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sábado, 22 de outubro de 2016

PERSONA (Persona) Suécia, 1966 – Direção Ingmar Bergman – elenco: Bibi Andersson, Liv Ullmann, Gunnar Björnstrand, Margaretha Krook – 83 min.

O RECONHECIMENTO DA NOSSA TERRÍVEL SOLIDÃO!!!! UMA CONFISSÃO DE NOSSOS MEDOS!!!! UMA VITÓRIA SOBRE O SILÊNCIO!!!! 


50 ANOS DE “PERSONA” – Após cinco décadas, continua como o filme mais emblemático, mais admirado, mais exaustivamente analisado e mais fascinante de todos os tempos!!!! Importante e obrigatório, merece mais do que uma simples revisão. Aqui em São Paulo, na 40ª Mostra de Cinema Internacional de São Paulo, além da exibição do filme com direito a palestra com gente que entende, ocorre a exposição “Por Trás da Máscara – 50 Anos de PERSONA”. Esse meio século de distância serve apenas para reforçar o quanto o filme foi uma espécie de objeto cinematográfico não identificado, à época de seu lançamento. E o quanto continua a nos dizer coisas novas a cada vez que nos dedicamos a ele. 


Um dos temas recorrentes à obra de Ingmar Bergman, o conceito do pecado e principalmente da culpa a ele associada é o que se pode extrair, de início, dessa obra enigmática e importante. Começa de forma inesquecível (e original na época), mostrando o processo de projeção de um filme com um velho cartão queimando, o fotograma, o desenho animado, o filme antigo e mudo, a morte da ovelha (meio Buñuel), a mão pregada na cruz como Cristo. Deixando claro que é cinema. É um dos grandes filmes do cineasta, notável em vários aspectos, inclusive por ter sido o primeiro trabalho com sua então nova mulher, a atriz Liv Ullmann. A história gira em torno de Elisabeth Vogler (Liv Ullmann), atriz que após uma de suas apresentações no teatro sorrateiramente deixa de falar. Sua psiquiatra, Lakaren (Margaretha Krook), a deixa sob os cuidados de Alma (Bibi Andersson), uma dedicada enfermeira. Após meses de tratamento sem nenhum resultado, Lakaren decide levar as duas a uma isolada casa de praia. Isoladas, as duas mulheres desenvolvem uma relação de forte intensidade emocional. 


Considerado a maior obra-prima de Ingmar Bergman e uma das maiores da história do cinema, foi com esse filme que o diretor ganhou o mundo e a fama de ser o melhor cineasta a filmar o rosto humano. Até hoje idolatrado por cinéfilos no mundo todo, que se debruçaram durante décadas sobre as imagens de dor, prazer e morte construídas pela sua câmera impassível, PERSONA possui uma margem incrível de interpretações, aliado à experiência única que faz desse filme algo Extraordinário. Aclamado entre as melhores realizações da história do cinema, o filme vai além do simples deleite: ele desperta a reflexão e questionamentos sobre o cinema, seu papel, a representação, o teatro e o próprio homem. PERSONA  não apresenta apenas uma história, instiga o espectador a decifrar suas imagens e seus significados implícitos. Mais do que um filme que trabalha a metalinguagem, é um questionamento sobre o ser humano e sua psiquê. PERSONA é o reconhecimento da nossa terrível solidão, nossa singularidade, nossa inabilidade de se comunicar com os outros. É uma confissão de nossos medos, do homem, do fracasso, da morte. É o drama do desespero, o terror indescritível da vida em todos os aspectos. PERSONA é uma ilusão estilhaçada, uma vitória sobre o silêncio.


quinta-feira, 20 de outubro de 2016

NOSSO FIEL TRAIDOR (Our Kind of Traitor) Inglaterra / França, 2016 – Direção Susanna White – elenco: Ewan McGregor, Stellan Skarsgard, Damian Lewis, Naomie Harris, Carlos Acosta, Radivoje Bukvic, Grigoriy Dobrigyn, Velibor Topic, Pawel Szajda, Marek Oravec, Dolya Gavanski, Mariya Fomina, Alec Utgoff, Mihhail Sibul, Jana Perez, Tony Tennant – 108 minutos

UM SEGREDO MORTAL!! 
UMA ESCOLHA IMPOSSÍVEL!! 
UM SUSPENSE ATRAENTE!!


Estreou nos cinemas de São Paulo em 06 de outubro de 2016, este empolgante thriller de suspense, com uma notável atuação de Ewan McGregor. Por mais de cinco décadas, o nome do escritor inglês John Le Carré é considerado sinônimo de romances de espionagem. Parte desse reconhecimento junto ao público se deve às inúmeras adaptações cinematográficas de suas obras. NOSSO FIEL TRAIDOR é a mais recente transposição de um livro do autor para o cinema, trazendo a história do professor universitário Perry (Ewan McGregor) e de sua esposa, a advogada Gail (Naomie Harris), envolvidos por acaso com o alto escalão da máfia russa e da espionagem britânica, mais precisamente o personagem de Stellan Skarsgard (Dima). Eles ganham várias oportunidades de saírem do caso perigoso, que não lhes diz respeito, mas continuam arriscando as suas vidas por uma família de desconhecidos russos porque, como diz um personagem, Perry é um homem bom, e Gail é uma mulher honesta. É isso que pessoas boas fazem: elas salvam outras em perigo. Se este enredo não tem tanto tempero quanto “O Espião Que Sabia Demais”, que rendeu um excepcional filme em 2011, também não faz feio no quesito entretenimento. O ritmo começa meio lento na parte inicial, mas a adrenalina sobe muito a partir da sequência seguinte em Paris, já colocando em funcionamento a negociação dos segredos de Dima, da qual Perry e Gail terão que participar à sua revelia.  


A essência da literatura de John Le Carré permanece intacta, com o apreço pelas intrigas de bastidores, e a tensão que estas emanam, em detrimento da ação grandiloquente. Estão lá as conversas secretas em carros, becos e salas fechadas, bem como os inimigos internos, os traidores etc. A diretora filma esses momentos com requinte visual, mesmo que sem a elegância austera de um “O Espião Que Sabia Demais” (2011). Alguns dos simbolismos do filme pecam pela literalidade – Perry e Gail subindo escadas rolantes separadas ressaltando o distanciamento na relação – mas, de modo geral, a direção do filme é correta.  A cineasta também simplifica o acesso do espectador às imagens. “O Espião Que Sabia Demais” (2011) e “O Homem Mais Procurado” impressionavam pela frieza implacável de sua estética, pela elegância no retrato da elite. Susanna White opta por um caminho radicalmente diferente. Ela usa o widescreen para filmar de perto os rostos, criando uma sensação de claustrofobia. Com uma fotografia contrastada e saturada, mergulha os personagens no escuro, cobrindo-os de flares, reflexos e filtros brilhosos. O mundo da espionagem é filmado com a estética de um cassino ou cabaré, algo inovador, embora não necessariamente coerente com a proposta. Vale o ingresso. 


quarta-feira, 19 de outubro de 2016

O SEGREDO INTIMO DE LOLA (Model Shop) França, 1969 – Direção Jacques Démy – elenco: Anouk Aimée, Gary Lockwood, Alexandra Hay, Tom Holland, Craig Littler, Severn Darden, Neil Elliot – 95 minutos.


O SEGREDO ÍNTIMO DE LOLA é uma sequência de LOLA, A FLOR PROIBIDA (1960), do mesmo diretor, Jacques Démy, e retoma a personagem de Anouk Aimée, a jovem e atraente Lola. Aqui ela interpreta uma “pin-up” francesa, modelo de fotografias eróticas que vai para Los Angeles (EUA) e se envolve com um arquiteto desempregado, Gary Lockwood (recém saído da nave Discovery, de Stanley Kubrick, em 2001 – UMA ODISSÉIA NO ESPAÇO). Emblemático e intrigante na carreira do diretor, O SEGREDO INTIMO DE LOLA, é um filme misterioso, mas cheio de charme, que apresenta uma visão desencantada de Los Angeles, a mitológica capital do cinema. Nele, o diretor também se mostra sensível às inquietações de sua época – contracultura, movimento hippie e Guerra do Vietnã. Jacques Démy é aclamado como um dos maiores nomes da cinematografia francesa, pertenceu à geração de diretores da Nouvelle Vague e com estes estabeleceu um intenso diálogo formal no início de sua carreira, mas acabou afastando-se de seus contemporâneos ao manter-se fiel aos temas que o motivaram a fazer cinema. 


Suas principais influências cinematográficas são o filme musical hollywoodiano e o cinema fantástico de Jean Cocteau e dos surrealistas. Aparentemente cheios de alegria, cores, música e romance, seus filmes, na verdade, são parábolas sofisticadas e carregadas de pessimismo. Suas obras mais conhecidas OS GUARDA-CHUVAS DO AMOR (1964), com o qual ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes; DUAS GAROTAS ROMÂNTICAS (1966);  A BAÍA DOS ANJOS (1962), narra a história de um tortuoso relacionamento entre um casal de viciados em jogo; PELE DE ASNO (1970), que evoca o cinema de Jean Cocteau; A LENDA DA FLAUTA MÁGICA (1971), investe novamente no imaginário dos contos de fadas. O filme conta com a participação de um ícone da música folk, o cantor Donovan, no papel do flautista que tenta salvar uma cidadezinha infestada pela Peste Negra; UM HOMEM EM ESTADO INTERESSANTE (1973), é uma insólita comédia com Catherine Deneuve e Marcello Mastroianni no papel de um instrutor de auto-escola que descobre estar esperando um bebê. O SEGREDO ÍNTIMO DE LOLA é um filme raríssimo, que merece ser descoberto!!



terça-feira, 18 de outubro de 2016

RESSURREIÇÃO (Risen) EUA, 2016 – Direção Kevin Reynolds – elenco: Joseph Fiennes, Tom Felton, Peter Firth, Cliff Curtis, Maria Botto, Luis Callejo, Antonio Gil, Andy Gathergood, Stewart Scudamore, Stephen Hagan, Joe Manjón, Richard Atwill, Mish Boyko, Jan Cornet, Pepe Lorente, Stephen Greif, Frida Cauchi – 107 minutos

A HISTÓRIA QUE MUDOU O MUNDO, DO PONTO DE VISTA DE UM INCRÉDULO!!



A história de Jesus Cristo já foi levada às telas inúmeras vezes, das mais variadas formas, alguns polêmicos, outros emblemáticos, basta lembrar “A Última Tentação de Cristo” (1988), de Martin Scorsese; “A Paixão de Cristo” (2004), de Mel Gibson; “Jesus Cristo Superstar” (1973); “Godspell – A Esperança” (1972); “Jesus de Nazaré” (1977), de Franco Zeffirelli; “O Rei dos Reis” (1961), de Nicholas Ray; “O Filho de Deus” (2014) etc. Agora o cineasta Kevin Reynolds resolve contar a história de um ângulo um pouco diferente com RESSURREIÇÃO (2016). Não entra nos detalhes do nascimento, pregações, crescimento, milagres e encontros com os apóstolos. A proposta aqui é contar a história do tribuno encarregado de desmentir a natureza divina de Jesus Cristo. Joseph Fiennes, conhecido pelos trabalhos em ELIZABETH (1998); “Shakespeare Apaixonado” (1998); LUTERO (2003); “Círculo de Fogo” (2001); HÉRCULES (2014), entre outros, realiza uma performance competente. Ele é Clavius, o tribuno, braço direito de Pôncio Pilatos (Peter Firth), governador da Judéia, escalado para supervisionar as ações romanas em torno de um certo nazareno que acabara de ser crucificado. Sua missão é a de fazer com que as profecias de Yeshua (Jesus Cristo), interpretado pelo neozelandês Cliff Curtis, não se cumpram (ou pelo menos não sejam divulgadas), como suas últimas palavras na cruz ou até mesmo sua ressurreição. É interessante a opção do filme por um ator com o tipo diferente do que geralmente Jesus é retratado, mas próximo do que seria na verdade. Nessa missão, o tribuno terá como principal ajudante o jovem legionário Lucius (Tom Felton, o Draco Malfoy de “Harry Potter”). Tentando afastar os boatos de que Cristo iria ressuscitar em três dias, os romanos decidem vigiar seu corpo, para provar que não tem nada de especial. No entanto, o corpo de Jesus acaba desaparecendo. 


O roteiro é simples, mas cheio de altos e baixos. Apesar de não haver espaço para grandes surpresas (nem poderia, por se tratar de uma história que já é explorada há mais de dois mil anos), o texto de Paul Aiello e do diretor traz formas criativas para relatar os eventos em torno da crucificação de Cristo, tanto que só ouvimos pela primeira vez seu nome com quase uma hora de projeção. A fotografia de Lorenzo Senatore traz uma visível inspiração no trabalho de Caleb Deschanel, no filme “A Paixão de Cristo”, de Mel Gibson. Realizando um bonito contraste entre tons mais vívidos quando está em planos abertos e cores mais sombrias em planos fechados, especialmente os que envolvem os soldados romanos na caça dos discípulos de Yeshua. Só de contar a história de um jeito diferente já faz de RESSURREIÇÃO uma experiência bastante satisfatória. Tem uma história universal, já muito explorada, mas o seu diretor se propôs a desenvolvê-la cinematograficamente destacando que sempre é possível recontar com criatividade, ainda que seja pouca. A diferença é que o filme faz uma releitura moderna sobre a história do retorno de Jesus e proporciona uma visão interessante da vida dos apóstolos pós-crucificação.


domingo, 16 de outubro de 2016

O LAR DAS CRIANÇAS PECULIARES (Miss Peregrine's Home for Peculiar Children) EUA, 2015 - Direção: Tim Burton - Elenco: Eva Green, Asa Butterfield, Samuel L. Jackson, Judi Dench, Rupert Everett, Terence Stamp, Allison Janney, Chris O’Dowd, Ella Purnell, Milo Parker, Finlay MacMillan, Hayden Keeler-Stone - 127 min


O novo filme de Tim Burton conta a história de um jovem de vida tediosa que é convidado a adentrar em um mundo fantástico, onde o diretor tem a chance de dar vazão à sua veia criativa em um ambiente sombrio e, ao mesmo tempo, bastante atraente. Fascinado por uma abordagem mais sombria, ele sempre buscou mesclá-la à fantasia não propriamente para assustar, mas de forma a criar universos onde o bem e o mal não sejam tão estereotipados assim. E nesta nova aventura não poderia ser diferente. Além do requinte visual que é a marca registrada do diretor, ele adapta um livro muito interessante que proporciona um roteiro engenhoso, sem os lapsos de ação que às vezes caracterizam sua obra. 


A trama do filme se concentra no herói adolescente Jake, interpretado por Asa Butterfield (em ótima atuação), o garoto de “A Invenção de Hugo Cabret” (2011), de Martin Scorsese. O jovem é muito apegado ao avô, que morre em circunstâncias misteriosas. Após, ele parte com o pai para Cairnholm, uma ilha do País de Gales, onde durante a Segunda Guerra Mundial o avô morou num orfanato. Lá ele encontra uma mansão abandonada, que abriga uma fenda temporal comandada pela srta. Peregrine (Eva Green), cuja missão é justamente cuidar das crianças peculiares do título. A srta. Peregrine é uma Ymbryne, que pode se transformar em ave e criar fendas temporais, paralisando o tempo numa data específica, no caso, 03 de setembro de 1943, dia em que uma bomba nazista explodiu o orfanato na calada da noite em plena Segunda Guerra Mundial. As crianças parecem um mostruário de tipos estranhos como Tim Burton gosta de inserir em sua ficção. Há a garota de cinco anos, fofinha, que é forte o bastante para levantar um carro; outra garota é tão leve que usa botas com chumbo para não sair flutuando; há ainda outra que coloca fogo em tudo que toca; um rapaz capaz de dar vida a bonecos e seres inanimados; uma menina de aparência adorável que esconde na nuca, por baixo dos cachos dourados, uma bocarra faminta; o garoto invisível é simplesmente notável; bem construído também são os gêmeos misteriosos que ocultam seu poder, que só é revelado em uma cena crucial. 


 “O Lar das Crianças Peculiares” não é o melhor filme do diretor, mas funciona muito bem a partir do momento em que o jovem entra na fenda. O espectador é então convidado a adentrar neste universo mágico e um tanto quanto estranho, onde o apuro na direção de arte, figurino e maquiagem saltam aos olhos da plateia. Tudo é bem aproveitado, explorando de forma convincente a profundidade do local filmado. Desde o início, o filme lembra muito o estilo de outras obras do diretor, como a sobriedade de “Edward Mãos de Tesoura” (1990), aliada ao humor debochado de “Os Fantasmas se Divertem” (1988) e o toque de heroísmo e fantasia de “Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas” (2003). Também há que se mencionar duas referências importantes: dos X-MEN vêm os dons de cada personagem, que serão fundamentais na hora de lutar contra o vilão e salvar todo mundo; e, de Harry Potter, vem o lado lúdico, um quê de literatura infanto-juvenil e vilania ligada à mágica. 


Quanto ao elenco ele seria perfeito se não tivesse dois deslizes: Samuel L. Jackson interpreta a si mesmo como o vilão Barron, que chama mais atenção pela cafonice de suas falas do que pelo seu grau de maldade; e o desperdício da Judi Dench (uma das grandes estrelas do cinema) vivendo um papel extremamente insignificante. O restante do elenco se apresenta bastante eficiente. A história rende idas e vindas no tempo e ganha um ritmo de ação quase alucinante no final. O confronto entre as crianças e os monstros é cheio de sacadas muito boas. O diretor constrói um conto de fadas permeado pelo macabro, em que principalmente os púberes se arriscam para garantir a integridade do direito de ser diferente, de sentir-se confortável com sua unicidade, e centraliza a atenção no garoto construindo um fascinante universo de fábula, onde os acontecimentos podem ser entendidos, numa chave metafórica, como alusão às agruras da Segunda Guerra Mundial e às suas marcas.  

sábado, 15 de outubro de 2016

MELODY – QUANDO BROTA O AMOR (Melody) Inglaterra, 1971 – Direção Waris Hussein – elenco: Mark Lester, Jack Wild, Tracy Hyde, Roy Kinnear, Kate Williams, Ken Jones, Colin Barrie, Billy Franks, Ashley Knight, Craig Marriott, William Vanderpuye – 103 minutos.


               UMA HISTÓRIA DE AMOR ENCANTADORA!!!!


               UMA FÁBULA DE AMOR IMPROVÁVEL!!!!


Uma fantasia romântica retratada sob o ponto de vista das crianças da história, onde os adultos são apenas personagens secundários. Daniel Lattimer (Mark Lester), de 12 anos, é amigo do problemático Ornshaw (Jack Wild). Certo dia, Daniel se apaixona por Melody Perkins (Tracy Hyde), também 12 anos, e anuncia a seus pais que quer casar, mas não no futuro, e sim no momento presente. Os pais e professores tentam dissuadi-lo, e Ornshaw também não aprova a idéia, pois sente que Melody o está distanciando do amigo. Posteriormente, porém, Ornshaw e os colegas de classe se determinam a ajudar o jovem casal. Eles se reúnem em um local distante, para casá-los, mas os pais os seguem e tentam impedi-los. As crianças distraem os pais, enquanto Melody e Daniel fogem em um carro-de-mão sobre os trilhos, com a ajuda de Ornshaw.


Produzido por David Puttnam (o produtor de “Carruagens de Fogo”) e o ator David Hemmings, de “Blow-Up – Depois Daquele Beijo”; “Barbarella”; “A Carga da Brigada Ligeira” (1968), o filme foi a estreia no cinema de Alan Parker, que escreveu o roteiro simples e tocante e depois se tornaria um bem sucedido diretor de cinema, dirigindo obras memoráveis como “O Expresso da Meia-Noite” (1978); “Pink Floyd - The Wall”; FAMA (1980); “Mississipi em Chamas” (1988) etc. Na época do seu lançamento nos cinemas foi um enorme sucesso, não só pela presença de Mark Lester, que já tinha encantado o mundo com o belíssímo OLIVER!, produção magnífica de 1968, que ganhou o Oscar de Melhor Filme do Ano, mas também pela extraordinária trilha sonora composta pelo grupo britânico Bee Gees, que estavam no auge, e contou ainda com uma colaboração da banda norte-americana Crosby, Stills, Nash & Young. Uma das mais cultuadas histórias de amor da década de 1970!!!! Um filme belo e inesquecível!!!! 




sexta-feira, 14 de outubro de 2016

A OVELHA NEGRA (Hrútar) Islândia, 2015 – Direção Grímur Hákonarson – elenco: Sìgurdur Sìgurjónsson, Theodór Júlíusson, Charlotte Boving, Jón Benónýsson, Gunnar Jónsson, Porleifur Einarsson, Sveinn Ólafur Gunnarsson, Ólafur Ólafsson – 93 min

UM INTERESSANTE E DELICADO ESTUDO SOBRE PERDA E SOBRE A QUAL UMA CIDADE SE SUSTENTA NA ISLÂNDIA  


Com imagens visualmente impressionantes e um elenco coeso no endurecimento necessário aos personagens, esta obra-prima do cinema islandês (raro de se ver aqui no Brasil) é um filme bastante curioso que prende a atenção não apenas pela realidade bem específica que apresenta, mas também pelos próprios elementos dramatúrgicos que entrega ao espectador em uma história difícil, mas de certa forma singela e tocante. A OVELHA NEGRA ganhou o prêmio principal da mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes 2015 e foi o candidato da Islândia na corrida ao Oscar 2016 na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, mas injustamente ficou de fora dos pré-selecionados. O filme foi exibido na 39ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. É um trabalho minimalista tanto no realismo quanto no absurdo da história inspirada em fatos reais de pastores locais, e demonstra um precioso equilíbrio entre melancolia e humor, rigor estético e singelo apelo emocional. 


Na Islândia, as ovelhas possuem um papel econômico e cultural de extrema importância para o seu povo. Lá existem mais ovelhas do que seres humanos e os animais são adorados pelos seus donos. O cineasta faz questão de situar o espectador neste contexto logo nos primeiros minutos do filme, apresentando-as como figuras quase divinas e, por este motivo, passíveis de um sentimento de devoção. Concursos do melhor cordeiro são realizados todo ano, causando imensa expectativa entre os fazendeiros. Após um destes torneios, um dos derrotados decide “investigar” o animal ganhador e logo desconfia que ele possui scrapie, uma perigosa e contagiosa doença que ataca o cérebro e a medula espinhal – uma espécie de “vaca louca das ovelhas”. A notícia logo se espalha, o alerta é dado e, com a doença confirmada, nada mais resta a não ser iniciar a quarentena do local. O que significa matar centenas de ovelhas, das mais diversas fazendas, para evitar que a contaminação se alastre. A rotina de todo o vilarejo é modificada. É neste cenário que vivem os irmãos Gummi (Sìgurdur Sìgurjónsson) e Kiddi (Theodór Júliússon), dois dos criadores mais experientes e respeitados do país e que, mesmo morando em fazendas vizinhas na mesma propriedade, não se falam há mais de quarenta anos. Ambos, cada qual a sua maneira, tentam salvar suas criações do sacrifício decretado pelas autoridades. O diretor usa sua experiência como documentarista para retratar o cotidiano dos criadores e seus rebanhos de ovelhas, enquanto mescla o registro com um tom de fábula. 


Através de longos planos, geralmente estáticos, de zooms que se aproximam lentamente para revelar detalhes de objetos ou das expressões de seus personagens, e de enquadramentos perfeitamente simétricos, Grímur Hákonarson – que cita o russo Andrei Tarkovsky e o finlandês Aki Kaurismäki como influências estéticas – capta este conflito fraterno, bem como as belíssimas paisagens nevadas da Islândia, mantendo também uma constante atmosfera cômica. O humor negro da trama, por vezes beirando o absurdo, se intensifica aos poucos, gerando momentos genuinamente divertidos, como as cenas com o cachorro que entrega os recados enviados entre os irmãos ou a sequência envolvendo a embriaguez de Kiddi e uma escavadeira. O diretor faz, então, com que seu foco na relação com os animais evolua para o da relação entre os seres humanos, transformando os elementos do universo particular de sua história em temas de apelo muito mais abrangentes: a mágoa, o arrependimento, a família, a fraternidade e a redenção. Pois se existe um momento em que estas características da humanidade afloram é no momento de união em torno de um interesse comum. Para Gummi e Kiddi, mais do que a atividade que os sustenta, perder suas ovelhas significa perder sua identidade, perder o único elo com sua história, seu passado. E acertar as contas com esse passado soa como algo inevitável. À medida que a trama caminha para seu desfecho, e os segredos congelados de outrora voltam à tona, os irmãos parecem regredir para tempos mais afetivos em suas memórias, culminando em uma simbólica volta ao útero, apresentada num dos mais belos planos do filme. Um filme universal que merece ser conferido!!!!