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sábado, 17 de março de 2018

A PAIXÃO DE ANA (En Passion) Suécia, 1970 – Direção Ingmar Bergman – Elenco: Max von Sydow, Andreas Winkelman, Liv Ullmann, Bibi Andersson, Erland Josephson, Erik Hell, Sigge Fürst, Svea Holst, Annicka Kronberg, Hjördis Petterson, Lars-Owe Carlberg, Brian Wikström, Barbro Hiort af Ornas, Malin Ek, Britta Brunius, Brita Öberg, Marianne Karlbeck – 101 minutos

2018 - 100 ANOS DE INGMAR BERGMAN 

Um retrato penetrante das relações amorosas, a partir de um complexo estudo psicológico de suas personagens.


Andreas Winkelmann, um homem lutando contra o recente fim de seu casamento e o momento emocional que está enfrentando, isola-se em uma ilha no Mar Báltico. Lá, conhece Anna Fromm, que está de luto pela recente morte de seu filho e de seu marido, cujo nome também era Andreas. Ela parece crente em sua fé inabalável e na busca da verdade, mas aos poucos passa a conviver com uma série de delírios. Andreas e Anna tornam-se amantes, mas ele não é capaz de superar seus sentimentos de profunda humilhação e permanece incapaz de se relacionar. Entretanto, a comunidade da ilha passa a conviver com um maníaco que comete atos cruéis contra animais.

Este filme de Bergman em particular não abusa de seu simbolismo costumeiro, como o diretor sueco apresentou em clássicos como “O Sétimo Selo” (1957) ou mesmo em sua “Trilogia do Silêncio”, porém analisa de forma esmiuçada toda a psiquê humana envolta na necessidade de afeto, como o diretor aponta em diversos momentos de sua trama. Deixando de lado suas indagações religiosas, Bergman tece um drama mais humano, porém não deixa de lado questionamentos comuns a seus filmes, como o lugar de cada um, seja na sociedade, seja dentro da própria família. De forma sutil, mas bastante inteligente, Bergman utiliza a morte sacrificada de alguns animais em sua história como metáfora para o ressentimento de seus personagens por casos do passado. 


Interrompendo a trama em um total de quatro vezes, o diretor utiliza-se de um artifício pouco usual no cinema, quando inclui o que nomeia de ‘interlúdios’, onde cada um dos quatro atores principais, um por vez, analisa seu personagem em um pequeno momento. Essas cenas não acrescentam muito à narrativa do filme, mas, por serem relatos verdadeiros, instigam o espectador a prestar maior atenção aos detalhes analisados pelo elenco, uma vez que os atores imersos em seus papéis conhecem a fundo seus personagens e as intenções dos mesmos. Tais cenas também, curiosamente, não quebram o ritmo do filme ou o tornam desinteressante.  

Três grandes nomes consagrados por filmes do diretor estão presentes em “A Paixão de Anna”: Max von Sydow, Liv Ullmann e Bibi Andersson. O primeiro, como Andreas, desenvolve seu personagem inicialmente como um homem triste e sofrido, consciente de sua solidão, que muda aos poucos quando encontra em Anna uma parceira. Liv Ullmann, com seu olhar incrivelmente expressivo, destaca-se facilmente por tecer em Anna uma persona maleável, caracterizada por sua fragilidade. E por fim Bibi Andersson, que coadjuva como Eva, encanta com a força de sua atuação mesmo nos pequenos momentos do filme em que aparece. Esta obra-prima importante figura entre os filmes menos otimistas de Bergman, em sua jornada para retratar a alma humana no cinema. O diretor não deixa esperança para os personagens que criou e o pouco que se pode esperar para os mesmos se esvai ao longo do filme, até seu final, que não poderia ser mais amargo e pessimista. Um filme intrigante, belo e obrigatório!!


quinta-feira, 15 de março de 2018

MUDBOUND – LÁGRIMAS SOBRE O MISSISSIPI (Mudbound) EUA, 2017 – Direção Dee Rees – elenco: Carey Mulligan, Garrett Hedlund, Jason Clarke, Jason Mitchell, Mary J. Blige, Rob Morgan, Kerry Cahill, Jonathan Banks, Frankie Smith, Dylan Arnold, Kelvin Harrison Jr., Lucy Faust, Geraldine Singer, Kennedy Derosin – 134 minutos

UM BELÍSSIMO ÉPICO RURAL QUE É A IMAGEM SUFOCADA PELAS PALAVRAS  

"Mudbound" comove graças às impressionantes performances do elenco como um conjunto e, notavelmente, à intenção de Dee Rees de representar a realidade obscura do período desagradável antes dos Direitos Civis. (Gregory Ellwood – The Playlist)

''Mudbound - Lágrimas Sobre o Mississippi'' consegue abordar temas relevantes e atemporais com uma carga emocional impressionante, mas sem ser excessivamente apaziguador ou apolítico. (Iara Vasconcelos – CineClick)  

"Mudbound" segue uma estratégia que o cinema americano conhece desde Griffith e que consiste em articular a história, a grande narrativa do destino coletivo da humanidade, com as pequenas narrativas das pessoas comuns, tentando construir suas vidas em tempos conturbados. (Luiz Carlos Oliveira Jr. – Folha de São Paulo) 


O elenco dirigido por Dee Rees não encontra uma falha sequer, ainda que, devido a cenas específicas, alguns se destaquem mais que outros, como é o caso de Carey Mulligan, Garrett Hedlund e Mary J. Blige, especialmente. (Matheus Bonez – Papo de Cinema)

Esse é um grande filme, sobre grandes emoções e ideais, que a Dee Rees aponta e explora por meio de uma extraordinariamente rica atmosfera, contexto físico, detalhe visual e sutis performances sensíveis. (Ann Hornaday – Washington Post) 

Nesse mundo, parece que todo momento de felicidade, cada vislumbre de um futuro melhor, é carregado de consequências perigosas... Mas a redenção e a esperança eventualmente aparecem aqui e ali, e quando isso acontece, é algo belo. (Richard Roeper – Chicago Sun-Times)

Ecoando os ensinamentos futuros do pastor Martin Luther King, a narrativa consegue manter o tom esperançoso em um drama profundo, que inquieta aquele que entende que a única distinção entre um e outro é o caráter que cada qual carrega. (Rafaela Gomes – Cinepop)


É um trabalho de imaginação histórica que aterriza no presente com uma força inquietante. As vozes que refletem sobre o significado das ações acontecendo podem ser desconcentrantes ou confusas, mas, ao contrário, elas proporcionam uma estrutura quase musical e uma sensação de gravidade moral. (A. O. Scott – New York times)

"Mudbound" requer um gosto por histórias contadas lentamente, com mais foco em construir nuances cuidadosas e personagens profundos do que grandes estrondos dramáticos. Sua abordagem discreta é amarrada com inteligência, elegância e um equilíbrio impactante entre indignação humana e moral. (David Rooney – The Hollywood Reporter)

O destaque fica para a fotografia belíssima de Rachel Morrison. As paisagens rurais do Mississipi ganham tons terrosos, contrastados, e a iluminação noturna com velas é simplesmente perfeita. (Katia Kreutz – Cinemascope) 



domingo, 11 de março de 2018

TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri) EUA, 2017 – Direção Martin McDonagh – elenco: Frances McDormand, Woody Harrelson, Sam Rockwell, Caleb Landry Jones, Lucas Hedges, Darrell Britt-Gibson, Abbie Cornish, Kerry Condon, Zeljko Ivanek – 115 minutos
  
          MUITO DISCRETO ESTETICAMENTE, É O MELHOR FILME DO ANO!!


Com personagens verdadeiros, viventes, que refletem em micro o que todos nós somos em macro, o longa é uma peça esmagadora, quase excruciante, de espelhamento da nossa incapacidade de nos manter sãos em um mundo que nos surpreende a cada minuto. (Rogério Montanare – Cinema com Rapadura) 

"Três Anúncios Para um Crime" é um filme de vingança que a nega à protagonista, interessando-se não pela catarse cinematográfica originada da punição, mas pela ferida que insiste em permanecer aberta e que só piora ao ser constantemente coçada. (Pablo Villaça – Cinema em Cena)

Com uma fotografia e direção belíssimas que exploram bem cada uma dessas caricatas figuras, ''Três Anúncios Para um Crime'' é um conto peculiar sobre o aftermath, aquele instante que sucede a súbita dor da tragédia revelada. (Rafaela Gomes – Cine Pop) 


Ao contrário de filmes tradicionais onde personagens são guiados para o caminho do perdão e do entendimento, a história dirigida por Martin McDonagh explora a ideia de que, às vezes, devemos aceitar o ódio para, depois disso, encontrarmos algum tipo de evolução. (Fábio de Souza Gomes – Omelete)

É um filme sobre como a raiva consome e destrói, e como a única cura para essa raiva é a empatia, algo que está faltando esses dias, mas "Três Anúncios Para um Crime" tem em abundância. É um filme de contradições, começando por esta: é um filme agradável e amoroso sobre vingança. (Matt Singer – ScreenCrush)

O que é mais impressionante sobre o filme de McDonagh é sua natureza libertadora, sua sensibilidade agitada, sua consciência de que as pessoas conseguem mudar 180 graus em segundos. Um velho-oeste moderno, completo com música mariachi e um fogo cruzado de olhares na calma Main Street. (Xan Brooks – The Guardian) 


Ancorado numa sucessão de causas e efeitos extremos, o roteiro toma rumos imprevisíveis, apresentando reviravoltas que, felizmente, soam sempre genuínas, nunca forçadas. Isso contribui para a criação de uma atmosfera de absurdo na qual todas as figuras secundárias têm seu momento de brilho. (Leonardo Ribeiro – Papo de Cinema)

Mildred acaba sendo uma alternativa instigante e uma guia profundamente compreensiva por um mundo que o roteirista-diretor Martin McDonagh cria. Seu filme une naturalismo e teatralidade histericamente armada com algumas vezes incertos, mas estimulantes resultados. (Ann Hornaday – Washington Post)

"Três Anúncios para Um Crime" é corrosivo, mas não deixa de ter humor. Pelo contrário, talvez o cômico seja seu traço mais marcante, embora estruturado sobre uma situação trágica. Tem bom ritmo, diálogos afiados e nenhum receio diante da estranheza da vida. (Luiz Zanin Oricchio – Jornal Estado de São Paulo) 



sábado, 10 de março de 2018

THOR: RAGNAROK (Thor: Ragnarok) EUA, 2017 – Direção Taika Waititi – elenco: Chris Hemsworth, Tom Hiddleston, Cate Blanchett, Idris Elba, Tessa Thompson, Karl Urban, Mark Ruffalo, Anthony Hopkins, Benedict Cumberbatch, Taika Waititi, Matt Damon, Luke Hemsworth, Sam Neill, Stan Lee, Jeff Goldblum, Tadanobu Asano,Ray Stevenson, Zachary Levi, Rachel House, Clancy Brown – 130 minutos  

POR UM LADO EXAGERO NO HUMOR, POR OUTRO CENAS DE AÇÃO BEM COMPETENTES

Para fazer vingar o bom humor numa história de ação com batalhas quase apocalípticas, bons atores são fundamentais. E aí entram um bem engraçado Chris Hermsworth como o herói e os ótimos Tom Hiddleston (o nada confiável Loki, meio-irmão de Thor) e Cate Blanchett. (Thales de Menezes – Jornal Folha de São Paulo)

Com uma “vibe” dos anos 80 (que Waititi adora explorar em todas as suas produções), "Thor: Ragnarok" brinca com os clichês sem ofender os fãs das HQs. Mas, sinceramente, vai agradar ainda mais o público que torce o nariz para o gênero. Uma espécie de "Deadpool" para ver com toda a família. Imperdível. (Ricardo Matsumoto – Preview)

Logico que o formato do filme é igual aos demais do universo Marvel, mas o fato de não se levar a sério e saber brincar na hora certa, acaba deixando o longa mais divertido de assistir, os exageros que estão presentes, acabam se tornando toleráveis. (Kadu Silva – Ccine 10) 


O visual do longa, amparado nas cores primárias saturadas e no design único do lendário quadrinista Jack Kirby, também combina com a narrativa de locomotiva sem freio de Waititi, com a direção de arte do filme merecendo todos os louros. (Thiago Siqueira – Cinema com Rapadura)

‘"Thor – Ragnarok" provavelmente vai transformar Thor em um dos heróis favoritos de muita gente, e pode ser considerado uma espécie de "Deadpool" (personagem da Marvel que está nas mãos da Fox nos cinemas). É uma comédia escrachada, que traz um herói brincalhão com um humor ácido. (Renato Marafon – CinePop)

Depois da "Guardiões da Galáxia", a Marvel parece ter entendido que há espaço para criatividade dentro da incubadora de sucessos fabricada em 2008 com Homem de Ferro. "Thor: Ragnarok" é um dos primeiros filhotes dessa nova fase. (Thiago Romariz – Omelete) 


A prevalência do humor não asfixia os demais vieses em "Thor: Ragnarock", um espetáculo pirotécnico – e a qualidade dos seus efeitos especiais deixa a malfadada técnica de "Thor: Mundo Sombrio" para trás –, mas que sabe dosar habilmente os tons secundários. (Marcelo Müller – Papo de Cinema)

Um filme de história em quadrinhos alegremente pateta que reverbera com o prazer juvenil. O toque leve do diretor não impede que Ragnarok seja o tipo de blockbuster forte que o público demanda. (Tim Grierson – Screen International)

Chris Hemsworth [tem a] chance de encontrar uma pegada cômica e faz isso com habilidade, e o humor auto-zombador é ainda mais bem-vindo, dada a essência original de Thor. (Sheri Linden – The Hollywood Reporter) 


Com atuações caricatas, mas curiosamente interessantes, como do próprio Chris Hemsworth, o longa apresenta ainda a primeira vilã do universo cinematográfico da Marvel, que mesmo com uma atriz de peso como Cate Blanchet por trás da antagonista, ainda não consegue ser a personagem de peso que gostaríamos de ver. Daniel Reininger – CineClick)

Será que ele vai poder confiar em Loki para ajudá-lo desta vez? O diretor neozelandês Taika Waititi infiltra algumas doses de humor neste barraco familiar enquanto a destruição corre solta. (Neusa Barbosa – Cineweb)

Embora não diga muito, Thor: Ragnarok é facilmente o melhor dos três filmes de Thor - ou talvez eu apenas pense, porque os roteiristas e eu finalmente parecemos concordar com uma coisa: os filmes Thor são absurdos. (Peter Debruge – Variety) 



sexta-feira, 9 de março de 2018

O ARTISTA DO DESASTRE (The Disaster Artist) EUA, 2017 – Direção James Franco – elenco: James Franco, Dave Franco, Zac Efron, Josh Hutcherson, Seth Rogen, Sharon Stone, Melanie Griffith, Ari Graynor, Alison Brie, Nathan Fielder, Paul Scheer, Andrew Santino, Jason Mantzoukas, Megan Mullally, Jacki Weaver, Charlyne Yi, Bob Odenkirk, Tommy Wiseau, Tom Franco, Kevin Smith, Kristen Bell, J. J. Abrams, Lizzy Caplan, Adam Scott, June Diane Raphael – 104 minutos

UM TRIBUTO ÀQUELES QUE SONHAM TÃO ALTO E FALHAM TÃO ESPETACULARMENTE QUE ACABAM TRIUNFANDO (New York Magazine)


"Artista do Desastre" é uma daquelas comédias de absurdo, em alguns momentos quase surreal, que causa estranheza logo de início. Entretanto, é interessante o quanto o argumento consegue desenvolver a história sem caracterizar de forma pejorativa sua personagem principal. (Davi Gonçalves – Ccine 10)

O filme cumpre bem o seu papel como comédia dramática. O tom naturalmente cômico da história real faz a necessidade de criar situações engraçadas quase nula. O bônus antes dos créditos finais, que coloca lado a lado as cenas do original com as do longa de Franco, são o arremate perfeito. (Iara Vasconcelos – CineClick)

A primeira cena do filme de James Franco já mostra que, apesar da intensa pesquisa realizada pelo ator e diretor, ele jamais conseguiu desvendar o enigma Tommy Wiseau. “O Artista do Desastre” é um buddy movie tão esquisito e fascinante quanto a figura na qual se inspira. (Bernardo Brum – Cineplayers) 


"Artista do Desastre" está preocupado em humanizar Tommy Wiseau através de sua amizade com Greg Sestero. Você ainda vai rir do início ao fim, mas vai ficar encantado com a doçura e sensibilidade do filme. (Matt Goldberg – Collider)

Seria fácil fazer um filme sobre Tommy Wiseau e tratá-lo como ridículo. É muito mais difícil fazer o que James Franco conseguiu em "Artista do Desastre", ou seja, levá-lo a sério como diretor, e encontrar a alma por trás da aparência excêntrica. A atuação de Franco como Tommy Wiseau é uma maravilha. (Matt Singer – ScreenCrush)

James Franco está inteiramente comprometido com o papel, desaparecendo no personagem para se transformar em um diretor surpreendente. Ele faz mais do que uma imitação: a versão de Tommy criada por Franco tem motivações claras e fáceis de se identificar. (Chris Agar – Screen Rant) 


James Franco desaparece completamente no papel de Tommy, até ficar impossível dizer onde acaba a maquiagem e permanece o ator. É a melhor atuação dele desde "127 Horas", e como diretor, é ótimo finalmente vê-lo trabalhando em sua zona de conforto da comédia. (Erik Childress – The Playlist)

Um filme clássico sobre o sonho americano, algo que sempre envolve o cinema. Uma narrativa sobre o desejo de brilhar, sobre sair de uma cidade qualquer, arrumar um par de malas e ser estrela em Hollywood, por mais distante que esse objetivo possa estar. (Giovanni Rizzo – Observatório do Cinema)

"O Artista do Desastre" é um filme real, bancado por um legítimo estúdio, apresentado por talentos indicados ao Oscar e dono de uma genuína capacidade de entreter plateias que assistiram  "The Room" ou não. (Peter Debruge – Variety)

James Franco é o cara certo para fazer um filme sobre um dos piores filmes já feitos. Em "O Artista do Desastre", mais do que em qualquer um de seus outros projetos, Franco nos lembra de seu genuíno talento à frente e atrás das câmeras. (Richard Roeper – Chicago Sun-Times) 


sábado, 3 de março de 2018


                 O FILME DE GUERRA MAIS INTENSO E IMERSIVO DA HISTÓRIA


"Dunkirk" é um "tour de force" de arte e técnica cinematográfica, com uma grandeza ímpar e pouco vista no cinema. Baseado num evento histórico que consistiu na evacuação de soldados britânicos e franceses de Dunquerque, região no norte da França, conhecida como a Operação Dínamo, o filme é um eletrizante retrato de um dos mais cruciais momentos da Segunda Guerra Mundial. O diretor coloca uma lupa nesse evento da guerra e trabalha com uma verdade pouco vista nos filmes épicos. Normalmente vemos os filmes de guerra com personagens fortes, heroicos e com uma profundidade dramática muito grande, em vista daquele terror inacreditável que estão vivendo. Em “Dunkirk”, isso é completamente diferente, pois não apenas os personagens são totalmente anônimos, mas também mostra uma face da peleja muito cruel – o desespero. Os soldados da cidade de Dunquerque estavam sendo encurralados pelos inimigos, e as tropas europeias estavam tentando evacuar o local, porém as armadas germânicas estavam implacáveis, bombardeando os locais em que os soldados estavam concentrados. Há três pontos de vista diferentes. Um aviador (Tom Hardy), um civil que é convocado para resgatar os soldados daquele local e um soldado que busca voltar prá casa, após ter escapado do cerco da cidade. Nessas três variantes, o espectador acompanha um pouco do terror e das consequências que a guerra pode trazer. A maneira singular que o diretor faz a transição entre os mesmos acontecimentos, dos diferentes pontos de vista (terra, céu e mar), parece trazer o sentimento diferenciado que cada um mostra. 

Num filme com essa proporção, os efeitos sonoros trazem uma imersão bem importante para o espectador, mas o que se vê supera tudo o que já se viu nesse quesito. Em ambientes fechados, em ambientes abertos, os estampidos das armas de fogo são impressionantes e fazem crer que aquilo está realmente acontecendo. Há um medo coletivo, mas ele é solitário. A luta é entre países, mas a luta interna é muito mais cruel. Alguns filmes do gênero mostram o lado cruel e sombrio da guerra, mas poucos trabalham a vontade de continuar respirando, como “Dunkirk”. O filme mostra o lado visceral e a linha tênue entre covardia e desespero. O heroísmo não tem lugar, quando a sua vida está na mesa e muitas vezes, acabamos agindo por puro instinto, deixando de lado o certo e o errado. A lupa que o diretor coloca na vida das três pessoas, revela outro sentimento interessante – o ser humano mostra o seu melhor, nos momentos de maior dificuldade. Há autoralidade fílmica, pois como sempre há em cena os dois elementos que guiam a dramaturgia cinematográfica do diretor Christopher Nolan: culpa e necessidade de controle. Há uma mistura covalente de ambos no combustível afetivo que alimenta a fúria visual de "Dunkirk". Tenso, emocionante, profundamente envolvente e inesquecível, pode ser classificado entre os melhores filmes de guerra da década.


O diretor sempre está em busca de inovar a linguagem, ao mesmo tempo em que estimula o debate sobre questões cruciais. Em “Dunkirk”, Christopher Nolan diz claramente que ainda acredita na humanidade. É curioso, no entanto, ver uma produção de guerra “limpa”, sem sangue em demasia ou mutilações, obter forte impacto. Parte disso se deve à capacidade do roteiro de botar o espectador ali, junto, nesse episódio singular da Humanidade, que poderia ter outro destino. É um filme poderoso e maravilhosamente criado com uma história a contar, evitando pornografia de guerra em favor de algo desolado e apocalíptico. Talvez o melhor filme de Nolan até agora. Pode-se dizer que é uma obra-prima impressionista. É um filme de guerra como poucos, um dos que pode ser pintado sobre uma tela grande e expansiva, mas que transmite o todo através de momentos isolados, brilhantemente realizados e muitas vezes privados. A história é econômica e segura. Não existe um único momento desperdiçado, nem um detalhe desnecessário. Tudo é empolgante e necessário para a narrativa. Depois de “Amnésia” (2000); “Batman – O Cavaleiro das Trevas” (2008) e “A Origem” (2010) o diretor Christopher Nolan continua surpreendendo com um cinema de fantasia. "Dunkirk", sem sombra de dúvida, é o melhor trabalho do cineasta. Sai a ficção e entra um espetáculo audiovisual realista como raras vezes o cinema produziu nos últimos anos. Espetacular e belo !!

                   INDICADO AO OSCAR 2018 PARA MELHOR FILME DO ANO

quinta-feira, 1 de março de 2018


LADY BIRD: É HORA DE VOAR (Lady Bird) EUA, 2017 – Direção Greta Gerwig – elenco: Saoirse Ronan, Laurie Metcalf, Tracy Letts, Lucas Hedges, Timothée Chalamet, Beanie Feldstein, Lois Smith, Odeya Rush, Jordan Rodrigues, Bayne Gibby, Stephen McKinley Henderson, Laura Marano, Paul Keller, John Karna – 94 min.

                                A MELHOR VERSÃO POSSÍVEL DE SI MESMA 

É inteligente sem ser pretensioso, perspicaz sem ser condescendente, engraçado sem ser de má fé e genuinamente comovente. É único e original e fresco e incrível, e dá para perceber que eu amei? (Richard Roeper – Chicago Sun-Times)

O competente roteiro de Greta entrega dezenas de belíssimas sequências, imagens que te transportam para a percepção do mundo da jovem, com todas as suas frustrações e criatividade para driblá-las. (Letícia Alassë – Cine Pop)

Você deve pensar que já viu tudo isso antes. Você provavelmente já viu, mas nunca dessa forma. O que a Gerwig fez - e de forma alguma é um pequeno feito - foi impor um dos gêneros mais convencionais e cor-de-rosa do cinema americano com inovação e surpresa. (A. O. Scott – New York Times) 


Lady Bird é um triunfo de estilo, sensibilidade e espírito. A menina no centro pode não ser influente, mas seu filme é épico. (Ann Hornaday – Washington Post)

Misturado com uma talentosa direção [...] o filme é uma vida real retratada nas telonas. São cenas simples, mas que trazem diálogos que soam como uma conversa familiar em um almoço de domingo, deixando o espectador "em casa" e familiarizado com todo o enredo. (Thamires Viana – CineClick)

Há uma sinceridade pungente em cada passo da personagem e dos que a norteiam, tornando as situações básicas do dia a dia divertidas e até engraçadas, mas nunca um cacoete de roteiro. É justamente a forma de Gerwig (Greta) lidar com a banalidade que torna tudo tão leve e interessante na mesma medida. (Matheus Bonez – Papo de Cinema) 


Lady Bird é um triunfo de estilo, sensibilidade e espírito. A menina no centro pode não ser influente, mas seu filme é épico. (Ann Hornaday – Washington Post)

Misturado com uma talentosa direção [...] o filme é uma vida real retratada nas telonas. São cenas simples, mas que trazem diálogos que soam como uma conversa familiar em um almoço de domingo, deixando o espectador "em casa" e familiarizado com todo o enredo. (Thamires Viana – CineClick)

Há uma sinceridade pungente em cada passo da personagem e dos que a norteiam, tornando as situações básicas do dia a dia divertidas e até engraçadas, mas nunca um cacoete de roteiro. É justamente a forma de Gerwig (Greta) lidar com a banalidade que torna tudo tão leve e interessante na mesma medida. (Matheus Bonez – Papo de Cinema)