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quinta-feira, 12 de outubro de 2017

GUARDIÕES DA GALÁXIA VOL. 2 (Guardians of the Galaxy Vol. 2) EUA / Nova Zelândia / Canadá, 2017 – Direção James Gunn – elenco: Chris Pratt, Zoe Saldana, Dave Bautista, Bradley Cooper, Vin Diesel, Michael Rooker, Karen Gillan, Pom Klementieff, Sylvester Stallone, Kurt Russell,  Elizabeth Debicki, Chris Sullivan, Laura Haddock, Sean Gunn, Tommy Flanagan, Aaron Schwartz, Rob Zombie, Seth Green, Michael Rosenbaum, Stan Lee, David Hasselhoff, Wyatt Oleff, Gregg Henry, Ving Rhames, Michelle Yeoh, Miley Cyrus (voice), James Deuschle, Jeff Goldblum, Fred (Cosmo the Space Dog), Michael Koske, Josh Tipis, Jason Williams – 136 min

        UMA VONTADE REPENTINA DE ABRAÇAR E CONSOLAR SEUS HERÓIS


Este “Volume 2” é a essência da cultura popular de quadrinhos. As músicas nostálgicas, piadas erradas, personagens fáceis de se identificar, uma mensagem belíssima sobre família e um universo extremamente competente. O espectador consegue desligar tudo que há de ruim fora da sala escura do cinema. Este novo filme é mais expansivo, mais bonito, engraçado, louco e - essa é a coisa mais difícil para um filme baseado em quadrinhos para fazer - mais tocante que o primeiro filme. Sem a obrigação de introduzir esses bizarros personagens para o público, o diretor pôde levar trama, comédia e ação a novos níveis, no melhor filme da Marvel até aqui. James Gunn realizou um filme maior em sua essência e teve tempo para se adentrar nas “angústias” e problemas de seus personagens principais. Alcançando um clímax emocional que surge inesperado e bem mais intenso do que poderíamos supor, este "Volume 2" provoca um efeito pouco comum nas produções Marvel: não o riso, que o estúdio já é experiente em despertar, mas sim uma vontade repentina de abraçar e consolar seus heróis.



Contratados pelos Soberanos para impedir o roubo de poderosas baterias, os Guardiões começam o filme já enfrentando uma poderosa criatura intergaláctica, numa cena com muita ação e com um fabuloso baby Groot dançando. Logo nos créditos de abertura, o filme já mostra a que veio, divertindo e empolgando. Mostra também uma evolução na dinâmica entre os heróis, especialmente a preocupação que todos têm com a pequenina árvore. A nostálgica e empolgante trilha sonora já era um dos elementos mais interessantes da primeira produção. Aqui, vai além e ganha uma maior importância narrativa. Traz músicas de nomes como Fleetwood Mac, Sam Cooke, George Harrison, Looking Glass, Cat Stevens etc. "Brandy You're a Fine Girl", do Looking Glass, marca um importante elo de ligação entre Peter Quill e seu pai, Ego. A música surge logo na primeira cena e volta mais tarde para descrever claramente uma situação. Já "My Sweet Lord", do Beatle George Harrison, é o tema perfeito para apresentar a natureza de Ego e o sentimento de descoberta que permeia seu filho. E, é claro, temos "Father and Son", de Cat Stevens, que é praticamente um soco no peito do espectador. Prepare-se para se emocionar ao som da bela canção.




"Guardiões da Galáxia Vol. 2" acerta novamente o alvo, e continua se mostrando bem consciente do que é: uma grande brincadeira, que possui a capacidade, como poucos filmes de entretenimento hoje em dia, de nos fazer voltar a ser criança. O filme entretém com qualidade e segue a fórmula de seu predecessor, com aventura e um humor que se diferencia do restante dos filmes da Marvel por usar piadas que acrescentam ao enredo e não o interrompem. O grande mérito é fazer tamanho esforço parecer uma brincadeira. São 2h17min que passam voando entre piadas, participações especiais, referências à cultura pop, easter eggs, coloridas batalhas espaciais, músicas cativantes, armas gigantes e dramas universais. O grande diferencial aqui é a expansão de todos os aspectos positivos do filme anterior. Ainda assim, o plus de não precisar apresentar seus protagonistas, mas sim conseguir aprofundá-los sem perder a comédia. Ótima diversão!!



terça-feira, 10 de outubro de 2017

MULHER MARAVILHA (Wonder Woman) EUA, 2017 – Direção Patty Jenkins – elenco: Gal Gadot, Chris Pine, Robin Wright, Connie Nielsen, David Thewlis, Danny Huston, Ewen Bremner, Saïd Taghmaoui, Eugene Brave Rock, Lucy Davis, Elena Anaya, Lilly Aspell, Ann Wolffe, Lisa Loven Kongsli, Ann Ogbomo – 141 minutos

O FILME MAIS GIRL POWER DO ANO QUEBRA MAIS PARADIGMAS DO QUE SE IMAGINA


O amor, em tempos de cinismo, pode parecer um sentimento piegas, mas "Mulher-Maravilha" deixa claro que ter a coragem de acreditar nisso é a arma mais poderosa. E o filme consegue mostrar essa força, em pensamentos, e principalmente, atos. A israelense Gal Gadot é realmente uma maravilha, mas sua contribuição vai além da beleza. Foi uma sacada escalar uma moça de Israel, onde as garotas vão para o exército. O filme ainda arruma tempo para levantar questões mais atuais impossíveis, necessárias e, de certa forma, indispensáveis para um filme como este, como o feminismo, por exemplo, colocando uma mulher dona de seu próprio arco dramático, e rendendo interessantes discussões quando a protagonista adentra o mundo machista dos anos 1910. Patty Jenkins e Gal Gadot assumem o controle do filme mais girl power do ano e podem quebrar mais paradigmas do que imaginam.


O texto do filme é extremamente contemporâneo ao dar voz ao empoderamento feminino não só nas atitudes da protagonista como principalmente no discurso, existe ainda espaço para falar de racismo, abuso de poder, machismo, e ainda uma precisa e divertida pitada de erotismo. A forma como a mitologia é abordada com naturalidade e elementos fantásticos como seu laço e braceletes são introduzidos organicamente, sem exagerar na mão e nem esconder a origem da personagem, é um grande trunfo da obra. Patty Jenkins entrega um filme divertido e cheio de charme, características que certamente o separam das recentes versões para o cinema de propriedades da DC. Embora lide sim com temas complexos, o filme faz de uma maneira lúdica e sensível, sem jamais se tornar tolo ou pesado demais. A sensibilidade particular da diretora, diga-se de passagem, é também fundamental ao permitir que os personagens secundários possam se tornar multidimensionais, enfrentando seus próprios problemas.


A combinação - simplicidade narrativa e conexão emocional - dá a Mulher-Maravilha uma aura de cinema antigo, com uma ingenuidade que se distancia do “sombrio e realista” para abraçar o fantástico. A inocência é a maior qualidade da heroína de Gal Gadot. Não há músculos bombados e sim um corpo afinado e delicado, que se encaixa no corpete como uma luva. A força da Mulher-Maravilha vem da alma, e é aniquiladora. Como a história se passa quase inteiramente em Themyscira ou na Europa durante a Primeira Guerra Mundial, o filme tem a oportunidade única de explorar a sua personagem numa época em que o mundo ainda não ouviu falar de super-heróis - e "Mulher-Maravilha" aproveita isso ao máximo. É visualmente impactante, especialmente em virtude da flagrante habilidade de sua realizadora em contextualizar e significar a ação, evitando cenas gratuitas ou descartáveis.


Sem entrar em detalhes específicos da trama, o filme deixa um pouco de lado o tom sombrio de Zack Snyder, mas, para alívio dos fãs da DC, não chega perto do universo multicolorido e bem-humorado da Marvel. Na verdade, há uma celebração do fantástico, principalmente ao investir numa abordagem menos realista, que envolve diretamente um cenário mitológico. A diretora Patty Jenkins parece ter lido todas as críticas negativas de “Batman Vs Superman” e “Esquadrão Suicida”, investindo num humor natural e privilegiando cenas com boa iluminação. Boas partes dos confrontos, por sinal, acontecem durante o dia, evitando aquela bagunça visual que é o final de “Batman vs Superman”. O filme funciona como ação, como fantasia, como aventura e até mesmo como romance. Trata de um amor entre pessoas, mas também de um amor altruísta pela Humanidade. Neste sentido, chega até a ser um pouquinho piegas, mas é importante por desenvolver uma protagonista que é forte e determinada, mas também sensível e capaz de amar.



domingo, 8 de outubro de 2017

COMO EU ERA ANTES DE VOCÊ (Me Before You) Inglaterra / EUA, 2016 – Direção Thea Sharrock – elenco: Sam Claflin, Emilia Clarke, Vanessa Kirby, Eileen Dunwoodie, Jenna Coleman, Matthew Lewis, Muzz Khan – 106 minutos

          UMA BELÍSSIMA HISTÓRIA SOBRE AMOR... APRENDIZADO E PERDA


COMO EU ERA ANTES DE VOCÊ é um dos filmes mais românticos do ano. As dificuldades enfrentadas por um tetraplégico têm sido abordadas no cinema há tempos, do excelente (e citado pelo filme) “Meu Pé Esquerdo” (1989) ao recente “A Teoria de Tudo” (2014), assim como o relacionamento amoroso entre uma cuidadora e seu paciente tem no tristíssimo “Tudo Por Amor” (1991) seu exemplo maior. Mesmo o interesse de Will em transformar a jovem Louisa Clark bebe da fonte de “Pigmaleão”, cuja origem vem da mitologia grega. Em meio a tantas referências, a história se sustenta muito graças à humanidade vinda de sua principal personagem feminina. 


O roteiro do filme foi muito bem adaptado a partir da história do livro, que não deixou nenhuma parte importante de fora e constuiu uma narrativa com atos bem definidos que não perdem o ritmo. A atuação da dupla principal é impressionante, mostrando muita sintonia entre os atores. Sam Claflin surpreende em seu papel de tetraplégico, fica a certeza que ele se dedicou muito para isso. O espectador consegue entender por meio de suas expressões e falas que ele era um homem que tinha tudo, e de repente precisa que outra pessoa faça para ele até as coisas mais básicas. 


Um filme que se mostra digno, acima da média no trato dos incontornáveis apelo sentimental e lição moral não é sempre que se vê. Emilia ajuda nessa boa impressão compondo uma personagem, ao fim das contas, carismática, adorável até, em sua jornada de heroína fabular. "Como Eu Era Antes de Você" é sim uma excelente opção para o tipo de público que costuma chorar com filmes de amor, mas sem deixar de lado uma boa dose de humor. Definitivamente o filme funciona como romance e se colocarmos numa cesta todos os dramas românticos, esse se destacaria por ser capaz de levar o público às lágrimas em vários momentos, sem melodramas desnecessários.


sexta-feira, 6 de outubro de 2017

MEU MALVADO FAVORITO 3 (Despicable Me 3) EUA, 2017 – Direção Kyle Balda, Pierre Coffin e Eric Guillon – Animação – com as vozes de Steve Carell, Kristen Wiig, Trey Parker, Miranda Cosgrove, Dana Gaier, Nev Scharrel, Pierre Coffin, Steve Coogan, Julie Andrews, Jenny Slate, Adrian Ciskato, Cory Walls – 90 min

     O MAIOR INIMIGO DE GRU VEM DO PASSADO E ELE PRECISA ENCARÁ-LO


O antagonista da vez é Balthazar ‘Evil’ Bratt, uma explosão alucinada e hilária, na forma de festa dos anos 1980. É ver para crer. Os baixinhos por outro lado, não pegarão as inúmeras referências direcionadas para os papais e os que já passaram dos trinta. “Meu Malvado Favorito 3” é um filme que agradará as crianças em cheio pelo seu característico e frequente – nos dias de hoje – ritmo frenético.


O humor de "Meu Malvado Favorito 3" não é tão inteligente e nem tudo presente no filme é necessário. Contudo, algumas evoluções na história são sólidas, muitos personagens têm carisma e o entretenimento, especialmente o musical, é satisfatório.A abertura do desenho animado, ao som de Bad, de Michael Jackson, tem bossa, humor e ironia. O resto da história traz sequências igualmente hilariantes,


Esta animação não destoa muito da excelência residida nos outros 2 filmes: tem pontos altos, que em breve serão expostos; e pontos baixos, estes que se aproximam daqueles do segundo acrescidos de alguns detalhes no roteiro que em breve serão expostos também. Focando, por agora, nos pontos positivos, é fato que esta franquia tem personagens bem carismático por seus tons caricaturescos. Dru como caricatura de um personagem da literatura de terror gótico; as garotas retomando caricaturas e estereótipos bem fortes da infância e da pré-adolescência – mas, é fato, no primeiro filme estes “estereótipos” acabavam por reproduzir um ideal de menina “bela e recatada” extremamente antiquado que, embora tenha sido reduzido do primeiro ao terceiro filme, ainda deixa traços no roteiro; e agora temos Dru, o irmão gêmeo de Gru, que é uma caricatura do playboy milionário e musculoso; além de Balthazar Bratt, que é uma homenagem à cultura pop dos anos 80 – e logo foi bem sacada a escolha de Evandro Mesquita, vocalista da BLITZ, para dublá-lo. Mas, obviamente, o carisma se centra na comicidade e fofura comercialmente delineados presentes em todos eles Este terceiro filme está muito bem realizado em termos de qualidade. Mas tem energia suficiente e lampejos de inspiração para indicar que esta é uma franquia que ainda tem muito futuro” 


quinta-feira, 5 de outubro de 2017

O SOM DO CORAÇÃO (August Rush) EUA, 2007 – Direção Kirsten Sheridan – elenco: Freddie Highmore, Keri Russell, Jonathan Rhys Meyers, Terrence Howard, Robin Williams, William Sadler, Marian Seldes, Aaron Staton, Alex O’Loughlin, Jamia Simone Nash, Mykelti Williamson, Leon Thomas III – 114 minutos

                            A MAGIA DA MÚSICA E O PODER DO AMOR 


A história fala de Evan (o expressivo Freddie Highmore, da nova versão de “A Fantástica Fábrica de Chocolate”), um garoto órfão que irrita seus colegas de orfanato com seu alto astral e otimismo. Fascinado por todo e qualquer tipo de som e música, ele acredita piamente que seus pais ainda voltarão para buscá-lo, ainda que não exista nenhum motivo concreto para tanta fé. O roteiro deixa de lado qualquer resquício de realidade e costura da forma mais previsível possível a vida de Rush, levando-o até mesmo à Jilliard, a mais conceituada escola de música dos Estados Unidos, onde é tratado como um pequeno gênio. Um jovem Beethoven ou Bach, que consegue reger os sons do mundo e transformá-los em música.


As tomadas musicais presentes no filme, a maioria contando com a presença do personagem Evan Taylor, sustentam-se principalmente em razão da carismática e sentimental atuação de Freddie Highmore, em mais um papel magnético. A trilha sonora de Mark Mancina sublinha de maneira convincente os principais momentos do filme, ressaltando ainda mais a figura de Highmore em cena - seja esta séria ou descontraída. “O Som do Coração” foi indicado ao Oscar de Melhor Canção Original com “Raise It Up”, e não é só a música que chama atenção no filme, mas toda a emoção que o envolve. Com um ótimo roteiro, o filme consegue mostrar todo o entorno do personagem principal e ainda adiciona um elemento fortíssimo na conclusão, ligando todos os personagens de uma forma muito sincera e tranquila.


“O Som do Coração” é leve e bonito, que quando acaba o espectador sente falta de um final mais intenso e emocionante, assim, como foi o longa inteiro, mas não decepciona, e vale a pena chegar até o final, assistir a cada cena que nos levou ao último minuto. Pois apesar de muito simples, é encantador, envolve o público facilmente na história desse jovem talento, August Rush, belíssimamente interpretado por Freddie Highmore, que parece sentir cada palavra que fala, um dos melhores atores de sua idade e perfeito para o papel. O filme é belo, simples, delicado, sutil, mas tem sua eficiência. Existem pensamentos bem intencionados nele, é um filme inocente que não faz mal a ninguém, muito pelo contrário, só traz sentimentos bons e positivos.Vale a pena acompanhar essa trajetória, ninguém vai passar a ver o mundo de maneira diferente, nem vai mudar a opinião de ninguém sobre qualquer coisa, prenda-se ao filme, e sentirá apenas coisas boas, aliás um pouco de amor, esperança e música não faz mal a ninguém. 


quarta-feira, 4 de outubro de 2017

ERA O HOTEL CAMBRIDGE – Brasil / França / Espanha, 2016 – Direção Eliane Caffé – elenco: Suely Franco, José Dumont, Paulo Américo, Isam Ahmad Issa, Juliane Arguello, Thais Carvalho, Mariana Raposo, Guylain Muskendi Lobobo, Lucia Pulido, Carmen Silva, Ibtessam Umran, Gabriel Tonin – 99 minutos

A QUESTÃO DOS REFUGIADOS ESTÁ EM DISCUSSÃO EM TODO O MUNDO E O CINEMA SÓ AJUDA A LEVANTAR ESSE DEBATE


A cineasta Eliane Caffé registra o dia a dia dos moradores do Hotel Cambridge, tradicional hotel de São Paulo fechado e abandonado em 2011. Um ano depois, foi ocupado por moradores sem-teto, em sua maioria refugiados. A diretora dá uma atenção muito especial justamente a esses refugiados, que vêm ao país sem dinheiro, família ou mesmo conhecimento da língua, em busca de um futuro melhor. Ela passou cerca de dois anos no antigo Hotel Cambridge, para produzir a história, que mescla as vidas reais desse grupo de sem-teto, reencenadas por eles mesmos e um reduzido grupo de atores, como José Dumont e Suely Franco. Desse modo, sobressaem as figuras de Apolo (José Dumont), mas também da atriz Suely Franco, com sua personagem um tanto delirante, egressa de um circo. Também se destaca Carmem Silva, a líder da ocupação, com sua presença forte, dura, às vezes conciliadora, mas que acusa um momento de cansaço que a humaniza profundamente. Toda luta comporta esse instante de desânimo, que deve ser vencido para que tudo prossiga e Carmem vive esse momento de maneira dramática, pungente, e solitária – como convém a uma líder. É uma grande personagem. Um imigrante dá um toque romântico ao se apaixonar pela cinegrafista. E o exilado palestino, o poeta Isam (Isam Ahamad Issa) rouba as cenas de que participa. É ator nato, envolvente, carismático. Seu personagem é cheio da sabedoria universal de quem passou pela guerra e reencontrou-se na solidariedade. O filme é muito atual e importante. A questão dos refugiados está em discussão em todo mundo e o cinema só ajuda a levantar este debate ao oferecer uma visão singela dessas pessoas, que geralmente sofreram muito para chegar até aqui e que muitas vezes são tratadas com desprezo e preconceito, ao invés de acolhimento.


As premiações na Mostra de São Paulo, no Festival do Rio, nos festivais de San Sebastián e de Rotterdam, já atestam a qualidade inquestionável de “Era o Hotel Cambridge”. O quarto longa-metragem da talentosa diretora e roteirista Eliane Caffé (Narradores de Javé), apresentado por ela como uma produção coletiva entre o MSTC (Movimento Sem Teto do Centro), o GRIST (Grupo Refugiados e Imigrantes Sem Teto) e a Faculdade de Arquitetura da Escola da Cidade, é uma autêntica obra de arte cinematográfica, coletiva, social, contundente e comovente. O filme mergulha na intimidade dos diversos personagens que ali vivem, humanizando a imagem de pessoas que são retratadas muitas vezes pela mídia como invasores, vagabundos e aproveitadores. O que vemos são famílias que lutam para se manter, refugiados que tentam se adaptar a distância da terra natal e imigrantes que muitas vezes foram responsáveis pela construção daquela propriedade e mesmo assim estão sem um lar. O mais interessante que mesmo se tratando de uma invasão, a organização de andamento do local é impressionante. A comandante Carmen com punhos fortes rege todos como uma grande mãe que acolhe seus filhos debaixo da asa e os trata com carinho e também com autoridade para que nada saia do controle. 


“Era o Hotel Cambridge” não é um filme antenado apenas por falar conscientemente de um tema do presente, mas por conseguir abordar isso de uma forma extremamente contemporânea. O longa se utiliza de um dos mais potentes artifícios do cinema atual: os limites entre o documentário e a ficção, um achatamento total das dimensões ficcionais e do pretenso registro do real. Assim, gira em torno do filme uma sensação de auto-encenação, como se o filme fabulasse em torno dos acontecimentos que vive. O que se vê na tela não é a tentativa de dramatização dos conflitos vividos naquela ocupação, mas sim uma maneira de representação de si mesmo, como se esse fato ajudasse a compreender o que ocorre no mundo real. Eliane Caffé adota a ação política e física como foco, justamente o outro lado da moeda. Em um, tratamos do “lado de dentro”. Em outro, “do lado de fora”. O mesmo problema sob olhares diferentes


domingo, 1 de outubro de 2017

A JOVEM RAINHA (The Girl King) Finlândia / Suécia / Alemanha / Canadá /França, 2015 – Direção Mika Kaurismäki – elenco: Malin Buska, Sarah Gadon, Michael Nyqvist, François Arnaud, Patrick Bauchau, Martina Gedeck, Jannis Niewöhner, Lucas Bryant, Laura Birn, Hippolyte Girardot, Peter Lohmeyer, Ville Virtanen – 106 minutos

  SUA CORAGEM TROUXE PAZ À EUROPA, SUAS IDEIAS MUDARAM O MUNDO 


Contando a história real da determinada e polêmica Rainha da Suécia, no Século XVII, Cristina I, o diretor finlandês Mika Kaurismäki traz para as telas do cinema mundial uma recriação desse impactante momento da história universal focando não só na personalidade extremamente forte da protagonista mas também dando boa ênfase a direcionamentos religiosos que contornaram vários reinos nos séculos passados e sua curiosa amizade com pensadores da época como René Descartes. Protagonizado pela ótima atriz sueca Malin Buska e com os ótimos coadjuvantes Sarah Gadon e Michael Nyqvist, o filme se caracteriza também por ser uma boa aula de história vista no cinema, mesmo sendo apenas um recorte de um tempo cheio de conflitos de pensamentos.


Personalidade histórica tão controversa quanto fascinante, a Rainha Cristina da Suécia já foi retratada nas telas em diversas oportunidades, entre elas por Liv Ullmann em “A ABDICAÇÃO DE UMA RAINHA” (1974) e, na mais notória de suas encarnações, por Greta Garbo em “RAINHA CRISTINA” (1933). As razões do interesse pela personagem são facilmente compreensíveis, pois em seu curto reinado – que oficialmente durou apenas uma década – a chamada “Menina Rei” se notabilizou por desafiar os preceitos religiosos luteranos vigentes em seu país ao se aproximar do Cristianismo, buscando a paz entre cristãos e protestantes – em meio aos conflitos da Guerra dos Trinta Anos que levaram à morte de seu pai, o Rei Gustavo II – bem como por seu apreço pelo pensamento de filósofos como René Descartes, instigando o desejo de transformar a Suécia no centro cultural e intelectual da Europa no século XVII.

Essa história real do século 17 é mais que atual na abordagem do empoderamento feminino e da homossexualidade. O diretor finlandês Mika Kaurismäki narra a trajetória da Rainha Cristina da Suécia, que foi criada como príncipe e, quando assumiu o trono, se portava como tal – das roupas masculinas à orientação sexual. Cristina, que cresceu sob rígida educação luterana, era inteligente e tinha sede de cultura. Queria transformar Estocolmo em uma Atenas do Norte. Seus esforços pela paz e o fim da Guerra dos Trinta Anos é notável. O filme tem um grande valor histórico, mais até do que cinematográfico, e é um excelente entretenimento.


Uma das figuras mais influentes na política europeia do século XVII, feminista que estava adiante de seu tempo e procurou viver como pensava, Cristina I, tinha suas próprias linhas no ato de pensar. O filme foca nisso principalmente e no conflitante interesse por uma de suas damas de companhia, a Condessa Ebba Sparre (Sarah Gadon), que domina boa parte da trama, sendo intercalada a uma série de intrigas palacianas, como os planos do Chanceler Axel Oxenstierna (Michael Nyqvist) para que a Rainha se case com seu filho, Johan (Lucas Bryant), além das investidas de outros pretendentes, como seu primo Carlos Gustavo (François Arnaud). Talvez a mais polêmica de suas atitudes, sendo filha de um protestante ferrenho, causou um escândalo na comunidade sueca quando abdicou de seu trono convertendo-se ao Catolicismo em meados de 1600, e sua derradeira declaração de liberdade, o filme em seu terço final se desenrola para mostrar esse ato que ficou marcado na história europeia. Uma personagem interessantíssima, sobre a qual pairam algumas lendas. Um filme notavelmente realizado e belo!! Merece ser conferido!!