Content on this page requires a newer version of Adobe Flash Player.

Get Adobe Flash player

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

ROMAN J. ISRAEL, ESQ. (Roman J. Israel, Esq.) EUA, 2017 – Direção Dan Gilroy – elenco: Denzel Washington, Colin Farrell, Carmen Ejogo, Lynda Gravatt, Amanda Warren, Hugo Armstrong, Sam Gilroy, Tony Plana, DeRon Horton, Amari Cheatom, Niles Fitch, Elisa Perry, Jocelyn Ayanna – 122 minutos 

O novo filme de Denzel Washington está dividindo opiniões. Alguns consideram esse um dos melhores trabalhos do ator, outros criticaram a duração e a performe dele tida como apenas mediana. Pelo sim ou pelo ano, o filme é uma obra que merece admiração e questionamentos. A seguir o que estão falando do filme:    


Dan Gilroy, responsável pelo excelente “O Abutre”, dirige e roteiriza o filme e emprega uma grande parte do tempo de projeção para estabelecer a personalidade de Roman. É nesse mais de um terço de filme (diria talvez até a metade) que não é particularmente curto, que Denzel Washington tem seu espaço para brilhar nessa delicada construção de personagem que começa afastado de tudo e de todos, praticamente uma ilha em meio ao selvagem mundo jurídico moderno, mas que, aos poucos, vai abrindo espaço para a vida como ela é e não como ele acha que deveria ser. Ele começa um hesitante relacionamento platônico com a advogada ativista de direitos civis Maya Alston (Carmen Ejogo) e mantém uma contenciosa amizade com George Pierce (Colin Farrell) ao longo de quase uma hora de projeção que não nos deixa sequer entrever o objetivo de Gilroy além de permitir uma performance diferente e oscarizável para Denzel Washington. (Ritter Fan – Plano Critico) 


Tentando continuar no mesmo ritmo de “O Abutre”, “Roman J.Israel, ESQ” tem pontos parecidos com o filme citado. A trama envolve uma profissão de peso na sociedade, no caso a de advogado, é algo atual e coloca Denzel Washington em um dos grandes papeis de sua carreira já brilhante. (Victor Martins – Cinematologia)

É um filme refém da fórmula, mas Gilroy consegue conferir um “algo a mais”. Ele dá mais vida e complexidade do que se espera. (David Edelstein, The New York Times)


Roman é um personagem fantástico. O desempenho de Denzel Washington é um dos mais ousados e interessantes da sua carreira. (Owen Gleiberman – Variety)

O filme consegue dimensionar o ímpeto apaixonado do seu protagonista, mas na medida em que ele começa a se desiludir com as coisas a história acaba seguindo o mesmo caminho (Eric Kohn – IndieWire)

É uma ótima oportunidade para Denzel Washington exercitar um tipo diferente de personagem. (Edward Douglas – Den of Geek)

Denzel Washington (indicado ao Oscar 2018 na categoria Melhor Ator do Ano) apresenta outra sólida interpretação em sua carreira e o filme se compromete com caminhos bastante contundentes. 




sábado, 17 de fevereiro de 2018

THE SQUARE: A ARTE DA DISCÓRDIA (The Square) Suécia / Alemanha / França / Dinamarca, 2017 – Direção Robin Östlund – elenco: Claes Bang, Elisabeth Moss, Dominic West, Terry Notary, Christopher Laesso, Elijandro Edouard, Annica Liljeblad, Jonas Dahlbom, Copos Pardaliam, John Nordling – 140 minutos

O FILME DE ARTE MAIS DEVASTADOR, PROVOCA O PÚBLICO ATRAVÉS DO DESCONFORTO


Provável e quase certo vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro este ano, é sem sombra de dúvida um dos melhores filmes europeus da temporada. O filme apresenta personagens que carregam uma dicotomia entre aparentar algo e o que essas pessoas são quando colocadas no limite. Essa dicotomia reflete no espectador, que fica dividido diante das ações dos personagens; é muito provável que você não saiba o que pensar diante de certas situações apresentadas no filme. Enquanto Christian não é posto em uma situação limite, ele é a tradução do modelo de homem moderno, meio intelectual, meio desconstruído, o sujeito do século XXI. Quando está no limite, ele cede aos instintos, agindo de forma nem um pouco civilizada. Contudo, ele sente remorso por isso e tenta se corrigir – ou melhor, tenta manter a capa. Se terminar celebrado no Oscar 2018 depois de ter ganho a Palma de Ouro do Festival de Cannes, “The Square” se sacramentará como um filme muito emblemático dos últimos tempos e um dos mais importantes deste Século. 

No filme, o atormentado protagonista é Christian (Claes Bang), recém-nomeado curador do Museu de Arte Contemporânea de Estocolmo. Organizando a primeira grande exposição da instituição em sua gestão, ele investe na obra que dá título ao filme: um quadrado luminoso instalado no chão e dentro do qual todas as pessoas devem se tratar de maneira igualitária e gentil. Porém, por mais que insista em explicar sua crença na necessidade do comportamento ético, Christian tem suas convicções testadas quando seu celular é roubado – e, depois de localizar o aparelho em um prédio numa vizinhança pobre, ele decide colocar um bilhete em todos os apartamentos do edifício exigindo que o “ladrão” devolva o aparelho, o que dá início a uma série de incidentes que, associados ao estresse do trabalho no museu, tornam a vida do sujeito inesperadamente instável. 

Este grande filme trabalha com o inusitado, com a batalha interna e externa sobre o comportamento ético da elite moderna e seu interior mais “animalesco” e vingativo. E o principal capricho do roteiro está na sua habilidade em manter este humor em alta e crescente mesmo com a longa projeção, culminando na cena do jantar onde esta tal elite é posta cara-a-cara com o animalesco que lhes é apontado como a arte visceral, mas num plano-sequência aterrador, se transformar no próprio terror dos mesmos. Esta sequência, que é a mais relevante para o Brasil de hoje, apresenta uma performance arrasadora do artista Oleg (Terry Notary) durante um jantar reunindo os financiadores do museu. A performance provoca os convidados. Ela vai testando os limites deles e da própria arte. É a sequência que melhor demonstra que, sim, arte tem limite – ao contrário do que deu a entender os debates sobre arte no ano de 2017 no Brasil, cujo exemplo paradigma foi o envolvendo o Queermuseu. 


UMA NARRATIVA QUE NÃO SE CONTENTA EM EXPOR AS CONTRADIÇÕES DO PENSAMENTO DOMINANTE NOS MEIOS ARTÍSTICOS.

Abordando temáticas presentes na maioria dos debates contemporâneos, a acidez tragicômica do filme não se preocupa em ser reconfortante. A obra é construída para desconstruir conceitos e valores, expondo a podridão humana e social onde quer que possa estar. Esta obra-prima não é um filme feito para agradar, mas para expor a podridão humana e social onde quer que ela possa estar. Obrigatório!!



sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

EU, TONYA (I, Tonya) EUA, 2017 – Direção Craig Gillespie – elenco: Margot Robbie, Sebastian Stan, Allison Janney, Julianne Nicholson, Paul Walter Hauser, Caitlin Carver, Maizie Smith, McKenna Grace, Cory Chapman – 120 minutos

TRATA-SE DE UMA DENÚNCIA. MAS CONDUZIDA DE FORMA TÃO DISTANTE DO LUGAR COMUM. 

Tonya Harding dominava a arte da patinação no gelo. Entretanto, acabou figurando com maior destaque nas manchetes por algo totalmente diferente. De forma absurda, trágica e hilária, esta mulher se tornou o centro do maior escândalo na história do esporte nos Estados Unidos.

               UMA COMÉDIA TRÁGICA, OU UMA TRAGÉDIA CÔMICA

Cabe destacar o ótimo desempenho de Margot Robbie, jovem atriz australiana, de 27 anos, que com apenas dois trabalhos - “O Lobo de Wall Street e Esquadrão Suicida” – foi capaz de tomar Hollywood de assalto. “Eu, Tonya” guarda sua melhor atuação até o momento, abrindo espaço para a atriz mostrar tudo o que sabe, num show só seu, onde todos os outros estão atrás (outro fato inédito em sua carreira). A atriz é posta à prova, num xeque-mate decisório e que felizmente guarda ponto para a atriz. Ela mostra que é um talento, deixando a promessa no passado. 
  O OLHAR VOLTADO PARA A AMÉRICA QUE POUCOS QUEREM VER

O filme foca na infância atabalhoada da patinadora, seu complexo e quase indecifrável relacionamento com uma mãe opressora, sua paixão pelos treinos de patins (sua única atividade), seu casamento abusivo e o preconceito da associação e juízes de patinação no gelo em relação à mulher interiorana e nada elitizada. Algo que coloca essa personagem em destaque pela diferenciação em relação ao comportamento de vida de outras atletas. A beleza que conduz o filme está justamente em não colocar sua protagonista num pedestal, mas em tratá-la como um elemento narrativo.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

EU, DANIEL BLAKE (I, Daniel Blake) Inglaterra / França / Bélgica, 2016 – Direção Ken Loach – elenco: Dave Johns, Hayley Squires, Briana Shann, Dylan McKiernan, Dave Turner, Kate Rutter, Steven Richens, Stephen Clegg, Malcolm Shields – 100 min.  

                              UM RETRATO DO MUNDO QUE DEU ERRADO

Em uma narrativa seca e quase documental, o protagonista-título luta contra um sistema brutal para manter sua dignidade. O roteiro de Paul Laverty exibe um otimismo que não deixa de ser reconfortante ao apontar que, fora da lógica do capitalismo selvagem e impiedoso, há geralmente a solidariedade entre aqueles que reconhecem estar em situações muito próximas umas das outras.

EM UM MUNDO MATERIALISTA, O NOVO FILME DE KEN LOACH FALA EM DIGNIDADE

O mais triste deste filme é a certeza de que por mais que seja uma ficção, o diretor está falando de uma realidade muito próxima de qualquer pessoa. Grande vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes.


O FILME POSSUI A FORÇA DE INDIGNAÇÃO QUE EXPRESSA O LAMENTÁVEL ESTADO DO MUNDO ATUAL

O grande mérito de Ken Loach neste seu novo filme é evidenciar o cinismo existente por trás do sistema, de forma a ofertar ajuda mas torná-la tão complicada de ser atingida que, na prática, torna-se inviável. UM FILME OBRIGATÓRIO!!



domingo, 11 de fevereiro de 2018

A FORMA DA ÁGUA (The Shape of Water) EUA, 2017 – Direção Guillermo Del Toro – elenco: Sally Hawkins, Octavia Spencer, Doug Jones, Richard Jenkins, Michael Shannon, Michael Stuhlbarg, David Hewlett, Nigel Bennett, Morgan Kelly, Nick Searcy, Stewart Arnott, Lauren Lee Smith, Martin Roach – 123 min.
  UMA FANTASIA DE EXCELÊNCIA, UM BELO CONTAR DE HISTÓRIAS ATEMPORAL

Ambientado em 1962, o filme conta a história de Elisa (Sally Hawkins), uma mulher muda, funcionária da equipe de limpeza de um secreto laboratório de pesquisas, que se apaixona por uma criatura aquática que está sendo estudada no local. Ambientado na Guerra Fria, o filme fala do abuso de poder, machismo, homofobia e amizade. “A Forma da Água” é, acima de tudo, uma história de amor e um conto de fadas. Assim como o filme propriamente dito, o “monstro” marítimo é uma representação da Elisa mesma, as guelras são as cicatrizes de seu passado, o silêncio é uma constante para os dois. Aliado a vários aparatos convencionais, mas eficientes, para levar a história adiante, o diretor apresenta mais uma fantasia de excelência, um belo contar de histórias atemporal. É um filme sobre a mudança, uma obra que em sua narrativa fantasiosa revela a transformação no curso das coisas. Essa inversão de clichês e estereótipos mostra como nos anos 1960 o mundo pedia por mudança, assim como hoje ela é visível. Os rádios e a televisão mostram a força de um movimento negro que pede seus direitos, nas ruas ainda evitam que eles se sentem no balcão de uma loja de tortas; Giles é um senhor gay que nunca pode demonstrar seus desejos e quando parece ser retribuído é ultrajado. 

Cabe citar a excelente performance de Sally Hawkins em um de seus melhores papéis, precisando conversar com o público apenas com o olhar e carregando o filme nas costas. Doug Jones também faz mais uma vez um ótimo trabalho como uma criatura fantástica e Octavia Spencer está extremamente carismática. Richard Jenkins e Michael Stuhlbarg também trabalham muito bem e é ótimo ver como seus personagens se conectam com a história principal. O filme foi indicado ao Oscar de: melhor filme, diretor, fotografia, montagem, trilha sonora, edição de som, mixagem de som, atriz (Sally Hawkins), atriz coadjuvante (Octavia Spencer), ator coadjuvante (Richard Jenkins), figurino, roteiro original e desenho de produção. No total 13 indicações. 

Guillermo Del Toro sempre foi dono de filmes que se apresentam como fábulas, um conto fantástico que se desenrola como uma metáfora para além-tela, todavia em “A Forma” ele compreende que a fábula de tempos recentes é o próprio cinema, e a sua força é hoje uma das únicas formas de conectar o real ao fantasioso, fazendo com que um mundo de imaginação afete o mundo real do espectador. Abraçando a fantasia e o horror de sua história com o apuro visual que sempre exibe em seus projetos, o diretor usa o filme como uma declaração de amor ao próprio Cinema e ao poder que este possui de nos transportar para universos tão distintos do nosso cotidiano. Uma ode aos desajustados, aos incompreendidos, aos outsiders, aos párias. Uma homenagem ao cinema. Um convite ao escapismo. É isso o que o diretor faz com este filme vencedor do Festival de Veneza 2017, uma produção de cativante beleza, interpretada por um elenco afiadíssimo e brilhante. Um filme belo!! 


sábado, 10 de fevereiro de 2018

MANCHESTER À BEIRA-MAR (Manchester By The Sea) EUA, 2016 – Direção Kenneth Lonergan – elenco: Casey Affleck, Michelle Williams, Lucas Hedges,  Ben O’Brien (o jovem Patrick), Kyle Chandler,  Liam McNiall, C. J.  Wilson,  Matthew Broderick, Tate Donovan,  Kenneth Lonergan, Susan Pourfar, Robert Sella, Ruibo Qian,  Anna Baryshnikov, Josh Hamilton, Christian Mallen, Oscar Wahlberg, Ellie Teeves, Chloe Dixon, Tom Kemp, Gretchen Mol, Mary Mallen,  Lewis D. Wheeler, Anthony Estrella, Ben Hanson – 137 minutos

               O FILME QUE NUNCA SENTE A NECESSIDADE DE EXPLICAR DEMAIS!!


O novo trabalho do cineasta Kenneth Lonergan é o tipo de filme que não parece estar caminhando para lugar nenhum durante a maior parte do tempo. E então, quase inesperadamente, ele chega. A eternidade do luto e a esperança de redenção são temas tão antigos quanto a própria dramaturgia, mas eles raramente são apresentados através do turbilhão extraordinário de amor, raiva, ternura e humor seco que é aqui dissecado. Desde o início, procura realizar um profundo mergulho dentro de cada personagem, realizando assim, um estudo do sujeito e de sua maior angústia: a morte. O cineasta evita ao máximo momentos catárticos e cria um ambiente angustiante e de uma tristeza tão reprimida que abala o espectador. Os efeitos da perda e do luto são retratados de maneira ao mesmo tempo muito particular e universal, apoiando-se na excelente atuação do elenco e na espetacular performance de Casey Affleck, que já apresentou grandes interpretações, entre elas o extraordinário “O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford”. 


Em “Manchester à Beira-Mar”, Casey Affleck (vencedor do Oscar  2017 de Melhor Ator) é Lee Chandler, um personagem reprimido, traumatizado e pouco expressivo. Mas pouco expressivo na medida em que não se desespera, pois diz muito através de seu olhar. A dinâmica com o sobrinho é brilhante, principalmente pela revelação que é Lucas Hedges. O jovem é bastante carismático e se sai bem nos momentos dramáticos e também nas cenas em que deve agir como adolescente rebelde. Passado numa cidade litoral, durante um inverno pesado, o filme absorve um clima de frieza e isolamento, e passa para boa parte dos personagens. É uma obra que não grita, mas fala com uma agonia desesperadora, sem deixar de lado aquele bom humor típico de quem tenta aliviar um cenário de dor e perda. A direção de fotografia de Jody Lee Lipes é belíssima e consegue estabelecer uma diferença clara nas sequências do presente e do passado. É interessante como a imagem transmite um cenário mais alegre nos flashbacks, em contrapartida a toda frieza da linha do tempo principal, por mais que seja no passado que aconteça o evento mais traumático. Passa bem a ideia de que a partir daquele ponto, a vida de nenhum dos personagens foi a mesma. 

É um belo filme sobre perda e recomeço, contando com um roteiro que transborda sensibilidade e humanidade. Trata-se de uma obra extraordinária sobre a vida e seus percalços. Sobre o amor, mas também sobre a dor, que por vezes é tão insuportável que transforma pessoas. Destaque à organicidade do transcorrer análogo ao comportamento do mar, ou seja, alternando agitações e calmarias. Uma direção extremamente atenta, que entrelaça as temporalidades e os gêneros (drama e comédia), com um domínio excepcional tanto do trabalho do roteiro quanto da direção. Só pecou um pouco na longa duração, deixando o filme um pouco arrastado. Mas há outras compensações, entre elas a sequência mais trágica da história, a da sequência do Adágio de Albinoni. O filme é, antes de tudo, o fim do abismo e uma ode à observação. Bonito de se ver!!! UM GRANDE FILME!!



quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

MANIFESTO (Manifesto) Alemanha, 2015 – Direção Julian Rosefeldt – elenco: Cate Blanchett, Andrew Upton, Ruby Bustamante, Erika Bauer, Carl Dietrich, Ralf Tempel, Marina Michael, Hannelore Ohlendorf, Ottokar Sachse – 95 minutos

Os históricos manifestos da arte podem ser aplicados à sociedade contemporânea?? É isso o que a Cate Blanchett tenta responder ao explorar os componentes performativos e o significado político de declarações artísticas e inovadoras do Século 20, que vão dos futuristas e dadaístas ao Pop Art, passando por Fluxus, Lars von Trier e Jim Jamursch.


“Manifesto” tem uma proposta que se afasta do que estamos acostumados a ver, não há uma trama, não há desenvolvimento de personagem ou qualquer coisa que o valha. O filme explora, de maneira geral, o movimento artístico em nossa atualidade capitalista e política. Sem nenhum enredo, ousa a expor apenas uma série de monólogos que devem ser apreciados como uma arte visual e estudo de personagem. E realmente é um estudo de personagem, já que celebra a individualidade das diversas opiniões em determinado assunto, neste caso a arte. O filme não tenta te convencer a seguir nenhum desses pontos de vistas que são expostos, querendo apenas mostrar essa divergência usando também tons de ironia da realidade indutiva e manipuladora, além de oferecer filosofias pessoais e conteúdo poderoso que, juntamente a todos os elementos que o audiovisual tem a sua disposição se torna uma jornada emocional, que pede a atenção do público para existir. 

Não há história, mas há narrativa, uma ordenação no roteiro que o diretor apresenta de maneira engenhosa e natural, fazendo com que hora o texto de dois manifestos se complementem, hora eles se contradigam, ascendendo uma discussão mental na cabeça do espectador – e um dos momentos mais celebrados é justamente quando o diretor aborda o Dogma 95. Não tem um roteiro. Não há ação central, não há explicação e há conexão. É como se Cate Blanchett desse vida à diferentes textos, com 13 personagens e nuances diferentes. Sempre impecável e magistral, a atriz, vencedora de dois Oscar, consegue encarnar de um exagerado mendigo até uma descontraída apresentadora de TV. Entre as outras personagens, estão: uma coreógrafa, uma punk, uma professora de escola infantil, uma cientista, uma funcionária da bolsa de valores, uma artista, um titereiro (manipulador de marionetes), uma trabalhadora de fábrica e uma mulher em um velório. Tais personagens não têm conexão, e os textos escolhidos para cada um também não. 

Essas 13 personagens distintas se apresentam em uma série de monólogos sempre recheados com referências a icônicos manifestos artísticos. Um destaque muito especial para a fotografia e a direção de Julian Rosefeldt, que são impecáveis. O diretor faz uso constante do plongée, que é quando se filma a cena de cima, mostrando todo o ambiente. O ritmo do filme é sempre lento, tanto que em determinada cena em que os alunos de Cate estão brincando, a câmera lenta é utilizada. Como já citada, a atuação de Cate Blanchett é magistral. Ela consegue capturar o estilo requerido em cada um dos personagens, entrega a entonação necessária, os gestos e os olhares perfeitos para cada cena. “Manifesto” é um grande filme, capaz de provocar uma boa reflexão sobre o atual cenário da arte e de aproximá-lo – ao mesmo tempo que o contrapõe – a vanguardas e movimentos de outros períodos da história. Muito bom e obrigatório!!