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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

A QUALQUER CUSTO (Hell or High Water) EUA, 2016 – Direção David Mackenzie – elenco: Chris Pine, Ben Foster, Jeff Bridges, William Sterchi, Dale Dickey, Buck Taylor, Kristin Berg, Debrianna Mansini, Katy Mixon, Gil Birminghan, Howard Ferguson Jr. – 102 minutos

                                                JUSTIÇA NÃO É CRIME


Este é um filme de visão sociológica e política muito certeira e urgente, além de incrivelmente dirigido. Também possui uma narrativa perfeitamente equilibrada, permeando lacerantes momentos de tensão. O filme de David Mackenzie é uma visão plena de nossos tempos, marcados por uma sociedade que não enxerga a humanização no terceiro e afunda-se cada vez mais em uma instrumentalização da vida em prol da produtividade capitalista, marcada no século XXI por um rentismo selvagem. O enredo parte dos roubos executados pelos irmãos Tanner (Ben Foster) e Toby (Chris Pine) a bancos em diversas cidades no Texas, tendo eles um objetivo desvendado no decorrer da trama (e que envolve sua família). No seu encalço está Marcus Hamilton (Jeff Bridges), delegado “Texas Ranger” prestes a se aposentar, mas determinado a impedir novos roubos e prendê-los antes da aposentadoria. O Texas apresentado no filme é higienista e autoritário, marcado por discursos de ódio aos “mexicanos”, aos “latinos”. É marcado pelo preconceito, pelo ódio que lacera os conflitos sociais de nossos tempos e que, em momento de instabilidade econômica e descrença na democracia (embora não seja a democracia que tenha falhado, mas os que a subverteram em prol dos seus interesses capitalistas), potencializa-se, flertando com o fascismo. É impressionante como “A Qualquer Custa” consegue tratar de tantos temas e refletir criticamente tantos aspectos da contemporaneidade. 
Com um plano-sequência giratório logo no início, a câmera faz um rodopio de pouco mais de 180º, “A Qualquer Custo” revela-se, de cara, um filme muito bem dirigido e com um texto repleto de diálogos inteligentes e mordazes, o que fez dele um favorito na categoria de Melhor Roteiro Original no Oscar 2017, assinado por Taylor Sheridan, o mesmo roteirista do igualmente bem escrito “Sicario: Terra de Ninguém” (2015). No que se refere às personagens, convivem na narrativa duas duplas cuja interação é fascinante. De um lado, Tanner e Toby; de outro, Marcus e Alberto. Os irmãos, cada um à sua maneira, nutrem carinho e se protegem mutuamente (do álcool, das mulheres potencialmente interesseiras, do que for necessário). Ben Foster e Chris Pine encarnam bem as figuras quase opostas (seus tipos físicos também colaboram): Tanner é violento e bastante agressivo, inclusive na linguagem, no uso de palavras de baixo calão de forma banal, sentindo prazer em cometer ilicitudes; já Toby é um pai preocupado, um homem gentil com todos, encarando o crime como um mal necessário. No outro vértice, Marcus e Alberto (Jeff Bridges e Gil Birmingham) também são unidos por um laço de afeto, para além do profissional. Entre diálogos de provocação mútua (especialmente quanto à aposentadoria iminente do primeiro e à descendência indígena do segundo), a dupla diverte o público enquanto persegue os irmãos ladrões. Há certo antagonismo entre os quatro (todos humanizados, isto é, imperfeitos), mas o verdadeiro vilão é revelado durante o filme.

Atravessado por imagens de uma América desolada, decadente, quebrada no longo day after da crise econômica que se iniciou em 2008 e fincando claramente raízes no western, lembrando bastante, no tom e nas paisagens, a obra de Joel e Ethan Cohen, “Onde os Fracos Não Tem Vez” (2007), o filme se interessa não apenas por contar uma história dentro desse gênero, mas também por comentar criticamente as consequências sociais do que aconteceu nos Estados Unidos nos últimos anos. “A Qualquer Custo” está situado em algum ponto entre um filme de estrada e um filme de assalto a bancos, mas ao mesmo tempo completamente engolfado ao gênero western. Ser um faroeste muitas vezes significa comentar de alguma maneira os Estados Unidos da América. Nesse caso, o filme é profundamente carregado de uma mensagem essencialmente anticapitalista - os valores da família e da tradição são postos em espectros opostos aos do progresso e do dinheiro. Recebeu 04 indicações ao Oscar 2017, incluindo Melhor Filme, Melhor Roteiro Original, Melhor Ator Coadjuvante (Jeff Bridges) e Melhor Montagem. Um grande filme que vale a pena ser visto!!!


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

A CHEGADA (Arrival) EUA, 2016 – Direção Denis Villeneuve – elenco: Amy Adams, Jeremy Renner, Forest Whitaker, Michael Stuhlbarg, Mark O’Brien, Tzi Ma, Abigail Pniowsky, Julia Scarlett Dan, Jadyn Malone, Frank Schorpion, Lucas Chartier-Dessert  - 116 minutos

                                           POR QUE ELES ESTÃO AQUI???


Uma alegoria sobre a importância da aceitação lúcida da finitude no processo de amadurecimento. É a definição mais provável para o novo filme de Denis Villeneuve. É um exercício da visão que mira o longínquo, a fim de entender o íntimo. A CHEGADA (Arrival) é um filme explicitamente sobre a comunicação, sobre entender o próximo para compreender a si mesmo. É a grande adaptação para o cinema de um conto de Ted Chiang, considerado um dos principais nomes da literatura de ficção científica contemporânea, mas lançado no Brasil somente agora, com o sucesso do filme nos Estados Unidos. O conto faz parte da obra “História da Sua Vida e Outros Contos”, de 2002. O diretor trabalha uma dupla perspectiva, tanto no grande evento da chegada das naves alienígenas quanto as dificuldades da protagonista. Essas duas linhas irão se encontrar no final. Até lá, Denis Villeneuve vai colocando seu apuro estético assombroso e sua capacidade de estabelecer uma ação quase minimalista à serviço do suspense e da tensão. Neste filme impactante, ele não produz uma sequência de ação tão minimalista quanto a do engarrafamento em “Sicário – Terra de Ninguém” (2015). Em A CHEGADA, a tensão deriva mais da busca de Louise por entender a linguagem dos ETs e da postura dos militares, do que da ação em si. Com viés pacifista, o filme questiona a intolerância, a falta de comunicação e até a dificuldade de lidarmos com o nosso eu.


A história desenvolve a trajetória da Dra. Louise Banks (Amy Adams), uma linguista convocada pelo governo norte-americano para estabelecer contato com alienígenas de uma das doze naves que pousaram no Planeta Terra. A parte central da narrativa vai transcorrer nas diversas etapas desse processo. Mas, os percalços pelos quais passam a equipe são apenas a superfície da história. Todo o filme é visto pela perspectiva de Louise. Quando ela veste a roupa de proteção, o som fica abafado; quando ela está no helicóptero, só entendemos o que o físico e parceiro de missão Ian Donnelly (Jeremy Renner) fala quando Louise coloca o fone. Todos os elementos do filme trabalham para uma narrativa em primeira pessoa. Assim, ao contrário da maioria dos filmes de invasão, A CHEGADA é um filme sobre a busca pelo contato, em que o estrangeiro alienígena pode não ser uma ameaça. 


Sendo assim, o cineasta constrói um filme em que o mistério ganha contornos muito mais reveladores do que qualquer coisa, como se de fato os personagens estivessem próximos a encontrarem uma iluminação. Isso ocorre através de planos que buscam muito mais um estudo estético das situações do que propriamente narrativos, como os flashbacks extremamente próximos do rosto de Louise e sua filha, ou do constante pássaro engaiolado presente na missão de contato; através da excelente e inspirada trilha musical de Jóhann Jóhannssson, que sugere uma epifania presente; e através da montagem que remete a um fluxo de pensamento constante. Entre paisagens deslumbrantes e uma fotografia de tons pálidos, debates sobre comportamento geopolítico e humano chamam atenção e fazem com que nos questionemos sobre como uma simples frase reverbere diversas interpretações, podendo causar decisões caóticas que talvez levem a uma guerra sem fim. A CHEGADA convida o espectador a pensar, a refletir sobre como lidar com o desconhecido. Será que nossos líderes entrariam em algum acordo ao lidar com uma força desconhecida como uma invasão alienígena? Você aceitaria viver uma vida sabendo o quão duro será o seu futuro? Questionamentos como estes e muitos outros nos levam a conclusão de que A CHEGADA é um filme que transcende e se impõe entre os melhores do ano!!!



domingo, 29 de janeiro de 2017

MOONLIGHT: SOB A LUZ DO LUAR (Moonlight) EUA, 2016 – Direção Barry Jenkins – elenco: Alex R. Hibbert (Little), Ashton Sanders (Chiron), trevante Rhodes (Black), Jharrel Jerome (Kevin adolescente), André Holland (Kevin adulto), Mahershala Ali (Juan), Naomie Harris (Paula), Stephon Bron (Travis), Janelle Monáe, Shariff Earp – 111 minutos

    UM RETRATO UNIVERSAL DA SOLIDÃO, QUE RECUSA O LUGAR-COMUM


Estupendo, forte, poderoso, assustador e devastador, todos esses adjetivos são poucos para expressar a grandeza de um dos melhores filmes do cinema: MOONLIGHT.  Eleito o melhor de 2016 por 65 críticos, mais do que qualquer outro (o segundo lugar, “La La Land: Cantando Estações”, ficou em #1 na lista de 37 deles). Mesmo com o favoritismo de “La La Land” no Oscar 2017, MOONLIGHT ainda é o filme mais premiado do momento: foram, até agora, 141 prêmios contra 134 do musical de Damien Chazelle. Aclamado como um dos maiores filmes da História, é uma pérola que precisa ser descoberta por todos que amam o cinema. A grande sacada desta obra-prima está nas questões de raça e preferência sexual, que no entanto, ganham contornos ao mesmo tempo simples e complexos quando transpostas para um universo essencialmente masculino. As mais belas descobertas ocorrem quando as mesmas coisas são vistas com um novo olhar. O filme foi sensação no último Festival Internacional de Cinema de Toronto no ano passado e fala sobre a vida de um garoto de origem humilde que precisa enfrentar os absurdos feitos pela mãe e acreditar nas suas escolhas num mundo tão insensível em que vivemos.


Escrito e dirigido por Barry Jenkins, a partir de uma ideia de uma peça, o filme é o que, em cinema, se chama de um verdadeiro estudo de personagem. Apelidado de “Little” (pequeno), o tímido Chiron (Alex Hibbert) mora numa comunidade pobre da Miami da explosão do crack dos anos 1980 e, desde novo, sofre com os colegas de escola. Quando chega na adolescência (quem assume é Ashton Sanders, numa performance poderosa e poética), a introspecção aumenta na mesma proporção do bullying. Somam-se mais dez anos a essa história e vemos Chiron como “Black” (o ex-atleta Trevante Rhodes, ótimo em sua estreia no cinema), já líder do tráfico local. O que não muda, ao longo das três fases em que o filme divide a vida do personagem, é a busca por autoconhecimento – algo universal, inerente à vida de qualquer um, independente da cor da pele ou de com quem você se deita. O filme é uma grande crítica social. O preconceito e a violência andam lado a lado, paradigmas impostos por um planeta repleto de caos vivendo todo dia com medos aflorando e com cada vez menos luz no final desse túnel. O protagonista vive grandes conflitos dentro de si e acaba sendo exposto por conta de toda a dificuldade que possui com sua mãe, que deveria ser seu primeiro ombro amigo. Na infância, descobre Juan, o traficante que vendia drogas para sua mãe, um conflito de direções com uma cena emblemática à beira de uma mesa de jantar. Em sua adolescência, onde o roteiro segue firme em sua tentativa de fazer um grande raio-x não só do protagonista, mas da sociedade ao seu redor, a descoberta da sexualidade chega com grande surpresa e uma situação que tenta entender aos poucos. 

Ao longo de sua trajetória narrativa que se divide por tripartição clássica – infância, adolescência e idade adulta, existe a periculosidade de uma outra: Chiron é negro, gay e pobre. Ele pode ser centenas de outras coisas, e de fato o é, mas se constrói primordialmente assim. E é exatamente essa construção e da forma que é narrada que torna o filme poderoso, emblemático e pujante. Há que se destacar a belíssima fotografia de James Laxton. Ele aumenta o contraste da paleta de cores para buscar a justaposição do sol de Miami com o sofrimento no rosto de Chiron, ressaltando suas expressões faciais. O filme é triste, mas, ao mesmo tempo, é uma obra genialmente bela, tocante e verdadeira. A  jornada de descoberta de Chiron, durante suas três fases, faz com que relembremos as nossas próprias jornadas, ainda em curso. Mahershala Ali e Naomie Harris apresentam interpretações impecáveis o que os torna os favoritos ao Oscar nas categorias de Coadjuvantes. Há um olhar brilhante do diretor sobre temas muitas vezes esquecidos no cinema, mas urgentes, necessários e representativos como o ser gay, o ser negro, o ser periférico, o que solidifica sua inestimável importância social. MOONLIGHT possui uma delicadeza devastadora e provocante, o que o torna uma história para toda a vida. Indicado a 08 Oscar, incluindo Melhor Filme. ABSOLUTAMENTE MAGNÍFICO E BELO!!! O MELHOR FILME DO ANO!!! 


sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

LOVING (Loving) Inglaterra / EUA, 2016 – Direção Jeff Nichols – elenco: Joel Edgerton, Ruth Negga, Will Dalton, Alano Miller, Chris Greene, Sharon Blackwood, Christopher Mann, Andrene Ward-Hammond, Jevin Crochrell, Jordan Williams Jr., Georgia Crawford, Nick Kroll, Brenan Young, Dalyn Cleckley, Quinn McPherson, Jon Bass, Michael Shannon, David Jensen, Marton Csokas, Winter-Lee Holland – 123 min

                    QUANDO UM AMOR VERDADEIRO MUDA UMA NAÇÃO

Tendo em mãos uma história real que simplesmente mudou uma questão da constituição norte-americana por conta de um casamento inter-racial, o diretor Jeff Nichols seca sua narrativa até o limite, trabalhando quase que exclusivamente com o olhar. O filme abre com um close de Mildred contando ao namorado Richard Loving que está grávida. O plano é longo, a representação transmite dúvida e insegurança e no momento que aprendemos a informação, conhecemos imageticamente seu outro protagonista. Com uma comunicação que usa o silêncio como forma de criar atmosfera de delicadeza, o trabalho do diretor deve ser também muito agradecido pela presença da dupla Joel Edgerton e Ruth Negga (indicada ao Oscar 2017 na categoria de Melhor Atriz). Num ato de bravura, essas três pessoas compraram a briga de que um amor tão desbravador poderia sim ser introspectivo e ainda assim lotado de sentimentos. Acompanhamos então o jogo de absurdos no qual são arremessados Mildred e Richard, que continuamente passam a ser presos, perseguidos e ameaçados pelas autoridades por não serem da mesma raça. Toda a revolta, o amor de um pelo outro, a esperança, são vendidos pelo mais que expressivo olhar de ambos os atores. Repletos de coadjuvantes ao seu redor, Edgerton e Negga compuseram uma sinfonia mais que delicada com todos eles, contribuindo todos para o espetacular emocional demonstrado entre esse casal que se comunica bem pouco através de verbalização, mas que conseguem compartilhar seu imenso talento e sua química.


Praticando uma misé-en-scene clássica, Jeff Nichols sabe utilizar com sabedoria as ferramentas estéticas que têm a sua disposição: o filme, apesar de ser linear em seu conflito e por vezes ter bastante simplificação por parte do roteiro (os homens da lei - policiais e juízes que os antagonizam - são francamente e propositadamente unidimensionais) não pretende provocar lágrimas facilmente, portanto segue um ritmo próprio. Falando em Joel Edgerton e Ruth Negga, eles estão absolutamente impecáveis em suas interpretações. Negga sempre rouba a cena em toda produção em que dá as caras, mas aqui, é Edgerton quem se sobressai, simplesmente desaparecendo no personagem. A mão firme do diretor é sentida na entrega do elenco, cujas atuações inserem profundidade e textura na produção, onde também se destacam Marton Csokas e Nick Kroll, em papéis menores mas de vital importância no contexto da história. Ah, e é claro que o sensacional Michael Shannon também faz uma pequena participação. Aqui, ele interpreta um fotógrafo da revista Life, que é contratado pelo advogado do casal para registrar alguns momentos de sua convivência. A maneira com que Nichols utiliza o personagem em uma pequena cena no terço final do filme, é de uma delicadeza surreal.


Ambientada em um momento delicadíssimo da história norte-americana, LOVING é extremamente relevante. Principalmente porque o roteiro é do próprio diretor. Em nenhum momento a produção força o choro fácil, mesmo com todas as dificuldades enfrentadas pelo casal e retratadas no filme. Isso também é decorrência da própria força do casal, que apesar do medo sempre inerente de que algo poderia destruir sua relação, nunca se entregou e lutou até o fim, cada um à sua maneira, mas sempre, e inexoravelmente juntos. Foi graças à resiliência e caráter dos Loving, que finalmente, depois de muito tempo de uma política absurda e covarde inserida na constituição americana, a proibição do casamento baseado em raça foi abolida. O tom do filme é algo lindo, gera metáforas fabulosas mas sempre com uma verdade impressionante. Exibido no Festival de Cannes de 2016, o filme possui alma e muita verdade também ao falar dos obstáculos que ambos precisam enfrentar por conta de seu casamento, numa época de muito preconceito em boa parte dos Estados Unidos. Belíssimo e inesquecível!!! Obrigatório e magnífico!!!

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

CAPITÃO FANTÁSTICO (Captain Fantastic) EUA, 2016 – Direção Matt Ross – elenco: Viggo Mortensen, George MacKay, Nicholas Hamilton, Samantha Isler, Annalise Basso, Shree Crooks, Charlie Shotwell, Kathryn Hahn, Trin Miller, Steve Zahn, Elijah Stevenson, Frank Langella, Teddy Van Ee, Erin Moriarty, Ann Dowd – 117 minutos

          ELE OS PREPAROU PARA TUDO, EXCETO PARA O MUNDO REAL!!


Este grande filme, de forma leve e divertida, coloca em pauta a possibilidade de viver isolado do resto do mundo, em condições primitivas e tendo como regras o amor acima de tudo. Exibido na mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes 2016, “Capitão Fantástico” tem muitas referências de “Pequena Miss Sunshine” (2006) e “Na Natureza Selvagem” (2007). O filme conta a história de dois pais que, preocupados com o rumo do mundo, decidem se isolar no meio do mato. Isolados da vida urbana, eles criam seis filhos, ensinando noções de liberdade e direitos civis, além de técnicas de sobrevivência na selva. Até as crianças mais novas aprendem a lidar com armas. É uma família encantadora, que funciona principalmente por causa do seu elenco fabuloso liderado por Viggo Mortensen. Ele vive o capitão do título (no papel de Ben), o chefe da família, um cara de ideias fortes e que ama seus filhos. As crianças estão todas bem e o filme realmente consegue passar a ideia de que estamos diante de uma família. Viggo Mortensen concorreu no Globo de Ouro na categoria melhor ator de drama. Seu nome apareceu nos indicados ao Oscar 2017 esta semana também na categoria de melhor ator.

Na equipe que compõe os filhos estão Nicholas Hamilton (Rellian), Shree Crooks (Zaja), Charlie Shotwell (Nai), George Mackay (Bo), Samantha Isler (Kielyr) e Annalise Basso (Vespyr), todos em grandes atuações e dignas de destaque. Suas evoluções, crises e anseios são sempre muito bem acentuados e a organicidade em tela com o experiente Viggo Mortensen consolida uma experiência fluida. A sua performance faz ameaça parecer vulnerabilidade, transforma vulnerabilidade em confissão e não deixa o filme se tornar uma obra sentimentalista. Ben é o tutor de seis filhos a partir de uma metodologia que deveria ser adotada em larga escala: enquanto se vale de George Eliot, Dostoiévski e Karl Marx para ensinar valores essenciais às crianças e adolescentes – que citam os autores com brilhantismo – ele ainda os prepara fisicamente com técnicas de autodefesa, corridas pelas montanhas, escalada e outros esportes. Ao invés do Natal, eles celebram o aniversário de Noam Chomsky, afinal, para eles é mais lógico festejar o nascimento de alguém real e que proporcionou pensamentos e mudanças práticas para a sociedade da qual fazem parte. Tudo parece muito ideal, até o filho mais velho matar um veado com apenas uma faca e ele presentear os demais com outras armas como esta. Este grande filme é uma versão com lente de aumento para o dilema de pais e mães que lutam com suas escolhas todos os dias em que, espera-se, o amor pelos filhos prevalece. 

"Capitão Fantástico" leva o faz de conta ao extremo, apresentando fantasia como se fosse realidade e evitando os aspectos práticos da vida social em prol de uma "filosofia hippie" apresentada como uma resposta a todos os problemas da nossa sociedade. O roteiro do também diretor Matt Ross é inteligente, questionador, divertido e brilhante ao retratar uma verdadeira família que busca um mundo diferente do que vivemos, sem ódio ou imposição, tudo em nome da paz e do amor. Ainda que tenha sua identidade muito bem caracterizada é impossível não lembrar do já citado acima e belíssimo “Na Natureza Selvagem”, por exemplo, pela forma em que é mostrada a busca pela liberdade dos padrões pré-estabelecidos pela sociedade em que vivemos. O diretor ainda que não disfarce seu lado ao narrar a história, deixa que o espectador decida se apoia ou não a escolha da família em viver isolados da civilização, tanto é que o embate entre os primos que tem educações distintas é de uma força provocadora arrepiante, e o mais interessante sem nunca perder o humor. “Capitão Fantástico” funciona como comédia, como drama e ainda oferece um momento musical encantador, ao som de "Sweet Child O' Mine". São vários filmes dentro de um só, com direito até a cenas de road movie. Maravilhoso e encantador!!! 

domingo, 22 de janeiro de 2017

SETE HOMENS E UM DESTINO (The Magnificent Seven) EUA, 2016 – Direção Antoine Fuqua – elenco: Denzel Washington, Chris Pratt, Ethan Hawke, Vincent D’Onofrio, Byung-hun Lee, Manuel Garcia-Rulfo, Martin Sensmeier, Haley Bennett, Peter Sarsgaard, Luke Grimes, Matt Borner, Jonathan Joss – 130 minutos

        UMA CAPRICHADA RELEITURA  DO GRANDE CLÁSSICO DO WESTERN


Em tempos de "inclusão" e "diversidade", o novo filme de Antoine Fuqua (em impecável direção) traz quatro tipos (numericamente superiores) não-caucasianos entre os sete do título, sendo um oriental (Byung-hun Lee), um descendente de indígenas (Martin Sensmeier) e um latino (Manuel Garcia-Rulfo), todos sob a tutela de um negro, Sam Chisolm (Denzel Washington). Lançado em 1960, Sete Homens e um Destino (The Magnificent Seven) transportou para o Velho Oeste a essência da trama do grande clássico japonês Os Sete Samurais (1954), dirigido por Akira Kurosawa. A nova versão é baseada em ambos os clássicos, que também já ganharam uma releitura infantil em 1998 com a animação Vida de Inseto. Trata-se basicamente da história de uma vila de camponeses que solicita a ajuda de um grupo de forasteiros para lutar contra a opressão de invasores. Diferente do clássico dos anos 1960, dessa vez, não são os mexicanos que sofrem com os ataques do vilão ganancioso (papel assumido aqui por Peter Sarsgaard), mas americanos natos. E quem tem coragem de fazer algo e dar início ao recrutamento da trupe para defender a vila é uma mulher, a personagem de Haley Bennett, que, diferente das donzelas do gênero, põe a mão na massa, ou melhor, nas armas.


O filme é uma releitura caprichada do já citado faroeste clássico homônimo dos anos 1960. No lugar de Yul Brynner, Denzel Washington, no de Steve McQueen, o carismático Chris Pratt, no de Charles Bronson, Ethan Hawke. Nesta nova versão saem os mexicanos malvados e entra um barão corporativo americano capitalista até a medula (Peter Sarsgaard). Ele oprime os mineiros da cidadezinha de Rose Creek. O filme original fantasiava a realidade, criando um universo mítico. Uma terra de Marlboro, onde até os proscritos tinham lá suas virtudes. As atuações soberbas, o vigor do diretor John Sturges para construir as cenas de ação e a trilha de Elmer Bernstein eram as razões que tornaram o filme um clássico.  Os roteiristas Nick Pizzolatto e Richard Wenk optam por uma abordagem pé no chão. Ninguém em cena é inocente. O caçador de recompensas vivido por Denzel Washington, organiza a resistência não porque ficou sensibilizado com o drama dos mineiros, mas porque é conveniente: ele já estava atrás do barão. Na versão antiga, os sete homens se interessavam pelo dinheiro, mas gradualmente a recompensa se revelava fútil, e eles acabam aderindo à causa. Não há ideologia no novo filme. Estamos num mundo de individualistas e cada um tem seu propósito pessoal para se juntar ao grupo. 


É um filme brilhante e tem como um de seus maiores trunfos o fato de respeitar a essência dos faroestes produzidos no período clássico, porém com um diferencial: a utilização de doses exatas de humor como artifício para aproximar a plateia atual, que não tem como hábito o consumo de filmes deste gênero. E parte deste alívio cômico em meio a tanta violência vem do personagem de Chris Pratt, bastante à vontade como o anti-herói Josh Faraday. Na verdade, Pratt não é o único ator a demonstrar conforto em cena, pois todo o elenco oferece ótimos desempenhos, deixando nítido ao espectador seu total entrosamento. Contudo, os grandes destaques são Denzel Washington e Ethan Hawke (Goodnight Robicheaux), que já trabalharam com o diretor em “Dia de Treinamento” (Training Day – 2001). Enquanto Washington se destaca como um cawbói clássico, o anti-herói sério e destemido, Hawke equilibra fragilidade e insanidade com precisão. É formidável a forma como é composta a movimentação dos atores criando um jogo cênico, que explora muito bem a profundidade de campo e o extracampo. E eis uma raridade: um filme de ação, em que a palavra nunca é menosprezada. Sente-se a densidade dos diálogos e as construções subitamente acidentadas que revelam verdades mais complexas. Os diferenciais da produção de 2016 são uma ênfase na diversidade étnica e uma mensagem anticapitalista, além de um número de tiros por minuto bem acima da média geral. Baseado em um material consagrado e ambientado no século 19, “Sete Homens e Um Destino” não arrisca ousadias, não força a barra para ser moderno e mantém-se como um filme heroico, essencialmente tradicional, sem ostentação, por exemplo, nos efeitos especiais digitais. Apesar da violência, o filme busca a elegância e não se rende à influência de nada e nem de ninguém. A marcante música-tema do original de 1960 é resgatada nos créditos finais. Espetacular e eletrizante, merece ser visto e revisto nos cinemas!!! Diversão de primeira!!!


sábado, 21 de janeiro de 2017

KUBO E AS CORDAS MÁGICAS (Kubo and the Two Strings) EUA, 2016 – Direção Travis Knight – Com as vozes de Charlize Theron, Art Parkinson, Ralph Fiennes, Matthew McConaughey, Rooney Mara, Brenda Vaccaro, Cary-Hiroyuki Tagawa, Meyrick Murphy, George Takei, Ken Takemoto, Luke Donaldson – 101 minutos 

         EXCELENTE ANIMAÇÃO COM QUESTÕES PROFUNDAS E HUMOR SOTURNO


Kubo e as Cordas Mágicas transporta o espectador para a mitologia oriental, marcada pela relação íntima com a natureza e com a morte. Esta trama representa ao mesmo tempo uma fábula familiar e um épico de aventura, através dos desafios do garoto Kubo, que perdeu um olho quando bebê, perdeu o pai na mesma época e deve sustentar a casa, já que a mãe sofre de depressão. O filme também aposta na figura de uma criança predestinada que, mesmo sem o traquejo social de outros garotos de sua idade – e talvez justamente por isso – apresenta uma interpretação excepcional do mundo ao redor. O breve prólogo, contado pelo próprio protagonista, dá a dimensão do que está por vir: uma mulher enfrenta o mar durante uma tempestade assustadora. Consegue passar pelas águas ao tocar um acorde mágico no shamisen, espécie de guitarra nipônica com três cordas. Trata-se da mãe de Kubo, que fugiu após um acesso de fúria de seu pai, o Rei Lua, que arrancou um olho do bebê. A dupla se abriga em uma ilha fictícia, ambientada em um Japão fantástico. 


Repleto de detalhes, cores e texturas que ultrapassam sua técnica base, o filme de Travis Knight é um épico, só que representado por bonecos. Essa atmosfera se estabelece ainda mais graças à delicada trilha sonora de Dario Marianelli (compositor dos temas de “V de Vingança” e “Anna Karenina”).Partindo de um universo cheio de referências orientais, com códigos rígidos de honra e moral, onde fantasia e realidade convivem lado a lado, ele conseguiu elaborar um conto surpreendente, tanto pela trama que conduz, repleta de reviravoltas e subcamadas de leitura, como também pelo visual, que chega a ser inebriante pela beleza que carrega. Com belíssimos efeitos especiais que somente um stop-motion muito bem feito pode proporcionar, “Kubo e as Cordas Mágicas” é uma animação cheia de ação e aventura que possui elementos tanto para as crianças quanto para os adultos. Seu estilo mais sombrio, como em todos os longas-metragens do Estúdio Laika (em especial, “Coraline e o Mundo Secreto”), é ousado para uma animação inicialmente voltada para os pequenos, e a riqueza de detalhes do stop-motion em cores vibrantes é o destaque do filme.