Content on this page requires a newer version of Adobe Flash Player.

Get Adobe Flash player

domingo, 19 de fevereiro de 2012

O LEITOR (The Reader) EUA, 2008



UM GRANDE FILME QUE DISCUTE CULPA E OMISSÃO APÓS O HOLOCAUSTO

O LEITOR (The Reader) EUA, 2008 - Direção: Stephen Daldry - Elenco: Kate Winslet, Ralph Fiennes, David Kross – 124 minutos.

A atriz inglesa Kate Winslet recebeu sua sexta indicação ao Oscar e saiu vencedora na categoria de melhor atriz por este filme, depois de já ter ganho o Globo de Ouro, mas como atriz coadjuvante. Ela é Hanna Schmitz, uma alemã cobradora de bonde que na década de 1950 conhece e se envolve com um jovem de 15 anos, chamado Michael Berg (o ator alemão David Kross, em brilhante atuação). O romance entre os dois é tórrido. O rapaz envolve-se profundamente, pois este é seu primeiro grande amor. Para ela, o caso parece não ir além do sexo. Hanna e Michael passam muito tempo juntos, ora namorando, ora lendo. Na verdade, é ele quem lê para ela livros como "A Odisséia", "As Aventuras de Huckleberry Finn" e contos de Anton Tchekhov. Porém, um dia ela o abandona, deixando Berlim depois de receber uma promoção no seu trabalho. O rapaz cresce atormentado por essa perda. Isso o traumatizou tanto que, décadas depois, ele não consegue estabelecer vínculos com as pessoas. Michael só irá reencontrar Hanna anos mais tarde, quando ele, estudante de direito, assiste a um julgamento de ex-carcereiras do campo de concentração de Auschwitz. Para sua surpresa, Hanna está entre as rés.



Nesse momento, O LEITOR levanta duas questões sobre a culpa. A primeira tem a ver com a responsabilidade dos agentes do Holocausto. A segunda, e mais interessante, transcende ao jogar para cima de Michael uma dúvida cruel: ele tem uma informação capaz de inocentar Hanna, mas, se a revelar, poderá ajudar uma possível culpada por crimes nazistas a escapar ou ter reduzida sua pena. Além de ter de expor seu relacionamento juvenil com a ré. Essa ambiguidade poderia muito bem servir de metáfora para a omissão diante dos horrores nazistas: a busca por um bode expiatório. Michael, assim como o autor do livro no qual o filme é baseado, Bernhard Schlink, pertence à geração que passou pela adolescência na época da ascensão do nazismo. Eles podiam não entender o que acontecia - mas seus pais, mais cedo ou mais tarde, souberam dos horrores e a maioria se omitiu.



Anos mais tarde, quando Michael - agora vivido por Ralph Fiennes - reencontra uma sobrevivente de Auschwitz e revela a ela o segredo de Hanna, a mulher (Lena Olin) pergunta se isso é uma explicação ou uma desculpa. Não há resposta da parte dele - o que não é uma surpresa, pois a questão é mesmo da maior complexidade. O diretor inglês repete a parceira de AS HORAS com o roteirista David Hare, conseguindo bons resultados tanto na primeira parte - o tórrido romance entre Hanna e Michael - como nos dois atos finais, o julgamento e a tentativa de Michael de reparar seu erro. Kate Winslet mostra o talento e a profundidade de sempre, injetando humanidade num personagem complexo. Recebeu cinco indicações ao Oscar 2009, incluindo Melhor Filme do Ano. Um filme obrigatório!!!!

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

J. EDGAR (J. Edgar) EUA, 2011



UM DOS HOMENS MAIS TEMIDOS DA AMÉRICA NO SÉCULO XX POSSUIA SEGREDOS REVELADORES.

J. EDGAR (J. Edgar) EUA, 2011 – Direção Clint Eastwood – elenco: Leonardo Di Caprio, Armie Hammer, Judi Dench, Naomi Watts, Josh Lucas, Lea Thompson – 137 minutos.

Chamar John Edgar Hoover, o temido chefe do FBI por quase cinco décadas, pelo primeiro nome, no título da cinebiografia "J. Edgar", é apenas o primeiro indício de que o diretor Clint Eastwood se aproximou do personagem como ser humano, tornando real e acessível uma figura mítica e, não raro e com justas razões, identificado como vilão e sociopata, especialmente perante os segmentos liberais da sociedade norte-americana. Quase tanto, ou até mais do que o senador Joseph McCarthy - a quem considerava "oportunista" -, Hoover encarnou o combate sem tréguas aos comunistas e esquerdistas, muito comumente ultrapassando os limites legais. Também não se dobrou à autoridade dos oito presidentes norte-americanos a quem supostamente deveria servir. Independentemente de sua filiação partidária, todos eles e seus parentes, além de vários congressistas, figuraram num temido arquivo secreto em que Hoover colecionava o fruto da espionagem à intimidade dessas personalidades, como a vida sexual de John Kennedy e da senhora Franklin Delano Roosevelt. Um arquivo cuja existência não fazia questão de esconder e aumentava ainda mais seu poderio.



Contando com uma caprichada maquiagem, Leonardo DiCaprio interpreta Hoover da juventude à velhice, com uma intensidade na medida justa, o que torna sua ausência das indicações ao Oscar uma das injustiças desta edição. O roteiro, de Dustin Lance Black (vencedor do Oscar por "Milk - A Voz da Igualdade"), centra-se na irresistível ascensão de seu personagem no combate ao crime, à frente da divisão de inteligência do Departamento de Justiça desde os anos 1920, depois chefiando o Bureau de Investigações, que em sua gestão incorporou também a palavra "Federal". Desde o início de sua carreira, com apenas 24 anos, Hoover exibe perícia em duas frentes com a mesma obsessão. De um lado, na necessidade de contar com um aparato volumoso, eficiente e científico - como sua insistência em contratar muitos agentes, instalar laboratórios para investigação e instituir um banco federal de impressões digitais. De outro, seu foco recai única e exclusivamente sobre aqueles que considera inimigos da democracia, como todos os esquerdistas. Além disso, discriminava negros, mulheres ou homens que desprezassem o que considerava um bom figurino, com sapatos engraxados - que, sob sua gestão, tinham minguadas chances de entrar para os quadros do FBI.



A mesma fúria que dedicava ao combate aos gangsteres dos anos 1930 e ao sequestrador do bebê do aviador Charles Lindbergh, ele dirigiu ao ativista negro Martin Luther King. Quando a espionagem ao pastor não rendeu qualquer escândalo que lhe permitisse chantageá-lo, Hoover não hesitou em fabricar uma carta, atribuída a um ex-auxiliar de King, para tentar manchar sua imagem pública, visando forçá-lo a recusar o prêmio Nobel da Paz. Mas Hoover, que considerava King esquerdista, teve que engolir vê-lo receber a honraria, em 1964. Embora não seja este o seu tema principal, o filme aborda a homossexualidade escondida por Hoover, que teve uma longa ligação com um de seus subordinados, o agente Clyde Tolson (Armie Hammer, de "A Rede Social"). Os dois eram inseparáveis em festas, viagens e jantares, e Tolson herdou a casa de Hoover quando ele morreu, em 1972. Duas mulheres são fundamentais na trajetória de Hoover. Uma delas, sua mãe (Judi Dench), decisiva influência na moldagem de um caráter agressivo e obcecado pelo sucesso - e que não admitia sua homossexualidade, como aparece numa cena de grande intensidade dramática entre os dois. A outra é sua secretária, Helen Gandy (Naomi Watts), com quem ele, ainda jovem, tenta casar-se, e que depois lhe permanece uma servidora fiel por toda a vida. Na história, foi Helen a encarregada de sumir com os temidos arquivos secretos de Hoover, que nunca foram encontrados depois de sua morte, em 1972. Com a sobriedade habitual, o diretor Eastwood delineia as características polêmicas de um homem que construiu um personagem maior do que ele mesmo - e cujo poder, exercido com fervor absolutista, levou o presidente Harry Truman a comparar o FBI, sob Hoover, à Gestapo nazista. Um grande filme e uma interpretação antológica de Leonardo Di Caprio!!


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

CAVALO DE GUERRA (War Horse) EUA, 2011



SEPARADOS PELA GUERRA! TESTADOS PELA BATALHA! LIGADOS PELA AMIZADE!

CAVALO DE GUERRA (War Horse) EUA, 2011 – Direção Steven Spielberg – elenco: Jeremy Irvine, Emily Watson, David Thewlis, Benedict Cumberbatch, Peter Mullan, Niels Arestrup, Tom Hiddleston, Toby Kebbell, David Kross, Patrick Kennedy, Celine Buckens, Robert Emms, Rainer Bock, Geoff Bell, Leonard Carow, Matt Milne - 146 minutos.

Com uma ambição que é também combustível para um contínuo esforço de autossuperação, Spielberg lança-se, em CAVALO DE GUERRA, ao resgate de um cinemão à moda antiga, no bom sentido. Procura realizar aquele tipo de narrativa épica e arrebatadora que sintonize com todo tipo de público, de qualquer idade, de qualquer nação, e que seja capaz de transcender qualquer barreira temporal. O clima de nostalgia de uma história ambientada no começo do Século 20, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, serve para sinalizar que aqui se falará de valores eternos - que alguns podem até ter esquecido, mas cuja validade o filme se encarregará de testar. Os roteiristas Lee Hall ("Billy Elliott") e Richard Curtis ("Quatro Casamentos e um Funeral") recriam para a tela uma história que, na essência, resume-se à irrompível ligação entre um jovem, Albert (o novato inglês Jeremy Irvine), e seu cavalo, Joey. Albert é o filho único de um casal de agricultores, Ted (Peter Mullan) e Rosie (Emily Watson), que arrendou uma pequena propriedade do rico Lyons (David Thewlis) nos arredores de Devon, Inglaterra. Para pagar o dono e poder arar a propriedade, a família precisa de um cavalo. Contra toda a lógica e para afrontar seu esnobe arrendatário, Ted acaba comprando um cavalo lindo, mais apropriado à montaria do que à lide agrícola. De quebra, torra as economias familiares. A ousadia cai bem aos olhos do filho, que se encarregará de treinar Joey para enfrentar quase tudo, inclusive o arado - uma habilidade que salvará sua vida numa situação inusitada no futuro. Sustentando o controle do ritmo da narrativa, Spielberg constrói solidamente esta relação de afeto entre Albert e o cavalo, que enfrentará desafios mortais na Primeira Guerra, a última em que cavalos foram usados nas frentes de batalha da Europa. Uma guerra que ficou conhecida pela selvageria de suas trincheiras e que teve um saldo estimado em um milhão de mortos.



A história é uma adaptação do romance best seller de Michael Morpurgo, de 1982, que também virou peça teatral. Ambientado na Primeira Guerra Mundial, traz em ficção a sofrida história de um cavalo, mas que reflete a realidade de mais de quatro milhões de cavalos que de fato morreram no conflito. No filme, as primeiras grandes tomadas aéreas que se alternam em fusões formam uma visão de cima, onipotente e onipresente, e exibem uma vasta paisagem campestre até se aproximar do nascimento do cavalo Joey no seio de uma humilde família de trabalhadores rurais. Essas imagens já nos dizem muito: uma alusão a um ponto de vista de um suposto Deus, a intervenção divina, o plano subjetivo que enxerga um mundo abaixo e enviou uma criatura especial destinada a uma missão. Poucos momentos após o seu nascimento, intuitivamente, o jovem cavalo já se levanta sozinho e está em pé, lutando por seu lugar e sobrevivência nesse mundo – uma virtude e uma capacidade que o homem jamais teve em tão pouco tempo de vida. Já nas primeiras cenas tornam-se evidentes duas intenções do realizador. A primeira é a tentativa de mitificar o cavalo, atribuir a ele uma espécie de alusão ao nascimento, a designação, e posteriormente o calvário e a redenção. A segunda está na ambientação, nos planos, na forma de iluminar e enquadrar. Temos imagens de janelas e portas da rústica casa de trabalhadores rurais emoldurando as colinas, céus repletos de formações de nuvens que carregam tempestades iminentes, áreas de agricultura que provém a sobrevivência, campos do início do século XX, ainda preservados dos efeitos visuais e morais da revolução industrial e urbanização que viria a seguir. A fotografia do filme é bastante inspirada na tradição pictórica norte-americana, a pintura de paisagens do século XIX, em especial nos emblemáticos afrescos de Albert Bierstadt, que trabalhava muito com as formações de nuvens, contraste entre as cores do céu e os tons esverdeados da terra. “Queríamos que o cenário fosse um personagem”, foi o que disseram Steven Spielberg e Janusz Kaminski, diretor e diretor de fotografia, respectivamente, ao The New York Times. O grande mestre nessa arte foi John Ford, que foi mentor de outros que partiam desse pressuposto, de Orson Welles a David Lean, e que aqui é notavelmente a maior influência nesse prólogo do filme, que muito nos remete a Era de Ouro do cinema norte-americano, um filme clássico-narrativo que podia muito bem ser dessa época, o que demostra uma grande nostalgia e homenagem ao cinema por parte de Spielberg.



Em seu melhor momento, CAVALO DE GUERRA traz uma citação mais erudita, de um filme mudo de King Vidor. O protagonista equino dispara por um campo de batalha. Sai da trincheira inglesa e se move em direção à trincheira alemã, mas fica preso em arames farpados. Quando percebem que o animal está preso e machucado, um soldado inglês e um alemão se unem para libertá-lo, o que promove um encontro inusitado entre dois pares que lutam em lados opostos. É uma das mais belas sequências dos 146 minutos. O momento é pungente, e lembra aquele de O GRANDE DESFILE, de Vidor, quando o herói, um soldado americano, acende um cigarro para um soldado alemão agonizante. Spielberg conhece muito de cinema, e este talvez seja a sua obra mais pessoal, mais repleta de referências aos filmes que o inspiraram a ser cineasta. Estão ali de forma velada inumeráveis menções a trechos de filmes de King Vidor, John Ford, David Lean, Victor Fleming, David O. Selznick, Akira Kurosawa, Teinosuke Kinugasa, e até mesmo um final apoteótico visualmente muito semelhante a cena final de ... E O VENTO LEVOU (1939). Mas certamente CAVALO DE GUERRA está muito além de ser um filme formuláico com emoções pré-fabricadas: é uma homenagem nostálgica ao cinema da era clássica de Hollywood, e um balanço, uma síntese do cinema de Steven Spielberg. DESTAQUE para a performance coadjuvante de DAVID KROSS (o menino que brilhou em O LEITOR, em 2009). Permanece na lista dos melhores filmes do ano!! UM GRANDE FILME!!


terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A REDE SOCIAL (The Social Network) EUA, 2010



UM DOS MELHORES FILMES DA DÉCADA!!

A REDE SOCIAL (The Social Network) EUA, 2010 – Direção David Fincher – elenco: Jesse Eisenberg, Rooney Mara, Andrew Garfield, Justin Timberlake, Armie Hammer – 120 minutos.

Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg, de ZUMBILÂNDIA) difama sua namorada Erica (Rooney Mara) na Internet depois de levar um fora dela. Não bastasse isso, inventa um site onde garotas "competem" por votos para serem escolhidas as mais bonitas de Harvard.
O que começa com uma brincadeira, se torna alvo de um processo milionário envolvendo a criação de um site de relacionamentos que mais tarde viria a ser - e é até hoje - conhecido como Facebook. Ele enfrenta os gêmeos Cameron e Tyler Winklevoss (Armie Hammer) e o brasileiro Eduardo Saverin (Andrew Garfield), sempre com a mesma pose parte blasé, parte nerd.



Zuckerberg é uma figura paradoxal. Com pouco trato para laços sociais, se torna o criador do site de relacionamentos mais usado do mundo. Apesar de manter os nomes reais dos personagens, o filme de David Fincher não se preocupa em ir, no que se refere à questão de biografia, além daquilo que já se conhece da repercussão da criação do site, dos processos e tudo o que os envolvem.

A REDE SOCIAL aspira, e consegue em boa parte do tempo, ser o retrato de uma geração que nasceu com o boom da Internet e, ao chegar à idade adulta, descobre que a interação humana não é necessária para haver interatividade.



O filme foi escolhido pela crítica americana como uma das dez melhores produções independentes do ano. Recebeu 08 indicações ao Oscar 2011, incluindo Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator (Jesse Eisenberg), Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Trilha Sonora Original, Melhor Fotografia, Melhor Edição e Melhor Mixagem de Som. Indiscutivelmente, é um dos grandes filmes do ano!! Com certeza, na lista dos dez melhores!! É um desses filmes para a vida toda!! Sem dúvida, com o decorrer dos anos se tornarÁ um cult para sempre!!

sábado, 28 de janeiro de 2012

PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN (We Need To Talk About Kevin) Reino Unido / EUA, 2011



INDISCUTIVELMENTE, O MELHOR FILME EM CARTAZ NOS CINEMAS!!

PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN (We Need To Talk About Kevin) Reino Unido / EUA, 2011 – Direção Lynne Ramsay – elenco: Tilda Swinton, Ezra Miller, John C. Reilly, Siobhan Fallon, Rock Duer, Ursula Parker, Jasper Newell – 112 minutos.

Eva, uma mulher de 40 e poucos anos que reexamina a sua trajetória em busca dos motivos que podem ter transformado seu filho, Kevin, num assassino, em longas e detalhadas cartas ao pai do menino, analisa o próprio casamento, o impacto da maternidade sobre sua antiga vida e momentos significativos da infância de Kevin. Seu relato é escandalosamente sincero, pontuado por confissões como a de um dia ter parado no meio da rua, diante das britadeiras de uma construção, e fechado os olhos de prazer ao notar que as máquinas encobriam o som do choro incessante de seu bebê, recém-nascido. Não por acaso, o episódio foi escolhido pela diretora Lynne Ramsay para apresentar os personagens em sua adaptação do livro para o cinema. A cena sintetiza a essência de Eva (Tilda Swinton, excepcional) - uma mãe dividida entre o desejo de liberdade e a exigência auto-imposta de ser uma mãe feliz e perfeita - e deixa clara a preferência de Ramsay pelos trechos mais pungentes do livro.



Ezra Muller (que encarna o Kevin adolescente) brilha extraordinariamente com uma atuação contida, como pede o tom do texto original e dá um show de interpretação. John C. Reilly prova ser a escolha perfeita para viver o permissivo pai de Kevin. Tilda Swinton merecia ganhar muitos prêmios pelo papel, inclusive ser indicada ao Oscar 2012, na categoria de Melhor Atriz do Ano. Ela consegue expressar a dificuldade que Eva tem de estabelecer um vínculo com o próprio filho e, ao mesmo tempo, fazer com que o espectador não a considere um monstro desalmado. Seus esforços são cativantes. O Oscar, mais uma vez provou a sua ineficiência para fazer justiça, e que nem sempre um filme indicado ou premiado tenha qualidade, o que vem ocorrendo de forma muito forte nos últimos anos. O filme merecia ser indicado não só na categoria de Melhor Atriz, Melhor Roteiro, Melhor Fotografia, entre outras indicações, mas principalmente de Melhor Filme do Ano. Está claro que o filme fala de uma questão com a qual os norte-americanos ainda não sabem lidar. Mas já está na hora de aprender.



“PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN” É UM DOS MAIS BELOS ESTUDOS SOBRE O SER HUMANO E UM DOS MAIS BELOS FILMES DO CINEMA. A diretora cria imagens - conjugadas a uma trilha sonora, onde temos a música de Jonny Greenwood, guitarrista do Radiohead - que transitam entre o lúdico e o grotesco. A primeira cena é o melhor exemplo disso. Na abertura do filme, Eva está coberta de um material vermelho e viscoso. Poderia muito bem ser o sangue de inocentes - mas é simplesmente uma Tomatina, a festa na Espanha onde as pessoas se divertem jogando tomates umas nas outras (a personagem de Tilda é autora de guias de viagem). O filme torna-se intrigante por não opinar sobre quem é o mocinho e o vilão, por mais que o menino-título faça questão de, ao final, impor-se como o bandido. Apesar disso, nada inocenta a mãe, pelo contrário, a origem de seu próprio nome sugestiona alguma culpa. Talvez Kevin seja vítima da própria insanidade dela, não tão aflorada com a dele, ou resultado de uma rejeição, o que não a torna vilã da história. Enfim, o único crime é o cometido ao final, mas, sem julgamentos, o filme expõe a estrutura familiar e a relação patológica que levou àquela atitude de Kevin. Este não é um filme fácil de se ver. E até pode gerar um sentimento de culpa. As interpretações, a direção, a história são tão boas que, eventualmente, alguém pode se sentir mal por conta do prazer cinematográfico que tudo isso gera, em contrapartida ao tema espinhoso. Por outro lado, a discussão e implicações que levanta fazem pensar que ainda vamos falar sobre o "Kevin" por muito tempo. Ou, pelo menos, deveríamos. ABSOLUTAMENTE DEVASTADOR E OBRIGATÓRIO!!


sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

OS DESCENDENTES (The Descendants) EUA, 2011



OSCAR 2012

OS DESCENDENTES (The Descendants) EUA, 2011 – Direção Alexander Payne – elenco: George Clooney, Judy Greer, Shailene Woodley, Amara Miller, Matthew Lillard, Robert Foster, Beau Bridges – 115 minutos.

Um belo exemplo de como fazer bom cinema usando o cotidiano das pessoas como matéria-prima. Honesto e realista, consegue fazer rir e chorar sem recair nos lugares-comuns típicos dos filmes do gênero drama familiar. É um trabalho belíssimo e eficiente versando sobre a condição humana e a capacidade nossa de encontrar humor e alento diante das mais atrozes adversidades. Um filme sobre resistência, sobre o ímpeto de ir adiante apesar dos inevitáveis (e muitas vezes inexoráveis) reveses da vida. Por isso, fica impossível não se identificar com as emoções vividas pelos personagens, que conquistam o espectador desde o começo de sua exibição. O modo como a personagem de Clooney vai lidando com as adversidades é uma lição de sutileza cinematográfica. O diretor Alexander Payne é um mestre na arte de trafegar com eficiência entre as fronteiras da comédia e drama. Ele optou por contar uma pequena história, mas não menos comovente e pungente. E o fez com rara eficiência. A trama é conduzida por seus personagens. É neles que está a história. O espectador vai vê-los aprendendo a lidar com a dor, com o momento de dizer adeus, com a perda. Vai viver esse filme através deles e suas idiossincrasias. George Clooney é a estrela do filme, conduzindo seu papel com destreza, comedimento e elegância.



No filme, Clooney interpreta Matt King, um dos descendentes do título. Ele e seus primos herdaram de seus ancestrais centenas de hectares de terras que um dia pertenceram à realeza havaiana. Mas enquanto a maioria deles não trabalha, vivendo apenas desta renda, Matt é um advogado e também o responsável legal por gerir tudo o que sobrou do espólio. Às vésperas de fechar um acordo imobiliário de meio bilhão de dólares, sua esposa sofre um acidente de barco e entra em coma. A situação leva Matt a se reaproximar de suas filhas e repensar seu passado e futuro. Como nos diz Matt em sua primeira interação com o público, o filme também se presta a mostrar um Havaí diferente do paraíso dos resorts de luxo que sempre se vê nos filmes e séries, ou das disputas entre locais e "haoles", como eles chamam os estrangeiros. Existe também a interessante missão não declarada de mostrar ainda que, sim, todo mundo por lá usa camisa havaiana, mesmo em eventos sociais. A forma praticamente invisível com que Payne comanda o longa-metragem quase nos faz esquecer que estamos no cinema. A trama, que já tem elementos fáceis de se encontra nos cotidianos de qualquer um, se desenrola também como a vida, deixando tudo muito fácil de degustar, até mesmo as partes mais amargas - que não são poucas.



A relação pai-filhas do trio formado por Matt, Scottie (Amara Miller) e Alex (Shailene Woodley) leva do riso ao choro sem causar estranheza, nem parecer forçado. Afinal, qual menina de 10 anos não está perdida na sua passagem da infância para a puberdade, ou qual adolescente não quer curtir a vida de quase adulto que está ali na esquina, mas não tem paciência de esperar chegar lá? Com tantas reflexões, o filme leva ao seu grande destino, o autodescobrimento. É na hora de pegar a filha mais nova na escola que o pai percebe que não existe na sua memória uma lembrança recente de ter feito isso em muito tempo. É ali no hospital, ao ver a mãe paralisada na cama do hospital, que a filha percebe o quanto é parecida com a mãe que ela se acostumou a destratar. O diretor sintetiza a diversidade e complexidade do ser humano em seu trabalho. Sem sombra de dúvida é o mais maduro dos seus filmes em clareza narrativa. Inspirador, o filme mostra que não basta ter uma boa história em mãos, é preciso saber transformá-la em experiência de cinema. Um desses filmes que são para sempre!! Indicado a vários prêmios no Oscar 2012, incluindo Melhor Filme do Ano e Melhor Ator para George Clooney. Já desponta na lista dos melhores lançamentos de 2012. Imperdível!!


quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

TOLERÂNCIA ZERO (The Believer) EUA, 2001



UM DOS FILMES MAIS PERTURBADORES DA HISTÓRIA DO CINEMA!!

TOLERÂNCIA ZERO (The Believer) EUA, 2001 – Direção Henry Bean – elenco: Ryan Gosling, Summer Phoenix, Billy Zane, Theresa Russell, Glenn Fitzgerald, Joshua Harto, Judah Lazarus – 100 minutos.

Na época do seu lançamento, o filme foi marqueteado como a história de um judeu nazista, mas o resultado supera com folga a publicidade. Seu protagonista não é uma aberração patológica, histórica e cultural por, como nos sugere sua aparente esquizofrenia, viver a traumática fissura entre origem e opção. Estudante da Torá na adolescência, Danny Balint (Ryan Gosling), é líder de uma gangue de skinheads. Veste uma camiseta estampada com uma suástica, espanca judeus pelas ruas e colabora com uma organização fascista. Embora entre em cena com olhar de psicopata e beicinho de monstro adestrado pela Gestapo, o personagem vai sendo relativizado até o ponto de expor os meandros de sua linha de raciocínio. Acompanhando os movimentos de sua mente, mas também a inclusão de flash-backs (alguns deles diluidores da carga dramática), conhecemos as razões de sua ruptura com o judaísmo. Basicamente, é teológica. Ele rejeita a visão de um Deus cujo poder é sobretudo opressor. Apóia-se na passagem bíblica em que, para revelar sua onipotência, o Criador pede a Abraão o sacríficio do filho, Isaac. Não suporta a passividade de Abraão no episódio e não tolera a não reação dos judeus na Segunda Guerra Mundial.



A maioria dos críticos viu no filme apenas mais uma denúncia contra a intolerância, mas não é. Trata-se de um estudo sobre a similaridade de campos opostos em seus postulados hierarquizantes. Entre a raça pura pretendida por Hitler e a superioridade do "povo escolhido" não há diferença de fundamento. A história é toda baseada num fato verídico - um integrante judeu da Ku Klux Klan, que em 1967, em Nova York, matou-se um dia depois de ter sido desmascarado pelo The New York Times. Antes de rodar o filme, Henry Bean, o diretor, ensaiou-o em um curta em 16mm, Thousand, mas com outro elenco. Sabia estar diante de terreno explosivo e queria sentir-se preparado para pisar nele. Seu esforço e coragem foi premiado no Sundance Festival de 2001.



TOLERÂNCIA ZERO emprega uma textura visual granulada, um dos chavões estéticos dos filmes independentes da segunda metade dos anos 1990, pós Dogma 95, mas o faz de modo a potencializar o impacto narrativo. Está a serviço de um tema que, em seu desenvolvimento, jamais se torna plano. Não são poucas as arestas na trajetória pela mente e pelas ações de Balint. Ora parece um maluco para o qual não se deve dar nenhum crédito. Ora abre a boca para provocar ouvidos e cerébros. Em um das sequências, diz a executivos fascistas, embora com outras palavras: "Os judeus se fortalecem no sofrimento. Precisam ser perseguidos. Se Hitler não existisse, eles o criariam". A frase remete ao monólogo final de Kedma, de Amos Gitai, no qual se fala da força extraída da vitimização. Henry Bean evita julgar essa ou aquela postura de seu protagonista. Não faz nenhuma questão de reprová-lo ou legitimá-lo. Mantém-se distante, observador, mas não imparcial. Pois, ao fugir de uma visão unidimensional do personagem, faz sua escolha. O alvo não são os fascistas, e os coitadinhos não são os judeus. Um lado e outro se confundem pelo fundamentalismo. E se essa confusão não é esclarecida de forma didática isso só torna seu filme mais interessante para ser discutido.



TOLERÂNCIA ZERO é um filme verborrágico como poucos e corajoso também. Ao perfilar um protagonista perturbado mas extremamente talentoso, o longa acabou gerando enorme polêmica no meio cinematográfico norte-americano. Depois de ser exibido, no Festival de Sundance, em 2001, o trabalho gerou uma onda de protestos de cinéfilos que viam o filme como perigoso, pois poderia influenciar cabecinhas mais fracas por parecer, na superfície, um libelo fascista. Mas só na superfície. A mensagem de “Tolerância Zero” é completamente oposta e, depois de muita batalha por parte dos realizadores, a obra acabou lançada comercialmente, quase um ano depois. É interessante perceber que ninguém jamais questionou a qualidade do filme de Henry Bean. “Tolerância Zero” venceu o prêmio do júri em Sundance, conseguiu uma vitória consagradora em várias categorias do Spirit Award (premiação importante do circuito independente nos EUA) e ganhou fartos elogios da crítica. Esses elogios, porém, sempre vinham acompanhados de advertências. Temia-se que o filme pudesse despertar uma onda de fúria anti-semita, por conta do discurso surpreendentemente bem articulado de Danny Balint.



Nada disso aconteceu, em parte porque o filme ficou muito tempo na geladeira. O canal a cabo Showtime o comprou e depois cancelou a exibição, após os atentados de 11 de setembro de 2001. A distribuição só aconteceu meses depois, em salas limitadas. Uma pena. Se mais crédito fosse dado ao longa-metragem, o público teria sido presenteado com um dos personagens mais bem construídos dos últimos tempos – e, por conseqüência, com um dos mergulhos mais profundos nos medos, desejos e hesitações de uma figura emblemática. Tudo isso faz de “Tolerância Zero” um filme excelente. Os momentos mais fascinantes são, sem dúvida, (além da interpretação soberba e excepcional de Ryan Gosling, defendendo o papel principal com uma ferocidade inesgotável), os longos discursos do rapaz. A trama do filme é pontual e secundária, já que interessa muito mais ao cineasta enfocar o conflito interno do protagonista e o diretor faz isso de maneira admirável. A trama também lembra muito outros dois grandes filmes imortais – CLUBE DA LUTA (1999) e A OUTRA HISTÓRIA AMERICANA (1998). A diferença entre esses dois filmes é que “Tolerância Zero” escolhe o caminho mais difícil e jamais escorrega para uma redenção pura e simples dos pecados do protagonista. Sim, isso acontece, mas de uma forma complexa e jamais maniqueísta, muito apropriada para o desenvolvimento da história. O enredo desemboca, aliás, num final ambíguo e muito original. São muitos predicados para um filme que serve tanto como lição de oratória quanto como libelo anti-racista. UM DOS MELHORES FILMES DA DÉCADA!! OBRIGATÓRIO!!