Content on this page requires a newer version of Adobe Flash Player.

Get Adobe Flash player

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

A OVELHA NEGRA (Hrútar) Islândia, 2015 – Direção Grímur Hákonarson – elenco: Sìgurdur Sìgurjónsson, Theodór Júlíusson, Charlotte Boving, Jón Benónýsson, Gunnar Jónsson, Porleifur Einarsson, Sveinn Ólafur Gunnarsson, Ólafur Ólafsson – 93 min

UM INTERESSANTE E DELICADO ESTUDO SOBRE PERDA E SOBRE A QUAL UMA CIDADE SE SUSTENTA NA ISLÂNDIA  


Com imagens visualmente impressionantes e um elenco coeso no endurecimento necessário aos personagens, esta obra-prima do cinema islandês (raro de se ver aqui no Brasil) é um filme bastante curioso que prende a atenção não apenas pela realidade bem específica que apresenta, mas também pelos próprios elementos dramatúrgicos que entrega ao espectador em uma história difícil, mas de certa forma singela e tocante. A OVELHA NEGRA ganhou o prêmio principal da mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes 2015 e foi o candidato da Islândia na corrida ao Oscar 2016 na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, mas injustamente ficou de fora dos pré-selecionados. O filme foi exibido na 39ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. É um trabalho minimalista tanto no realismo quanto no absurdo da história inspirada em fatos reais de pastores locais, e demonstra um precioso equilíbrio entre melancolia e humor, rigor estético e singelo apelo emocional. 


Na Islândia, as ovelhas possuem um papel econômico e cultural de extrema importância para o seu povo. Lá existem mais ovelhas do que seres humanos e os animais são adorados pelos seus donos. O cineasta faz questão de situar o espectador neste contexto logo nos primeiros minutos do filme, apresentando-as como figuras quase divinas e, por este motivo, passíveis de um sentimento de devoção. Concursos do melhor cordeiro são realizados todo ano, causando imensa expectativa entre os fazendeiros. Após um destes torneios, um dos derrotados decide “investigar” o animal ganhador e logo desconfia que ele possui scrapie, uma perigosa e contagiosa doença que ataca o cérebro e a medula espinhal – uma espécie de “vaca louca das ovelhas”. A notícia logo se espalha, o alerta é dado e, com a doença confirmada, nada mais resta a não ser iniciar a quarentena do local. O que significa matar centenas de ovelhas, das mais diversas fazendas, para evitar que a contaminação se alastre. A rotina de todo o vilarejo é modificada. É neste cenário que vivem os irmãos Gummi (Sìgurdur Sìgurjónsson) e Kiddi (Theodór Júliússon), dois dos criadores mais experientes e respeitados do país e que, mesmo morando em fazendas vizinhas na mesma propriedade, não se falam há mais de quarenta anos. Ambos, cada qual a sua maneira, tentam salvar suas criações do sacrifício decretado pelas autoridades. O diretor usa sua experiência como documentarista para retratar o cotidiano dos criadores e seus rebanhos de ovelhas, enquanto mescla o registro com um tom de fábula. 


Através de longos planos, geralmente estáticos, de zooms que se aproximam lentamente para revelar detalhes de objetos ou das expressões de seus personagens, e de enquadramentos perfeitamente simétricos, Grímur Hákonarson – que cita o russo Andrei Tarkovsky e o finlandês Aki Kaurismäki como influências estéticas – capta este conflito fraterno, bem como as belíssimas paisagens nevadas da Islândia, mantendo também uma constante atmosfera cômica. O humor negro da trama, por vezes beirando o absurdo, se intensifica aos poucos, gerando momentos genuinamente divertidos, como as cenas com o cachorro que entrega os recados enviados entre os irmãos ou a sequência envolvendo a embriaguez de Kiddi e uma escavadeira. O diretor faz, então, com que seu foco na relação com os animais evolua para o da relação entre os seres humanos, transformando os elementos do universo particular de sua história em temas de apelo muito mais abrangentes: a mágoa, o arrependimento, a família, a fraternidade e a redenção. Pois se existe um momento em que estas características da humanidade afloram é no momento de união em torno de um interesse comum. Para Gummi e Kiddi, mais do que a atividade que os sustenta, perder suas ovelhas significa perder sua identidade, perder o único elo com sua história, seu passado. E acertar as contas com esse passado soa como algo inevitável. À medida que a trama caminha para seu desfecho, e os segredos congelados de outrora voltam à tona, os irmãos parecem regredir para tempos mais afetivos em suas memórias, culminando em uma simbólica volta ao útero, apresentada num dos mais belos planos do filme. Um filme universal que merece ser conferido!!!!

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

ESTA RUA É NOSSA (The Boys of Paul Street – título inglês / A Pál-utcai Fiúk – título húngaro) Hungria/Inglaterra, 1969 – Direção de Zoltán Fábri – elenco: Anthony Kemp, William Burleigh, John Moulder-Brown, Robert Efford, Mark Colleano, Mari Töröcsik, Sándor Pécsi, László Kozák, Gary O’Brien, Paul Bartleft, Earl Younger, Julien Holdaway, Péter Delmár, György Vizi, Nyika Jancsó, Miklos Jancsó – 105 minutos.

                  
                UM FILME QUE TOCA FUNDO AOS CORAÇÕES!!!! 


Refilmagem clássica da mesma obra do húngaro Ferenc Molnár que, em 1934, forneceu a Frank Borzage a oportunidade de apresentar mais um dos filmes que ficaram antológicos na história do cinema de Hollywood: “No Greater Glory (HOMENS DE AMANHÃ). Esta nova versão foi produzida por húngaros, em 1969, como o co-produtor e co-roteirista Endre Bohem que durante vinte anos trabalhou e atuou em Hollywood, em colaboração com elementos do cinema inglês. A história passada em 1902, gira em torno de dois grupos de meninos das ruas de Budapeste que, em disputa pela “posse” de um terreno baldio, resolvem brincar de guerra, mas esta, mesmo simulada – e embora em proporções menores – tem o mesmo triste resultado de todas as guerras. A direção competente pertence ao mesmo famoso e engajado, mas civilizado e inteligente, Zoltán Fábri que realizou O CARROSSEL DO AMOR. E no elenco, no papel do jovem pastor, pela primeira vez vemos como ator aquele que possivelmente foi o maior cineasta da Hungria: Miklos Jancsó. Foi lançado nos cinemas daqui de São Paulo na longínqua data de 21 de fevereiro de 1970, um sábado, no extinto Cine República. As crianças adoraram e os adultos reviveram os melhores anos de suas vidas.



O filme foi lançado em DVD, sendo resgatado o seu título original: OS MENINOS DA RUA PAULO. Um filme que toca fundo aos corações!!!! Um filme que marcou época e toda uma geração!!!! Uma história simplesmente fantástica!!!! Merece ser redescoberto!!!! RECOMENDADO!!!!

domingo, 9 de outubro de 2016

A GRANDE APOSTA (The Big Short) EUA, 2015 – Direção Adam McKay – elenco: Christian Bale, Steve Carell, Ryan Gosling, Brad Pitt, John Magaro, Melissa Leo, Marisa Tomei, Hamish Linklater, Jeremy Strong – 130 minutos 


Este grande filme faz com que o espectador passe a admirar muito três pessoas: A primeira é Michael Lewis, que lançou em 2010 o livro homônimo que originou o filme. O escritor tem a capacidade invejável de pegar um assunto complexo como a bolha de crédito no mercado imobiliário norte-americano que provocou a crise de 2008 e transformá-lo num relato empolgante. A segunda é Adam McKay, o diretor que conseguiu quebrar a complexidade do tema introduzindo sacadas engraçadas, ancorado no recurso de fazer os personagens às vezes falarem ao espectador, olhando para a câmera. McKay demonstra imensa habilidade ao transformar a sopa de letrinhas do mercado imobiliário em um verdadeiro turbilhão de referências e críticas à cultura pop e ao american way of life, como poucas vezes se viu no cinema norte-americano nas últimas décadas. O diretor consegue fazer uso de um humor ácido, quase satírico, explorado com bastante dinamismo e irreverência, para tratar de um assunto muito sério, porém sem nunca ser enfadonho ou gratuito.  A terceira é Steve Carell, que interpreta o agente financeiro Mark Baum, um dos que apostam contra a estabilidade do mercado para tentar se dar bem na crise. O ator compõe um personagem histérico, “pilhado” e inesquecível. É o profissional com anos de trabalho cuja experiência não conseguiu lhe preparar para uma realidade como esta que se anuncia.


O elenco é magnífico. Além de Carell, destaque para Christian Bale que está soberbo como o gênio matemático esquisitão e incompreendido Michael Burry, no qual ninguém acredita, mas o primeiro a prever o colapso, consegue ver antes de todos o amanhã nebuloso que se aproxima. Passa os dias trancado em sua sala, analisando números enquanto escuta heavy metal no volume máximo. Ryan Gosling é o yuppie que segue a onda, indo de um lado a outro conforme a maré. Quase como um mestre de cerimônias, ele é a figura central que guia o olhar da audiência pelos meandros da discussão. Brad Pitt brilha como Ben Rickert, um investidor recluso e cheio de manias tirado de uma aposentadoria precoce por dois jovens corretores que esbarram na chance de apostar na bolha das hipotecas. Ele é o desiludido que entende melhor do que qualquer outro as engrenagens em ação, mas nem por isso parece inclinado a entrar no jogo. Brad Pitt é o coadjuvante de luxo do filme. Destaque para a trilha sonora rock e nostálgica com Gorillaz, Led Zeppelin e Nirvana. 


O grande pulo do gato de “A Grande Aposta” (The Big Short) é que, à medida que a situação como um todo cresce, o diretor passa a investir mais, e mais, em piadas e gags particulares, extremamente debochadas. Muitas delas são hilárias, como as participações de celebridades para explicar algum termo técnico demais que surge durante a trama – as de Margot Robbie e Selena Gomes são ótimas. É neste ponto que a verve cômica do cineasta vem à tona, usando o sarcasmo não apenas para ajudar a própria narrativa, mas também para cutucar o próprio modelo retratado. Não é à toa que, já na reta final, McKay, espalha o sutil som de risadas em determinadas cenas, como se o próprio contexto risse da armadilha criada para o cidadão comum – e, por que não?, para o próprio espectador. Contundente e incisivo, “A Grande Aposta” (The Big Short) é uma grande radiografia que investiga as razões – petulância, arrogância e desrespeito total ao mercado entre elas – que levaram ao cenário caótico revelado há mais de uma década. É um grande filme que tão bem retrata o modo de pensar do capitalismo selvagem. Ao mesmo tempo, é uma roda-gigante de citações pop nos sentidos mais diversos, muitas vezes usadas como mero deboche, até mesmo às próprias citações. Indiscutivelmente, um dos filmes mais revolucionários e provocadores da atualidade!!!! OBRIGATÓRIO 


sexta-feira, 7 de outubro de 2016

SPOTLIGHT – SEGREDOS REVELADOS (Spotlight) EUA, 2015 – Direção Tom McCarthy – elenco: Michael Keaton, Mark Ruffalo, Rachel McAdams, Liev Schreiber, John Slattery, Brian d’Arcy James, Stanley Tucci, Billy Crudup, Neal Huff, Jamey Sheridan, Elena Wohl, Gene Amoroso, Len Cariou – 128 min


“Spotlight” é o nome da equipe editorial do jornal Boston Globe (um dos mais importantes jornais dos EUA), responsável por reportagens especiais, do tipo em que os repórteres se debruçam meses, às vezes até ano na investigação de um caso. Grandes filmes já ressaltaram a importância da imprensa como o quarto poder de um Estado democrático, pilar essencial para que Legislativo, Executivo e Judiciário tenham suas ações acompanhadas de forma transparente pela sociedade. Esta obra se coloca entre esses grandes filmes reproduzindo uma história real que abalou as estruturas de outra sólida instituição, a Igreja Católica, em 2002, quando uma série de reportagens expôs crimes sexuais cometidos ao longo de décadas por padres da cidade norte-americana de Boston. Todos, claro, devidamente acobertados. Tema, aliás, que segue causando desconforto ao Vaticano. Quatro jornalistas da Spotlight abraçaram o caso: Michael Rezendes (Mark Ruffalo), Sacha Pfeiffer (Rachel McAdams), Matt Carroll (Brian d’Arcy James) e Walter V. Robinson (Michael Keaton), coordenador do time calejado em farejar histórias que muitos querem esconder. São profissionais que combinam experiência e múltiplos talentos, da azeitada rede de contatos ao ímpeto do bom detetive, da habilidade para interpretar e organizar dados ao sangue-frio para lidar com a pressão de gente muito poderosa. Há um quê de idealismo e responsabilidade moral que pautam esses repórteres. Eles sabem que estão diante de algo grande e importante, que se revela ainda maior na medida em que avançam nas investigações. O filme acompanha todo o processo jornalístico, com as vitórias e contradições, sem nunca transformar jornalistas em heróis, mostrando os dois lados do trabalho – tanto o do sucesso quanto o preço pessoal que pagam por se entregar dessa forma a essa missão.

Além dos quatro atores acima citados, o ótimo elenco tem ainda Stanley Tucci como advogado das vítimas; Billy Crudup; John Slattery, no papel de um veterano editor do Boston Globe; e Liev Schreiber, como editor-chefe do jornal, Marty Baron. Em 2001, uma de suas primeiras ações foi fazer o jornal voltar ao caso dos abusos sexuais cometidos por religiosos locais, assunto até então tratado sem maior profundidade por um somatório de razões: ações legais sob sigilo da justiça; vítimas receosas da exposição pública; acordos de indenização feitos à margem dos tribunais e, sobretudo, a enorme influência da Igreja Católica nas diferentes esferas do poder em Boston (a cidade do Estado de Massachusetts, leste dos EUA, tem expressiva herança cultural e religiosa dos imigrantes irlandeses). A comparação com “Todos os Homens do Presidente” (All The President’s Men - 1976), não é mera coincidência, é imediata, inevitável e justa. A direção do cineasta Tom McCarthy remete diretamente ao clássico sobre investigação jornalística justamente por tratar do tema da mesma forma seca e objetiva. Assim como no filme de Alan J. Pakula, que retratou o trabalho de repórteres do Washington Post na investigação do escândalo Watergate, a obra de McCarthy volta seus olhos para os esforços da equipe Spotlight na busca por informações que esclareçam um escândalo de proporções inimagináveis, especialmente em uma cidade em que a presença da Igreja é tão marcante. A busca incansável pela apuração dos fatos e os conflitos que essa busca gera são a matéria-prima de um filme tenso e hipnotizante.


SPOTLIGHT: SEGREDOS REVELADOS é um conto real que retrata o grande poder que a imprensa ainda tem de dar luz a fatos que nunca viriam a conhecimento público se dependêssemos da boa vontade das grandes instituições, não apenas da Igreja, mas do próprio Estado com seus interesses escusos. O filme também renova no cinema a figura romântica jornalista-herói, aquele tipo abnegado que encara a luta pela verdade, pela justiça e pelo bem comum como inabalável missão de vida. No fundo, o filme é sobre a disputa de dois tipos de fé: a religiosa e a da liberdade de expressão, embalada pela nostalgia de uma era em que a imprensa digital ainda não tinha tanta força. E ainda, funciona como uma contundente provocação para a reflexão sobre o papel da imprensa e a função do jornalista no mundo em que vivemos e no contexto em que ele se encontra inserido. Premiado como o Melhor Filme do Ano no Oscar 2016, é um filme que não tem medo de fazer grandes perguntas sobre o papel da imprensa no mundo contemporâneo.  

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

CAROL (Carol) Inglaterra / EUA / França / Austrália, 2015 – Direção Todd Haynes – elenco: Cate Blanchett, Rooney Mara, Sarah Paulson, Kyle Chandler, Jack Lacy, John Magaro, Cory Michel Smith – 118 minutos


UM GRANDE HINO AO AMOR EM UMA ÉPOCA PERSONIFICADA PELO PRECONCEITO


Forte e contundente, e, ao mesmo tempo, leve, sutil e atemporal, CAROL, do cineasta norte-americano Todd Haynes, conta uma belíssima história de paixão proibida. É baseado no romance (um livro de carga pessoal) de Patrícia Highsmith, autora conhecida por thrillers psicológicos, que preferiu assinar um pseudônimo (Claire Morgan), em 1952, devido ao tema polêmico para a época, como forma de desabafar seus sentimentos, compartilhar a solidão do seu desejo e extravasar a frustração de viver em  um mundo regido por leis masculinas. Com extraordinárias interpretações de Cate Blanchett (Carol Aird) e Rooney Mara (Therese Belivet), elas são duas mulheres apaixonadas lutando contra uma sociedade extremamente fechada, nos anos 1950. Além de uma sensível história de amor, o filme apresenta discussões que ainda são contemporâneas sobre a liberdade da mulher e direitos dos homossexuais, questões que ainda precisam ser muito analisadas e discutidas por nossa sociedade atrasada. Na verdade, é redutor afirmar que a história de Carol e Therese fala apenas sobre homossexualidade. Trata-se de um romance de costumes que confronta, de maneira mais ampla, as idiossincrasias de seu tempo – a persistência de uma retrógrada moral religiosa e familiar, acima de tudo. 


De forma impecável e brilhante, o filme acompanha o envolvimento dessas duas mulheres, que se conhecem por acaso em uma loja de departamentos, com um detalhe extra: a história é situada na Nova York dos anos 1950, com todos os preconceitos e ignorâncias da época em relação ao universo homossexual. Ou seja, um período onde sair do armário era considerado uma imoralidade absoluta, ainda mais se você tem uma filha, como é o caso da Carol. Em uma realidade tão difícil de ser quem você realmente é, o único meio de se proteger da fúria alheia é camuflar os sentimentos, de forma que apenas os mais perspicazes possam realmente decifrá-los. É este o mundo em que Carol vive, é este o mundo para o qual Therese é atraída. De forma delicada e envolvente, as duas atrizes brilham. Cate Blanchett impressiona, fazendo de Carol uma mulher brilhante, capaz de levar sua vida de forma independente enfrentando as adversidades de frente, mas ainda com força o suficiente para mudar quando sente que é preciso. Rooney Mara faz de Therese a personagem em desenvolvimento, que procura seu caminho ao longo do filme, mas é capaz de perceber o que quer e criar sua própria história. Graças em grande parte à forma como ela conduz a sua personagem, a cena final, sem diálogo algum, é algo de imenso impacto e valor. 


A partir de códigos visuais, o diretor, contempla a reciprocidade da relação. Therese usa roupas de cores fortes, que contrastam com os tons pastel dos cenários criados por Jesse Rosenthal e fotografados por Edward Lachman. É um forma de indicar que, para Carol, a jovem também representa novidade, revigoração e vida. Os figurinos de CAROL traz referências de looks reais dos anos 1950. A montagem é igualmente competente, sobretudo pelas transições entre ambientes diferentes – as imagens dos trens, logo no início, são exemplares nesse sentido. O roteiro de Phyllis Nagy se destaca pelo uso de elipses, principalmente no último ato, quando tudo se acelera rumo ao desfecho – os saltos na trama atendem ao desejo de quem, àquela altura, já está ansioso para saber como termina a história.  CAROL é um tapa na cara de quem ainda vê algo imoral na relação entre duas pessoas que se amam, não importa sexo, origem, etnia etc. Inteligentemente adaptado e com interpretações marcantes esse é um filme notável, que não só conta uma bela história de forma incrível, mas também levanta questões sociais cada vez mais relevantes. A narrativa é envolvente a ponto de enredar até quem já conhece o romance – seu final é célebre, apontado como um sopro de otimismo em meio ao conservadorismo vigente.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

O SENHOR DAS ILHAS (The Hawaiians) EUA, 1970 – Direção de Tom Gries – elenco: Charlton Heston, John Phillip Law, Geraldine Chaplin, Tina Chen, Mako, Miko Mayama, Alec McCowen, Don Knight – 134 minutos.

VEJAM UM LINDO PARAÍSO SE TRANSFORMAR EM UM INFERNO DE CHAMAS E CINZAS!! 



Charlton Heston, um dos maiores atores da Era de Ouro de Hollywood, que estrelou filmes inesquecíveis e imortais como BEN-HUR (1959), que lhe valeu o Oscar de Melhor Ator; OS DEZ MANDAMENTOS (1956); DA TERRA NASCEM OS HOMENS (1957); EL CID (1961); O PLANETA DOS MACACOS (1968); AEROPORTO 1975 (1974); OS HERÓIS NÃO SE ENTREGAM (1965); KHARTOUM (1966); A MARCA DA MALDADE (1958); O SENHOR DA GUERRA (1965); AGONIA E ÊXTASE (1965); O MAIOR ESPETÁCULO DA TERRA (1952); 55 DIAS EM PEQUIM (1963), etc, tem uma performance brilhante e extraordinária neste épico, que mistura drama e aventura, em impecável realização. O filme é uma adaptação da novela de James A. Michener. O SENHOR DAS ILHAS gira em torno de duas histórias: a ascensão ao poder político e comercial da segunda geração de imigrantes americanos, bem como a chegada ao Hawaí de imigrantes chineses e japoneses. Certa vez, um professor da Universidade da Flórida, em Gainesville, por volta de 1965-1966, disse que os Estados Unidos tinha sido profundamente envolvidos no imperialismo e que o Havaí era o exemplo, e isso está bem retratado no filme. Charlton Heston faz Whip, o homem que iniciou a indústria do abacaxi no Havaí. Separado de sua esposa (Geraldine Chaplin), ele tem uma concubina japonesa (Miko Mayama). Heston tem uma relação com alguns dos chineses no Havaí, que o ajuda a construir o seu império. A última parte do filme é bastante interessante para o historiador. Lida com o Whip se envolvendo com o destino da Rainha Liliuokalani (Naomi Stevens), do Havaí. A Rainha tem de ceder o lugar ao poder dos ricos norte-americanos e o Havaí é anexado pelos EUA. O filme possui algumas sequências antológicas, mas a de maior impacto é aquela demonstrada na luta forte contra a Hanseníase. É um filme épico e devastador!! Foi todo filmado no Havaí (Kaua`i, Maui e Moloka`i) e em Estúdios na Califórnia – EUA. Destaque para a belíssima trilha sonora de Henry Mancini. A estréia em Nova York – EUA aconteceu em 17 de junho de 1970; na Suécia ocorreu em 13 de janeiro de 1971 e no Brasil, em 25 de dezembro de 1970 – dia de Natal. Recebeu uma indicação ao Oscar 1971, na categoria de Melhor Figurino, para Bill Thomas. No elenco brilhante, além de Charlton Heston, temos duas presenças notáveis: Geraldine Chaplin e John Phillip Law. Outro grande mérito do filme é a magnífica fotografia de Lucien Ballard e Philip H. Lathrop.  


quinta-feira, 29 de setembro de 2016

TÔ RYCA – Brasil, 2016 – Direção Pedro Antônio – elenco: Samantha Schmütz, Katiuscia Canoro, Fabiana Karla, Marília Pera, Marcelo Adnet, Marcus Majella, Mauro Mendonça, Anderson Di Rizzi, Marcelo Melo, João Camargo, João Côrtes – 110 min



Apesar da crítica em geral falar muito mal do filme, ele merece ser visto, pois tem bons momentos de comicidade e vale sim o ingresso. E por mais que o argumento pareça desgastado, é com satisfação que se percebe mais uma vez em cena, dessa vez com vigor renovado e discurso em sintonia com o momento atual. A trama é sobre uma moça pobre, frentista carioca sem qualquer sorte na vida, que descobre ser a única herdeira de uma fortuna de trezentos milhões de reais; porém, para que possa colocar as mãos no dinheiro, precisa vencer o desafio de, no prazo de trinta dias, gastar 30 (trinta) milhões de reais, com a única condição de gastar tudo isso sem acumular nada em seu próprio nome. Ao invés de investir em um time esportivo ou gastar cada tostão de modo irresponsável, a protagonista decide contra-atacar partindo para uma tática quase inesperada: lançando-se na política como candidata à Prefeitura do Rio de Janeiro.

TÔ RYCA consegue ser relevante por conta da habilidade do seu elenco, que cria personagens diferenciados e muito hilários. A Selminha, a protagonista, muito bem interpretada por Samantha Schmütz, é desbocada e intempestiva, porém não é uma qualquer de ser enganada, e estará em seu coração a chave para sua virada. Luane, a melhor amiga, papel de Katiuscia Canoro, vizinha e colega de trabalho da Selminha, com quem divide a bomba do posto de gasolina e as tristezas do cotidiano sem qualquer conforto, é outra figura satisfatoriamente real, que não se deslumbra com qualquer coisa e prefere manter o pé no chão antes de se meter em alguma roubada. Fabiana Karla como a fiscal do fiscal está ótima. Marília Pera, brilhante como sempre, num de seus últimos papéis antes de morrer, faz a estilista Madame Claude em grande estilo. Mauro Mendonça está muito bem como o advogado inescrupuloso. O filme se empenha bem em fazer uma crítica política, por meio do papel de Marcelo Adnet, como o candidato a Prefeito, Falácio Fausto, político conservador e religioso, que faz discursos contra homossexuais, negros, prostitutas etc em prol da família. O filme não apela para escatologias e nem humor rasteiro e isso é uma qualidade.