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domingo, 4 de dezembro de 2016

O CAÇADOR E A RAINHA DO GELO (The Huntsman: Winter’s War) EUA, 2016 – Direção Cedric Nicolas-Troyan – elenco: Chris Hemsworth, Jessica Chastain, Charlize Theron, Emily Blunt, Sheridan Smith, Rob Brydon, Alexandra Roach, Sope Dirisu, Sam Hazeldine, Sophie Cookson, Sam Claflin, Conrad Khan – 114 minutos

JUREM OBEDIÊNCIA A ELA E ABDIQUEM DE QUALQUER FORMA DE AMOR 



Este novo filme fantasia é um misto de prequel e sequência de “Branca de Neve e o Caçador” (2012), com o mérito de um elenco poderoso e de grandes estrelas. Eu não diria que o primeiro foi melhor e nem que este supera o anterior. A verdade é que o texto aqui tem bastante coerência, com uma história que empolga desde o começo, meio e fim, dentro do objetivo de fantasiar. Aqui é apresentado a origem do Caçador e mostra que este filme é uma clara continuação. O roteiro equilibra os dois pontos e serve bem como princípio e continuidade da história anterior.   “Branca de Neve e o Caçador” foi um sucesso enorme de bilheteria quando chegou aos cinemas, arrecadando 396 milhões de dólares, por isso resolveram criar esta sequência no mesmo nível. Nos bastidores da produção ocorreram alguns reveses. Rupert Sanders, um homem casado, se envolveu romanticamente com a atriz Kristen Stewart, na época namorada de Robert Pattinson e, após grande polêmica, ela não pode estar no papel, fazendo com que a Branca de Neve não aparecesse na história, e o diretor foi substituído. Aí surgiu um problema: o caçador e a Branca de Neve eram protagonistas no longa anterior, como fazer uma continuação sem mostrar alguém tão importante? Essa pergunta “O Caçador e a Rainha do Gelo” não conseguiu responder. A Branca de Neve aqui teve que aparecer de costas e a trama foi mudada para o norte gelado. Mas nada disso prejudicou esta fantasia e o elenco só ajudou. Emily Blunt está muito à vontade, bem convincente num dúbio papel, como Freya, uma personagem que outrora radiante e cheia de sonhos, agora é uma mulher amargurada e vingativa; Jessica Chastain, tbém convence dentro do tom de heroína, no papel de Sara, uma exímia guerreira do exército da Rainha do Gelo e o interesse romântico de Eric, o caçador; Charlize Theron, está forte e poderosa num registro vilanesco, mostra porque é uma das melhores atrizes de sua geração; e Chris Hemsworth brilha lindamente como o Eric, o Caçador. Embora seja mais leve que a versão original de 2012, ainda assim não deixa de ser sombrio o suficiente e até um pouco violento. Mas é uma boa diversão!!!!



quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

O MESTRE DOS GÊNIOS (Genius) Inglaterra / EUA, 2016 – Direção Michael Grandage – elenco: Colin Firth, Jude Law, Nicole Kidman, Guy Pearce, Laura Linney, Dominic West, Vanessa Kirby, Gillian Hanna, Corey Johnson – 104 minutos

 COM UMA LINGUAGEM EQUACIONADA SABE EMOCIONAR O ESPECTADOR



É um filme ambicioso e que sabe emocionar, buscando fazer uma reflexão sobre a criação literária por meio da relação de um editor com um de seus autores. Passado nos Estados Unidos da América, entre as décadas de 1920 e 1930, relata a história de Max Perkins (Colin Firth) que trabalhou e se relacionou com o indomável Thomas Wolfe (brilhante atuação de Jude Law). Como funcionário da editora Scribner’s, em Nova York, Perkins foi responsável pela edição das obras de escritores como F. Scott Fitzgerald (O GRANDE GATSBY e SUAVE É A NOITE), interpretado por Guy Pearce, e Ernest Hemingway (POR QUEM OS SINOS DOBRAM e ADEUS ÀS ARMAS), por Dominic West.  Thomas Wolfe é um nome seminal da literatura norte-americana do início do Século XX, e teve uma trajetória de vida muito curta, pois faleceu aos 38 anos, vítima de pneumonia. Aqui em O MESTRE DOS GÊNIOS, o grande diretor teatral britânico Michael Grandage traz às telas um recorte da história do escritor através da adaptação do livro “Max Perkins: Editor of Genius”, de A. Scott Berg, biografia do renomado editor literário responsável por descobrir talentos acima citados, além do próprio Wolfe.


Geralmente nas cinebiografias voltadas a grandes nomes da literatura, a singularidade de um escritor está sempre atrelada ao seu estilo de vida um tanto conturbado, geralmente encontrando em seus reveses a inspiração para a concepção de um novo livro. No entanto, há um agente intermediário sempre esquecido, aquele que desempenha uma função definitiva para a forma que uma obra literária toma antes de chegar ao público: o editor. A memória pode nos enganar, mas O MESTRE DOS GÊNIOS deve ser o único filme em que um editor tem um nível de importância maior que a de um notável escritor. E esse personagem vem a ser uma figura real: o acima citado Maxwell Evarts Perkins, britânico que apostou em nomes fortes da literatura mundial. 


As interpretações de Jude Law e Colin Firth, o primeiro mais explosivo e o segundo mais estóico, criam uma interação muito cativante na tela. Junta-se isso ao ambiente vintage dos anos 1920 construído com muita sofisticação pelos envolvidos na produção e temos uma experiência interessantemente sentimentalista e otimista, cuja fluidez da direção soma-se para criar uma atmosfera sutilmente apaixonante. O MESTRE DOS GÊNIOS possui uma linguagem equacionada em moldes já padronizados, e sabe emocionar o espectador. Aos amantes da literatura, fica o convite de poder acompanhar o registro cinematográfico de diversos influentes escritores que são retratados em sua intimidade: Hemingway caracterizado como um sujeito grotesco e falastrão, Fitzgerald como um incerto e depressivo autor em eterna crise criativa e, claro, Thomas Wolfe como um excêntrico autor cuja vida pública de brilhantismo escondia conturbações da vida privada. Um filme que vale a pena ser visto!!!! 


quarta-feira, 30 de novembro de 2016

A BRUXA (The Witch: A New-England Folktale) EUA / Canadá / Inglaterra, 2015 – Direção Robert Eggers – elenco: Anya Taylor-Joy, Ralph Ineson, Kate Dickie, Harvey Scrimshaw, Ellie Grainger, Lucas Dawson, Julian Richings, Bathsheba Garnett, Sarah Stephens, Wahab Chaudhry, Axtun Henry Dube, Athan Conrad Dube, Viv Moore, Brandy Leary – 92 minutos

     UMA HISTÓRIA PERTURBADORA DE TOCAR O LADO SOMBRIO DA ALMA


Na primeira imagem de A BRUXA, a família principal é apresentada de costas. Um tribunal acusa-os de heresia, expulsando pai, mãe e cinco crianças da comunidade. Estamos em pleno século XVII, na Nova Inglaterra, onde qualquer desvio da religiosidade padrão é interpretado como grave ameaça ao funcionamento social. Ou seja, a bruxa do título pode ser tanto a figura concreta da feiticeira quanto a metáfora do elemento dissonante, perseguido pela comunidade, como se diz na expressão “caça às bruxas”. A exclusão do núcleo familiar desencadeia os eventos assustadores do filme. O diretor e roteirista estreante Robert Eggers faz um ótimo trabalho ao associar religiosidade e misticismo, cristianismo e natureza. Por um lado, esta família de moral rígida acredita nas forças malignas que vivem na floresta, por outro lado, carrega em si a culpa típica da moral cristã: se a colheita de milho não dá certo, julgam-se punidos por algum pecado; se alguém desaparece, acreditam num castigo divino etc. Um dos fatores mais interessantes da narrativa é sua plausibilidade, já que a paranoia não provém de sustos ou sombras à noite, e sim de um fator essencial, a culpabilidade que os personagens carregam consigo desde o nascimento.


A BRUXA é um manifesto político de afirmação do Feminino;  é uma alegoria uterina capaz de expressar, em sua viagem pelo pântano da fantasia, todos os traumas da submissão das mulheres. Atuações primorosas, sobretudo a de Anya Taylor-Joy, alternam espaço com um personagem para entrar na História das Trevas: Black Phillip, sobre o qual não se pode falar muito. Porém, o que mais rende solidez ao filme é a reflexão nas entrelinhas sobre a opressão das mulheres, ao longo dos séculos, caracterizada a partir de uma Nova Inglaterra (de cores lavadas) de excomunhões, paganismos e de feitiçarias do século XVII. O diretor caminha na referência de dois pensadores cinematográficos da Fé e do ardor das fêmeas – o Ingmar Bergman de A FONTE DA DONZELA (1960) e o Carl Theodor Dreyer de A PALAVRA (1955) – para fazer uma metafísica da culpa e do revanchismo.


Há inspirações nos contos dos Irmãos Grimm, como Chapeuzinho Vermelho, João e Maria, até uma Branca de Neve bem sutil. Além dos Grimm, há referências a lobisomem ou mesmo Adão e Eva e a maçã do pecado original que separou o homem das grandes verdades do conhecimento da natureza, como o mistério acerca dos animais, há de exemplo os corvos e o bode ‘Black Philip’. Outra analogia muito interessante é com os sete pecados capitais, parecendo que em determinado momento cada membro da família isolada é testado por algum dos pecados, que se volta contra eles mesmos e uns contra os outros, como uma grande crítica à fé cega amparada numa religião castradora em cima do pecado e da culpa, muito bem representado na ótima empostação vocal do patriarca interpretado por Ralph Ineson. E é neste sentido que o feminismo da personagem central da filha mais velha, pelos olhos da qual tudo se passa, começa a se fazer valer como um ponto de virada, e as suspeitas e acusações faz com que cada um mostre suas verdadeiras faces num grande pesadelo: Por esses elementos, o filme traz referências de três filmes extraordinários: AS BRUXAS DE SALEM, de Nicholas Hytner (1996), mas molda sua estrutura bebendo também de A FITA BRANCA, de Michael Haneke (2009) e O ILUMINADO, de Stanley Kubrick (1980). A BRUXA é um filme de terror menos preocupado com sustos do que com a ideia de explorar a escuridão dos indivíduos que habitam seu mundo. Durante a maior parte da projeção, o “terror” que define o gênero surge não em forma de espíritos malignos, zumbis devoradores de cérebro ou mesmo de bruxas literais, mas de dentro de seus personagens, manifestando-se na forma de estupidez, superstições e fundamentalismo religioso.UM FILME OBRIGATÓRIO, ASSUSTADOR E QUE MEXE COM O LADO SOMBRIO DA ALMA!!!!


segunda-feira, 28 de novembro de 2016

MEU AMIGO, O DRAGÃO (Pete’s Dragon) EUA, 2016 – Direção David Lowery – elenco: Bryce Dallas Howard, Robert Redford, Oakes Fegley, Oona Laurence, Karl Urban, Wes Bentley, Marcus Henderson, Aaron Jackson, Isiah Whitlock Jr., Steve Barr, Phil Grieve, Keagan Carr Fransch, Jade Valour, Francis Biggs, Levi Alexander – 103 minutos

                   UM FILME QUE É QUASE UM MITO SOBRE ADOÇÃO!!!!


Nesta nova versão de “Meu Amigo, o Dragão” (Pete’s Dragon) - pois existe uma versão realizada em 1977 e desconhecida da geração atual – o diretor investiu mais na simbiose entre o garoto e o dragão, no sentido de um apoiar e se preocupar com o outro. Algo parecido com o sentimento existente entre um dono e seu animal de estimação querido, ainda mais porque este Elliot é mais uma espécie de “dragão-cachorro” – no comportamento – do que o gaiato brincalhão da versão original de 1977. Sem a estrutura de musical, nenhuma das canções originais escritas no filme anterior – entre elas, a mais conhecida é “It’s Not Easy”, que foi inclusive gravada em português num dueto por Roberto Carlos e a Turma do Balão Mágico intitulada “É Tão Lindo”, em 1984 – por Al Kasha, Joel Hirschhom e Irwin Kostal, indicados ao Oscar pelo trabalho, permanece na produção de 2016. No entanto, a opção pelo folk na trilha sonora do novo filme, com direito a Leonard Cohen, The Lumineers e música folclórica, integra-se bem ao novo cenário, já que sai a cidade litorânea de uma Nova Inglaterra de época e entra um vilarejo que parece cravado no nordeste norte-americano.  


Levando a sério o sentido de “remake”, David Lowery transforma o ingênuo musical de quase quarenta anos, de estética e narrativa típicas de cartoon, em uma fábula estruturada dentro de um conto mais realista para o Século XXI. Ou melhor, uma fantasia para tempos mais cínicos, onde só a magia dos super-heróis parece conquistar a geração atual, mas que prefere se dedicar às relações humanas e à dinâmica de amizade spielbergiana entre Pete (Oakes Fegley) e seu raro amigo animal do que demonstrações de pirotecnias visuais. Ao contrário, elas são usadas a favor da narrativa, como na sequência inicial do acidente em que o menino, então com quatro anos (na pele do expressivo Levi Alexander), fica órfão: o slow motion só acentua o caráter de aventura que os pais prometem a ele, embora a tragédia fique evidente no lirismo do recurso. Perdido na floresta, o garoto é logo protegido por um dragão, ao qual chama de Elliot, crescendo junto com ele naquele habitat não mais hostil. 

“Meu Amigo, o Dragão” é quase um mito sobre adoção e conquista pela sua delicadeza em tocar em assuntos como amizade, família, meio ambiente (com uma linda mensagem de preservação à natureza) e ganância. O filme consegue realizar momentos inspiradíssimos, entendendo que a fantasia e a aventura não estão apenas nos grandes acontecimentos e nos efeitos especiais, mas sim na construção de um momento que foge do real. E nesse resgate a um espírito de aventura, o filme também é capaz de reencontrar a sensibilidade, não tem medo de apostar num afeto que está sempre presente. É também sobre o reencontro familiar, e o Dragão é uma espécie de tutor para o menino, protegendo-o debaixo de suas asas. O filme revela toda inocência seja no seu clima despretensioso de aventura quanto na sua moral da história. Consegue ainda, resgatar um espírito quase perdido, uma sensação de aventura única e ao mesmo tempo em que é fantástica parece que só poderia acontecer ali, quase como um fato cotidiano. Encantador e tocante, vale o ingresso!!!!



sexta-feira, 25 de novembro de 2016

WARCRAFT – O PRIMEIRO ENCONTRO DE DOIS MUNDOS (Warcraft) EUA / Canadá, 2016 – Direção Duncan Jones – elenco: Travis Fimmel, Paula Patton, Ben Foster, Dominic Cooper, Ruth Negga, Ben Schnetzer, Toby Kebbell, Daniel Wu, Clancy Brown, Anna Galvin, Robert Kazinsky, Callum Keith Rennie, Glenn Close, Burkely Durffield, Ryan Robbins, Michael Adamthwaite, Callan Mulvey, Tommy Rieder, Dylan Schombing, Christian Sloan, Mackenzie Gray, Wesley MacInnes – 123 min 


     UM FILME QUE USA REALIDADE VIRTUAL PARA APONTAR O FUTURO



São vários os exemplos de games adaptados para o cinema que não passam de péssimas incursões. “Warcraft” veio com a missão de mudar esse histórico. O diretor Duncan Jones além de ser fã do jogo possui uma respeitável trajetória cinematográfica. Coube a ele a missão de realizar essa fantasia épica com grande responsabilidade e competência. Outro importante desafio para o cineasta era fazer um filme atraente para gamers e não-gamers. Diferentemente de “O Senhor dos Anéis”, aqui não há os humanos como heróis e os orcs como monstros. Existem heróis e vilões dos dois lados. Visualmente o filme impressiona muito, com cenas de batalhas espetaculares, com direito a tomadas aéreas de vilas invadidas por orcs. O roteiro se passa em um universo no qual os orcs estão prestes a invadir o mundo dos humanos, atravessando, para isso, um portal mágico invocado pelo maligno Gul’dan (Daniel Wu), e cuja “energia” surge apropriadamente no verde-esmeralda que, ao lado do roxo, é classicamente associado à ideia de morte e destruição. Para conter a ameaça, o rei Llane (Dominic Cooper) solicita a ajuda do guerreiro Lothar (Travis Fimmel), que, ao lado do jovem aprendiz de mago Khadgar (Ben Schnetzer), recorre ao Guardião (Ben Foster) por proteção. Enquanto isso, o orc Durotan (Toby Kebbell) questiona a liderança destrutiva de Gul’dan, usando a mestiça “orquisa” Garona (Paula Patton) como ponte para tentar estabelecer um pacto com os humanos. WARCRAFT propõe-se como experiência radical. Muitos podem até detestar, mas penetra num universo hiper-realista e detalhado que tem servido como fonte de experimentação para artistas visuais de ponta. Com uma trama básica, o filme cria diferentes pontos de vista para o espectador. Vale o ingresso!!!!



quarta-feira, 23 de novembro de 2016

CANÇÃO DO SOL DA MEIA-NOITE (Song of Norway) EUA, 1970 – Direção Andrew L. Stone – elenco: Toralv Maurstad, Florence Henderson, Frank Porretta, Christina Schollin, Harry Secombe, Oskar Homolka, Robert Morley, Edward G. Robinson, Henry Gilbert, Richard Wordsworth, Elizabeth Larner, Frederick Jaeger, Bernard Archard – 138 min

   UMA BELA HISTÓRIA DE AMOR NOS CENÁRIOS MAIS LINDOS DO MUNDO!!!!


Este musical conta a vida de três amigos de infância: Edvard Grieg (Toralv Maurstad), Nina Grieg (Florence Handerson) e Rikard Nordraak (Frank Porretta). Rikard é um poeta, Edvard um compositor, e Nina tem a mais bela voz da região.  Edvard Grieg vive na pobreza após se graduar no conservatório de música, e escandaliza a sua família quando casa com sua prima Nina. Ele desenvolve um romance com sua amiga Therese Berg (Christina Schollin), uma rica mulher que faz um trato com o seu influente pai - em troca do término do romance, ele deverá arranjar um concerto para Grieg em Estocolmo. Quando finalmente viaja para Roma, é que ele começa a ter seus dotes como compositor verdadeiramente apreciados. Mas o romance, na verdade, nunca foi completamente terminado, e o auto-sacrifício da apaixonada Nina é sempre superado pelos ricos e grandes presentes de Therese. Será que algum dia esse casamento que começou com um escândalo familiar, conseguirá realmente virar um verdadeiro amor? O filme vale pelo elenco que embala uma história bonita, pelas paisagens lindíssimas e deslumbrantes da Noruega e pelos inesquecíveis números musicais. Um filme raro que marcou época!!!! 



sexta-feira, 18 de novembro de 2016

AS MARAVILHAS (Le Meraviglie) Itália / Suíça / Alemanha, 2014 – Direção Alice Rohrwacher – elenco: Sam Louwyck, Alba Rohrwacher, Maria Alexandra Lungu, Monica Bellucci, Sabine Timoteo, Luis Huilca, Agnese Graziani, André Hennicke, Eva Lea Pace Morrow, Maris Stella Morrow, Carlo Tamarti, Margarete Tiesel – 110 minutos

                    NADA PERMANECERÁ IGUAL AO FIM DESSE VERÃO


Povoado de elementos autobiográficos, AS MARAVILHAS, o terceiro filme da cineasta italiana, Alice Rohrwacher, é uma obra de inegável relevância, sobre a passagem da infância para a adolescência, narrado do ponto de vista essencialmente feminino. E que encontra beleza na forma simples com que consegue transformar todos esses elementos em bom cinema. Todo rodado na região onde a diretora cresceu – interior da Itália, entre a Umbria e a Toscana – e tem como protagonistas uma família “duplo sangue” (mãe italiana, pai alemão), que se sustenta da criação de abelhas e produção de mel. Aqui a infância tem um ar adocicado para as filhas mais novas, mas para a primogênita Gelsomina (interpretada com perfeição por Maria Alexandra Lungu), que vive no campo com sua numerosa família, a conversa é outra. 


Ela age e é reconhecida como a cabeça da família, aquela que coordena e é responsável por todas as tarefas que os pais delegam. A vida no campo não tem nada a ver com férias, como o pai aponta mais de uma vez. O trabalho é árduo e a ajuda é necessária, mas a menina parece sobrecarregada com obrigações e expectativas em cima dela. Muito disso, se deve à figura do pai que fala três línguas diferentes, às vezes em uma mesma sequência. Sam Louwyck interpreta o pai e passa bem o sentimento de sonhador e ao mesmo tempo tímido, mas que tem orgulho da família e de seu mel. Ele protagoniza boas cenas com Alba Rohrwacher (irmã da diretora e que faz a mãe das meninas) e Sabine Timoteo (a cunhada agregada) na clássica dinâmica de família italiana confusa e barulhenta.  A relação entre pai e filha é muito próxima, e, mesmo com arroubos de gritos e brigas, ele não consegue esconder a predileção que tem por ela com um presente inusitado. É quando Gelsomina vê uma esperança para si e sua família com a chegada de um programa de televisão que busca premiar os principais agricultores do interior. Há um toque felliniano quando entra em cena a grande diva italiana, Monica Bellucci, fazendo a fada madrinha do programa televisivo e também na personagem principal, Gelsomina – o mesmo nome da personagem de Giulieta Masina, em “A Estrada da Vida” (1954). Uma grande homenagem a Federico Fellini. É importante verificar como a cineasta impressiona com a capacidade de colocar o espectador como um acompanhante do dia-a-dia de Gelsomina. 


Ao escolher tocar a lente na jovem Maria Alexandra Lungu, a diretora explora cenas que guardam bastante proximidade com pinturas renascentistas, tal como “Moça com Brinco de Pérola”, de Vermeer. Isso condiz com o cenário cheio de afazeres que ela tem e o espaço para certo encantamento encapsulado na presilha de cabelo que ela ganha da apresentadora de televisão, que a renomada atriz Monica Bellucci faz com suavidade e leveza, possibilitando fazer referência ao “Nascimento de Vênus”, de Botticelli. A vida de Gelsomina, e de sua família, sofre uma mudança radical com a chegada do garoto alemão Martin, menino problemático que faz parte de um programa do governo de reabilitação, e que é de certa forma adotado pelo patriarca e passa a trabalhar na casa. Gelsomina e Martin desenvolvem uma relação de cumplicidade que é focada totalmente no silêncio, uma vez que o jovem praticamente não fala. O pai de Gelsomina se beneficia duplamente com a adoção de Martin, pois além de receber uma quantia por cuidar do menino, este acaba se tornando a materialização das projeções que tanto possuía para um descendente masculino.   A capacidade da cineasta de produzir um sentimento de memória, recorrendo a elementos bastante sensoriais, é o que torna a experiência desse pequeno filme bastante especial. A escolha por filmar em película, na hoje raríssima 16 milímetros, que acentua os grãos da imagem projetada na tela grande, só reforça a sensação de memória. AS MARAVILHAS é um filme simples, porém profundo e recheado de simbologias e sutilezas; e rico em imagens de beleza naturalista. Foi premiado com o Grande Prêmio do Júri em 2014 no Festival de Cannes.