente impressionantes da Pixar e talvez de todas as animações em computação gráfica já feitas. Você se sente no meio da multidão que povoa as diferentes regiões da cidade, entende como cada uma delas funciona e imagina que suas pessoas amadas que partiram estão se divertindo por lá, já que você se lembra delas com carinho. Extremamente alegre, divertido e deslumbrante!! 



quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

CORPO E ALMA (Teströl és Lélekröl) Hungria, 2017 – Direção Ildikó Enyedi – elenco: Géza Morcsányi, Alexandra Borbély, Zoltán Schneider, Ervin Nagy, Tamás Jordán, Zsuzsa Járó, Réka Tenki, Júlia Nyakó, Itala Békés, Attila Fritz – 116 minutos

QUANDO É CHEGADA A HORA DE SE ENCONTRAREM DE VERDADE, A SITUAÇÃO SE MOSTRA AINDA MAIS COMPLEXA


Mária (Alexandra Borbély) e Endre (Géza Morcsányi) são dois funcionários de um abatedouro de gado. Ele é o diretor financeiro, ela acaba de ocupar o cargo de inspetora de qualidade. Em comum, têm a profunda inadequação social: o chefe quase não possui muitos amigos, e carrega traumas como antigas histórias de amor e um braço paralisado. Mária não conversa com ninguém, recusa-se a tocar outras pessoas ou tratá-las com familiaridade, e manifesta traços obsessivos-compulsivos. Não é muito difícil ao espectador entender que o relacionamento entre os dois não será, à primeira vista, muito fácil. A virada no roteiro de “Corpo e Alma”, contudo, ocorre quando descobrimos que essas duas pessoas solitárias partilham todas as noites de um mesmo sonho: um casal de cervos que vivem juntos em uma floresta. Conectados por este cenário lírico, mas incapazes de qualquer comunicação na realidade, aos poucos um sentimento incomum aproxima estes protagonistas e eles decidem se aprofundar nesta história inusitada.

A roteirista e diretora Ildikó Enyedi parte, então, para uma investigação entre o metafísico e o material, entre o corpo e a alma, a crueldade e o sublime. Os animais – tanto aqueles que são abatidos na frente da câmera quanto os cervos gigantes e, ao mesmo tempo, delicados dos sonhos – tornam-se figuras mediadoras dessas transições – às vezes, um tanto óbvias, mas sempre muito bem pautadas nas intepretações da dupla central. “Corpo e Alma” é uma incrível jornada sobre o amor que chega ao espectador de maneira inusitada, ligada por sonhos, onde somos testemunhas, ao longo das quase duas horas de projeção, de uma das histórias mais bonitas que apareceram numa tela de cinema esse ano. O projeto, que demorou mais de dez anos para ficar pronto por conta de uma grave crise no órgão que administra o cinema da Hungria, possui uma riqueza nos detalhes, há um silêncio preponderante em muitas cenas, seja nos olhares distantes dos protagonistas, seja nos reflexos que acompanham as metáforas cotidianas na arte do descobrir. Um trabalho primoroso de direção.


[A diretora] ousa o romantismo poético e também o realismo brutal. Ela celebra a beleza de uma união possível sem esconder as feridas que a acompanham. É isso, o amor. (Frédéric Strauss – Télérama)

O filme se transforma numa metáfora surpreendentemente emocionante sobre a aleatoriedade e a imprevisibilidade do amor, o que se torna parte de seu apelo. Sempre que o resultado corre o risco de ficar emotivo demais, Enyedi fornece momentos de humor negro. (Jessica Kiang – The Playlist)

É de Borbély a performance inteligente e melancolicamente discreta em que Maria permanece simpática mesmo quando se transforma mais em uma condição do que em personagem - e a riqueza das ideias do escritor-diretor se movem e intrigam, mesmo quando são expostas mais artificialmente. (Guy Lodge – Variety)


Construindo sua narrativa em torno de um par de performances impassíveis que produzem traços de humor em meio a um profundo sentimento de saudade humana, Enyedi às vezes pode revelar demais em suas representações da solidão moderna... sem levar o tema muito mais longe. (Jordan Mintzer – The Hollywood Reporter) 



segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

NICHOLAS E ALEXANDRA (Nicholas and Alexandra) Inglaterra, 1971 – Direção de Franklin J. Schaffner – elenco: Michael Jayston, Janet Suzman, Roderic Noble, Tom Baker, Harry Andrews, Irene Worth, Jack Hawkins, Michael Redgrave, Laurence Olivier, John McEnery, Martin Potter, Lynne Frederick, Eric Porter, Maurice Denham, Julian Glover, Ian Holm, Ania Marson, Candace Glendenning, Fiona Fullerton, Timothy West, Katherine Schofield, Jean-Claude Drouot, John Hallam, Guy Rolfe, John Wood, Ralph Truman, Gordon Gostelow, Brian Cox, Michael Bryant, Vivian Pickless, Alan Webb, James Hazeldine, Stephen Greif, Roy Dotrice, Alexander Knox, Curd Jürgens – 183 minutos

O MAIS INTELIGENTE, ARREBATADOR E EXTRAORDINÁRIO ESPETÁCULO JÁ REALIZADO PELO CINEMA INGLÊS


Um filme de raro prazer e beleza! É, sem dúvida, o mais inteligente e bem realizado espetáculo cinematográfico desde LAWRENCE DA ARÁBIA (1962). Robert K. Massie se interessou pela história da família Romanov enquanto pesquisava sobre hemofilia, doença da qual seu filho sofria. Para compreender como outras famílias lutaram contra a doença, Massie começou a estudar a vida e o tempo do Czar da Rússia, Nicholas II, cujo próprio filho Tsarevitch Aléxis, padecia do mal. Os resultados do seu trabalho foram publicados em 1967 como “Nicholas e Alexandra”, um livro histórico que passou quatro meses na lista dos mais vendidos e mais lidos dos EUA. Em 23 de janeiro de 1968, Sam Spiegel (o mesmo de LAWRENCE DA ARÁBIA) anunciou que havia adquirido os direitos para o cinema do livro de Massie, o qual seria adaptado pelo roteirista James Goldman (o mesmo do extraordinário O LEÃO NO INVERNO - 1968) e dirigido por Franklin J. Schaffner (o realizador de PATTON, REBELDE OU HERÓI? – 1970). 


Contratados para interpretar as personagens do papel-título estavam os atores da Royal Shakespeare Company, Michael Jayston e Janet Suzman. Eles seriam coadjuvados por um elenco formado pelos mais importantes atores da Inglaterra: Laurence Olivier, Irene Worth, Harry Andrews, Jack Hawkins, Michael Redgrave, Lynne Frederick, Roderic Noble (como Aléxis), Eric Porter, Maurice Denham, John McEnery, Julian Glover, Ian Holm e o astro do Tesouro Nacional inglês Tom Baker como Rasputin (uma extraordinária atuação), além da presença notável de Martin Potter (que brilhou em SATYRICON, de Fellini). O filme faz um belíssimo panorama da Rússia na época da Revolução de 1917, que tirou o poder das mãos do Czar Nicolau II, um homem que perdeu um império porque não podia dizer “não” a sua esposa. É a épica, grandiosa e trágica história verdadeira de um mundo que desabou e afundou em outro mais trágico. Recebeu 6 indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme do Ano, Melhor Atriz (Janet Suzman), Melhor Fotografia, Melhor Trilha Sonora, ganhando nessas duas categorias: Melhor Figurino e Melhor Direção de Arte. Não ganhou o de melhor filme porque foi um ano de difícil escolha. Os concorrentes eram todos muito fortes. Havia o inesquecível “Um Violinista no Telhado”, de Norman Jewison;  o extraordinário “Laranja Mecânica”, de Stanley Kubrick; o comovente “A Última Sessão de Cinema”, de Peter Bogdanovich e “Operação França” (que saiu vencedor). Um filme inesquecível, emocionante e extraordinário.  Absolutamente belo!!!!
NICHOLAS E ALEXANDRA começou a ser produzido em 30 de novembro de 1970, nos Estúdios Sevilla, em Madri – Espanha. Entre os cenários que mereceram esmerada pesquisa, figuravam corredores, halls, escadarias, escritórios e o salão de recepção do Palácio Tsarskoe Selo, fora de São Petersburgo, a sala de troféus de caça de Spala, o vestiário em malva da Czarina, a enfermaria de Aléxis, o salão de jantar e o salão de baile do Grão Duque Nicholas, o apartamento de Rasputin, a adega do palácio do Príncipe Felix Yussoupov (magnífica atuação de Martin Potter) e onde Rasputin foi assassinado) e os interiores de várias casas  onde a Família Real foi aprisionada e mais tarde executada. As cenas exteriores foram filmadas em locações com as mesmas características dos palácios e estações de trem que existiam na Rússia pré-revolucionária. Os exteriores da prisão da Sibéria foram filmados nas montanhas nevadas entre Madri e Segóvia. A produção de 11 milhões de dólares (uma fortuna na época) foi concluída em 17 de abril de 1971. NICHOLAS E ALEXANDRA teve sua estréia mundial em 29 de novembro de 1971, seguida de sua estréia nos Estados Unidos, em 13 de dezembro do mesmo ano. NICHOLAS E ALEXANDRA continua um épico grandioso e magnífico. O Los Angeles Times escreveu: “É um dos filmes que trazem a história à vida com clareza, fidelidade e uma proximidade que o tornam compreensível e inesquecível”. Um espetáculo soberbo, belo e extraordinariamente arrebatador!!!!


domingo, 31 de dezembro de 2017

O ÚLTIMO REFÚGIO (The Last Valley) Inglaterra / EUA, 1971 – Direção James Clavell – elenco: Michael Caine, Omar Shariff, Florinda Bolkan, Nigel Davenport, Per Oscarsson, Christian Roberts, Madeleine Hinde, Michael Gothard, Arthur O’Connell, Yorgo Voyagis, Miguel Alejandro, Brian Blessed, Ian Hogg, George Innes, Vladek Sheybal – 125 min

UM HOMEM DE VIOLÊNCIA E UM HOMEM DE PAZ... SEUS OBJETIVOS ERAM DIFERENTES, MAS SEUS IDEAIS ERAM QUASE IGUAIS

O primeiro filme norte-americano da nossa grande Florinda Bolkan, embora em sua maior parte rodado na Áustria, visto que a ação começa em 1641, vigésimo terceiro ano da Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) e narra uma história de violência, luxúria, superstições e crueldade, um “background” social talvez evocado sem concessões nem ilusões, bem ao estilo de James Clavell, grande escritor (famoso por livros como “Shogun” e “Tai Pan”), roteirista e também grande diretor, que também dirigiu “No Limiar do Inferno” (1959) e “Ao Mestre, Com Carinho” (1967). O ÚLTIMO REFÚGIO foi seu último trabalho para o cinema, uma produção europeia “Classe A”, baseada no livro de J. B. Pick. Na história, Florinda Bolkan é a amante de Gruber (Nigel Davenport), chefe da aldeia local que havia sido invadida e quase arrasada por uma turma de mercenários, comandada por um Capitão (Michael Caine, em grande atuação). Como Érika, Florinda Bolkan submete o amor do Capitão a bruxarias. Destaque também para a performance perturbadora de Per Oscarsson (o famoso intérprete de “Fome”, em 1966), como o padre Sebastian. Outra grande interpretação é a do ator inglês Michael Gothard, no papel brilhante de Hansen. Infelizmente ele se suicidou em sua casa, em Londres – Inglaterra, aos 53 anos, em dezembro de 1992, por depressão.  A atuação de Florinda Bolkan foi muito elogiada e considerada um marco nessa estreia norte-americana, principalmente considerando a concorrência de interpretações soberbas como de Per Oscarsson, Michael Caine, Michael Gothard e Omar Shariff.  


Durante a Guerra dos Trinta Anos, o único vale que resistiu do conflito vira alvo de dois homens que buscam um refúgio dos conflitos religiosos. Um deles, Vogel (Omar Sharif), um professor de História, é uma das raras pessoas em seu período de tempo, não é nem um camponês nem um nobre. O outro é um líder de um exército mercenário (Michael Caine) encorajada por Vogel em passar o inverno no vale antes de retomar a sua participação no conflito. Agora ambos tentarão conviver em paz com seus habitantes.
O filme se destaca por seu especial realismo histórico, mostrando aspectos e detalhes pouco conhecidos sobre a Peste Negra e a Guerra dos 30 Anos na época. Mas, também pretende atingir certo valor alegórico. Não é bem um épico, nem exatamente um filme de aventuras. É quase uma meditação sobre o amor, o homem e a guerra. É um filme belíssimo, com uma fotografia de encher os olhos e uma história intrigante. Foi lançado em DVD estranhamente com outro título, "O Vale da Morte" (a distribuidora tem o mau hábito de trocar títulos, por isso em DVD recebeu esse péssimo título).


Concluindo, é mais um dos "filmes esquecidos" dos anos 1970. Recebeu a cotação de Excelente e merece ser conferido e apreciado este ótimo trabalho cinematográfico. A trilha sonora com muita qualidade é um outro momento de rara beleza. A ótima direção e roteiro acima destacados compõem outra garantia de validação. O elenco com nomes de respeito já discorrido acima só qualifica a obra. Numa época afogada pelo ódio e mergulhada em insuportável violência dois homens diferentes e de ideais quase iguais serão confrontados num vale, que mudará para sempre suas vidas. Belíssimo, emblemático e arrebatador, apesar de pouco conhecido é uma verdadeira aula de cinema!!!  Um Grande Filme!!! 


sábado, 30 de dezembro de 2017

REI ARTHUR (King Arthur) EUA / Inglaterra / Irlanda, 2004 – Direção Antoine Fuqua – elenco: Clive Owen, Ioan Gruffudd, Keira Knightley, Hugh Dancy, Mads Mikkelsen, Joel Edgerton, Ray Winstone, Ray Stevenson, Stephen Dillane, Stellan Skarsgard, Til Schweiger, Lorenzo De Angelis, Shane Murray-Corcoran, Dawn Bradfield, Elliot Henderson-Boyle, Sean Gilder, Pat Kinevane, Ivano Marescotti – 126 minutos 

                             A VERDADEIRA HISTÓRIA POR TRÁS DA LENDA 


Nas diferentes versões cinematográficas da lenda do rei Arthur, embora amplamente diferentes em sua abordagem, a grande maioria seguiu os elementos básicos da lenda. Este “Rei Arthur”, por sua vez, dirigido por Antoine Fuqua, distancia-se do mito e busca nos entregar uma história com um pé mais firmado na realidade, saindo da era medieval, partindo para o período de ocupação romana da Grã Bretanha e colocando Arthur como o filho de um oficial de Roma encarregado de um grupo de soldados estrangeiros que lutam pelo império, ao invés da clássica figura do camponês que retirara Excalibur da pedra. 


O filme possui uma bela fotografia, muito semelhante à do filme anterior do diretor, “Lágrimas do Sol” (2003), embora tenha sido fotografado por outra pessoa, Slawomir Idziak, o responsável por filmes como “Falcão Negro em Perigo” (2001). Os tons escurecidos enfatizam a ambientação muito bem realizada da Idade Média. A direção de Antoine Fuqua também é bastante caprichada (e o diretor já provou poder ser de primeira linha com o ótimo “Dia de Treinamento”), com ângulos de câmera bacanas e bastante agilidade para demonstrar as batalhas. Falando em batalhas, o filme tem uma cena em particular que é belíssima, e não é a principal. O ataque sobre o gelo é um belo exemplo de cena que funciona por causa de sua tensão. É um momento em que vale a pena torcer pelos heróis do filme. Uma cena espetacular.


Em relação à lenda, o filme criou bastante controvérsia ao divulgar que apresentaria um Rei Arthur mais real, a partir de fatos descobertos recentemente. Não se sabe se realmente o que foi divulgado é válido ou não, mas é um ponto positivo do filme, e isso fica bem caracterizado. Não se pode dizer que aqui temos uma obra-prima, mas com certeza pode-se dizer que é um filme sobre lealdade, traição e coragem. Vale o ingresso!! 


sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

CABÍRIA (Cabíria) Itália, 1914 – Direção Giovanni Pastrone – elenco: Carolina Catena (Cabíria criança), Lídia Quaranta (Cabíria garota), Bartolomeo Pagano (Maciste), Dante Testa (Khartalo), Umberto Mozzato (Fulvio), Gina Marangoni (Croessa), Raffaele Di Napoli (Bodastoret), Enrico Gemelli (Archimede), Emilio Vardannes, Edoardo Davesnes, Itália Almirante-Manzini (Rainha Sofonisba), Alex Bernard, Luigi Chellini – 148 minutos

UM DOS PRIMEIROS ÉPICOS DA HISTÓRIA DO CINEMA, TEM FUNDAMENTAL IMPORTÂNCIA DA ITÁLIA NO UNIVERSO CINEMATOGRÁFICO 


Rodeada de antiguidades romanas, baseada na tradição da ópera e incitada pela vitória italiana na Guerra da Líbia (1911-1912) nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial, a indústria cinematográfica italiana inicia uma série de produções históricas extravagantes: “A Queda de Tróia” (1911), de Luigi Romano Borgnetto e Giovanni Pastrone; “Os Últimos Dias de Pompeia” (1913), de Mario Caserini e Eleuterio Rodolfi; “O Inferno” (L’Inferno – 1911), de Francesco Bertolini, Adolfo Padovan e Giuseppe de Liguoro e “Quo Vadis?” (1913), de Enrico Guazzoni. São títulos sugestivos de escala épica, entre os quais “Cabíria” foi o mais inovador e bem sucedido. Em 18 de abril de 1914, “Cabíria” estreou em Turim, sede de sua produtora, a Itália Filmes. Em menos de um mês teve uma exibição privada em Nova York e pouco depois tornou-se um sucesso indiscutível no cinema Knickerbocker. O impacto desse grande filme foi tanto que ressoou por toda História do Cinema. Dizem que quando David W. Griffith viu “Cabíria” ficou tão impressionado, que decidiu transformar “A Mãe e a Lei”, filme ainda em produção, em “Intolerância” (1916). Ela foi suficientemente valiosa ao “New York Times” que, numa de suas raras críticas de cinema, declarou: “este fotodrama é um dos mais efetivos já exibidos aqui”. Hoje, 100 anos depois, “Cabíria” (1914) continua atraindo o elogio da crítica e do público mais refinado. Um filme visualmente deslumbrante, cheio de revelações impressionantes. Seus cenários estupendos e figurino elegante, em toda sua meticulosidade e grandeza, poderiam ter sido inspirados por pinturas. 


“Um livro poderia ser escrito sobre o impacto dos experimentos do diretor Giovanni Pastrone em iluminação e movimentos de câmera, decisivos na libertação dos filmes do proscênio”, escreveu Kevin Thomas – Los Angeles Times. Variações da fantástica sequência do Moloch podem ser vistas numa grande variedade de filmes épicos, incluindo “Metrópolis” (1927), de Fritz Lang e “A Arca de Noé” (1928), de Michael Curtiz. Federico Fellini, um dos mais importantes cineastas da história do Cinema Italiano, homenageou Giovanni Pastrone intitulando uma de suas obras-primas de “Noites de Cabíria” (1957). O espetacular filme da Era do Cinema Mudo, do gênio criador de Giovanni Pastrone, é um dos mais influentes da História do Cinema. No entanto, por décadas foi disponibilizado para o público numa versão terrivelmente truncada, prejudicando uma apreciação mais apurada. A edição atual foi remasterizada através de cópias de 35 mm, contêm todas as sequências disponíveis e é apresentada agora na velocidade correta. 

Martin Scorsese disse que o diretor Giovanni Pastrone inventou o gênero épico com “Cabíria”. Apresentando cenários grandiosos, cheios de detalhes e milhares de figurantes, o filme é de fato um épico em todos os sentidos. Além da importância histórica, o filme é ainda uma ótima experiência por si só. A trama se passa na Roma do século III a.c. Após o vulcão Etna entrar em erupção, a garota Cabiria é raptada e vendida como escrava para os cartagineses. Cabe ao nobre Flavius Axilla e ao seu ajudante, o enorme Maciste, a tarefa de resgatá-la. Para a época, o filme é espetacular e nunca cansa. Impressiona a quantidade de cenas arrojadas em que figurantes arriscam a vida, como quando os soldados fazem um tipo de escada humana para subir em uma fortificação. Imagens quase hipnóticas e poderosas não faltam, sendo o destaque nesse sentido a assustadora sequência do sacrifício. Vemos também personagens históricos realizando feitos que aprendemos na escola, como Arquimedes botando fogo na frota romana e Aníbal cruzando os Alpes. Merece ser descoberto, porque é uma raridade e um verdadeiro documento da Sétima Arte. 


UM MARCO NA HISTÓRIA DO CINEMA ITALIANO POR CONTA DO SEU BEM SUCEDIDO RETRATO DA EXUBERÂNCIA DOS TEMPOS DO IMPÉRIO