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quarta-feira, 30 de novembro de 2016

A BRUXA (The Witch: A New-England Folktale) EUA / Canadá / Inglaterra, 2015 – Direção Robert Eggers – elenco: Anya Taylor-Joy, Ralph Ineson, Kate Dickie, Harvey Scrimshaw, Ellie Grainger, Lucas Dawson, Julian Richings, Bathsheba Garnett, Sarah Stephens, Wahab Chaudhry, Axtun Henry Dube, Athan Conrad Dube, Viv Moore, Brandy Leary – 92 minutos

     UMA HISTÓRIA PERTURBADORA DE TOCAR O LADO SOMBRIO DA ALMA


Na primeira imagem de A BRUXA, a família principal é apresentada de costas. Um tribunal acusa-os de heresia, expulsando pai, mãe e cinco crianças da comunidade. Estamos em pleno século XVII, na Nova Inglaterra, onde qualquer desvio da religiosidade padrão é interpretado como grave ameaça ao funcionamento social. Ou seja, a bruxa do título pode ser tanto a figura concreta da feiticeira quanto a metáfora do elemento dissonante, perseguido pela comunidade, como se diz na expressão “caça às bruxas”. A exclusão do núcleo familiar desencadeia os eventos assustadores do filme. O diretor e roteirista estreante Robert Eggers faz um ótimo trabalho ao associar religiosidade e misticismo, cristianismo e natureza. Por um lado, esta família de moral rígida acredita nas forças malignas que vivem na floresta, por outro lado, carrega em si a culpa típica da moral cristã: se a colheita de milho não dá certo, julgam-se punidos por algum pecado; se alguém desaparece, acreditam num castigo divino etc. Um dos fatores mais interessantes da narrativa é sua plausibilidade, já que a paranoia não provém de sustos ou sombras à noite, e sim de um fator essencial, a culpabilidade que os personagens carregam consigo desde o nascimento.


A BRUXA é um manifesto político de afirmação do Feminino;  é uma alegoria uterina capaz de expressar, em sua viagem pelo pântano da fantasia, todos os traumas da submissão das mulheres. Atuações primorosas, sobretudo a de Anya Taylor-Joy, alternam espaço com um personagem para entrar na História das Trevas: Black Phillip, sobre o qual não se pode falar muito. Porém, o que mais rende solidez ao filme é a reflexão nas entrelinhas sobre a opressão das mulheres, ao longo dos séculos, caracterizada a partir de uma Nova Inglaterra (de cores lavadas) de excomunhões, paganismos e de feitiçarias do século XVII. O diretor caminha na referência de dois pensadores cinematográficos da Fé e do ardor das fêmeas – o Ingmar Bergman de A FONTE DA DONZELA (1960) e o Carl Theodor Dreyer de A PALAVRA (1955) – para fazer uma metafísica da culpa e do revanchismo.


Há inspirações nos contos dos Irmãos Grimm, como Chapeuzinho Vermelho, João e Maria, até uma Branca de Neve bem sutil. Além dos Grimm, há referências a lobisomem ou mesmo Adão e Eva e a maçã do pecado original que separou o homem das grandes verdades do conhecimento da natureza, como o mistério acerca dos animais, há de exemplo os corvos e o bode ‘Black Philip’. Outra analogia muito interessante é com os sete pecados capitais, parecendo que em determinado momento cada membro da família isolada é testado por algum dos pecados, que se volta contra eles mesmos e uns contra os outros, como uma grande crítica à fé cega amparada numa religião castradora em cima do pecado e da culpa, muito bem representado na ótima empostação vocal do patriarca interpretado por Ralph Ineson. E é neste sentido que o feminismo da personagem central da filha mais velha, pelos olhos da qual tudo se passa, começa a se fazer valer como um ponto de virada, e as suspeitas e acusações faz com que cada um mostre suas verdadeiras faces num grande pesadelo: Por esses elementos, o filme traz referências de três filmes extraordinários: AS BRUXAS DE SALEM, de Nicholas Hytner (1996), mas molda sua estrutura bebendo também de A FITA BRANCA, de Michael Haneke (2009) e O ILUMINADO, de Stanley Kubrick (1980). A BRUXA é um filme de terror menos preocupado com sustos do que com a ideia de explorar a escuridão dos indivíduos que habitam seu mundo. Durante a maior parte da projeção, o “terror” que define o gênero surge não em forma de espíritos malignos, zumbis devoradores de cérebro ou mesmo de bruxas literais, mas de dentro de seus personagens, manifestando-se na forma de estupidez, superstições e fundamentalismo religioso.UM FILME OBRIGATÓRIO, ASSUSTADOR E QUE MEXE COM O LADO SOMBRIO DA ALMA!!!!


segunda-feira, 28 de novembro de 2016

MEU AMIGO, O DRAGÃO (Pete’s Dragon) EUA, 2016 – Direção David Lowery – elenco: Bryce Dallas Howard, Robert Redford, Oakes Fegley, Oona Laurence, Karl Urban, Wes Bentley, Marcus Henderson, Aaron Jackson, Isiah Whitlock Jr., Steve Barr, Phil Grieve, Keagan Carr Fransch, Jade Valour, Francis Biggs, Levi Alexander – 103 minutos

                   UM FILME QUE É QUASE UM MITO SOBRE ADOÇÃO!!!!


Nesta nova versão de “Meu Amigo, o Dragão” (Pete’s Dragon) - pois existe uma versão realizada em 1977 e desconhecida da geração atual – o diretor investiu mais na simbiose entre o garoto e o dragão, no sentido de um apoiar e se preocupar com o outro. Algo parecido com o sentimento existente entre um dono e seu animal de estimação querido, ainda mais porque este Elliot é mais uma espécie de “dragão-cachorro” – no comportamento – do que o gaiato brincalhão da versão original de 1977. Sem a estrutura de musical, nenhuma das canções originais escritas no filme anterior – entre elas, a mais conhecida é “It’s Not Easy”, que foi inclusive gravada em português num dueto por Roberto Carlos e a Turma do Balão Mágico intitulada “É Tão Lindo”, em 1984 – por Al Kasha, Joel Hirschhom e Irwin Kostal, indicados ao Oscar pelo trabalho, permanece na produção de 2016. No entanto, a opção pelo folk na trilha sonora do novo filme, com direito a Leonard Cohen, The Lumineers e música folclórica, integra-se bem ao novo cenário, já que sai a cidade litorânea de uma Nova Inglaterra de época e entra um vilarejo que parece cravado no nordeste norte-americano.  


Levando a sério o sentido de “remake”, David Lowery transforma o ingênuo musical de quase quarenta anos, de estética e narrativa típicas de cartoon, em uma fábula estruturada dentro de um conto mais realista para o Século XXI. Ou melhor, uma fantasia para tempos mais cínicos, onde só a magia dos super-heróis parece conquistar a geração atual, mas que prefere se dedicar às relações humanas e à dinâmica de amizade spielbergiana entre Pete (Oakes Fegley) e seu raro amigo animal do que demonstrações de pirotecnias visuais. Ao contrário, elas são usadas a favor da narrativa, como na sequência inicial do acidente em que o menino, então com quatro anos (na pele do expressivo Levi Alexander), fica órfão: o slow motion só acentua o caráter de aventura que os pais prometem a ele, embora a tragédia fique evidente no lirismo do recurso. Perdido na floresta, o garoto é logo protegido por um dragão, ao qual chama de Elliot, crescendo junto com ele naquele habitat não mais hostil. 

“Meu Amigo, o Dragão” é quase um mito sobre adoção e conquista pela sua delicadeza em tocar em assuntos como amizade, família, meio ambiente (com uma linda mensagem de preservação à natureza) e ganância. O filme consegue realizar momentos inspiradíssimos, entendendo que a fantasia e a aventura não estão apenas nos grandes acontecimentos e nos efeitos especiais, mas sim na construção de um momento que foge do real. E nesse resgate a um espírito de aventura, o filme também é capaz de reencontrar a sensibilidade, não tem medo de apostar num afeto que está sempre presente. É também sobre o reencontro familiar, e o Dragão é uma espécie de tutor para o menino, protegendo-o debaixo de suas asas. O filme revela toda inocência seja no seu clima despretensioso de aventura quanto na sua moral da história. Consegue ainda, resgatar um espírito quase perdido, uma sensação de aventura única e ao mesmo tempo em que é fantástica parece que só poderia acontecer ali, quase como um fato cotidiano. Encantador e tocante, vale o ingresso!!!!



sexta-feira, 25 de novembro de 2016

WARCRAFT – O PRIMEIRO ENCONTRO DE DOIS MUNDOS (Warcraft) EUA / Canadá, 2016 – Direção Duncan Jones – elenco: Travis Fimmel, Paula Patton, Ben Foster, Dominic Cooper, Ruth Negga, Ben Schnetzer, Toby Kebbell, Daniel Wu, Clancy Brown, Anna Galvin, Robert Kazinsky, Callum Keith Rennie, Glenn Close, Burkely Durffield, Ryan Robbins, Michael Adamthwaite, Callan Mulvey, Tommy Rieder, Dylan Schombing, Christian Sloan, Mackenzie Gray, Wesley MacInnes – 123 min 


     UM FILME QUE USA REALIDADE VIRTUAL PARA APONTAR O FUTURO



São vários os exemplos de games adaptados para o cinema que não passam de péssimas incursões. “Warcraft” veio com a missão de mudar esse histórico. O diretor Duncan Jones além de ser fã do jogo possui uma respeitável trajetória cinematográfica. Coube a ele a missão de realizar essa fantasia épica com grande responsabilidade e competência. Outro importante desafio para o cineasta era fazer um filme atraente para gamers e não-gamers. Diferentemente de “O Senhor dos Anéis”, aqui não há os humanos como heróis e os orcs como monstros. Existem heróis e vilões dos dois lados. Visualmente o filme impressiona muito, com cenas de batalhas espetaculares, com direito a tomadas aéreas de vilas invadidas por orcs. O roteiro se passa em um universo no qual os orcs estão prestes a invadir o mundo dos humanos, atravessando, para isso, um portal mágico invocado pelo maligno Gul’dan (Daniel Wu), e cuja “energia” surge apropriadamente no verde-esmeralda que, ao lado do roxo, é classicamente associado à ideia de morte e destruição. Para conter a ameaça, o rei Llane (Dominic Cooper) solicita a ajuda do guerreiro Lothar (Travis Fimmel), que, ao lado do jovem aprendiz de mago Khadgar (Ben Schnetzer), recorre ao Guardião (Ben Foster) por proteção. Enquanto isso, o orc Durotan (Toby Kebbell) questiona a liderança destrutiva de Gul’dan, usando a mestiça “orquisa” Garona (Paula Patton) como ponte para tentar estabelecer um pacto com os humanos. WARCRAFT propõe-se como experiência radical. Muitos podem até detestar, mas penetra num universo hiper-realista e detalhado que tem servido como fonte de experimentação para artistas visuais de ponta. Com uma trama básica, o filme cria diferentes pontos de vista para o espectador. Vale o ingresso!!!!



quarta-feira, 23 de novembro de 2016

CANÇÃO DO SOL DA MEIA-NOITE (Song of Norway) EUA, 1970 – Direção Andrew L. Stone – elenco: Toralv Maurstad, Florence Henderson, Frank Porretta, Christina Schollin, Harry Secombe, Oskar Homolka, Robert Morley, Edward G. Robinson, Henry Gilbert, Richard Wordsworth, Elizabeth Larner, Frederick Jaeger, Bernard Archard – 138 min

   UMA BELA HISTÓRIA DE AMOR NOS CENÁRIOS MAIS LINDOS DO MUNDO!!!!


Este musical conta a vida de três amigos de infância: Edvard Grieg (Toralv Maurstad), Nina Grieg (Florence Handerson) e Rikard Nordraak (Frank Porretta). Rikard é um poeta, Edvard um compositor, e Nina tem a mais bela voz da região.  Edvard Grieg vive na pobreza após se graduar no conservatório de música, e escandaliza a sua família quando casa com sua prima Nina. Ele desenvolve um romance com sua amiga Therese Berg (Christina Schollin), uma rica mulher que faz um trato com o seu influente pai - em troca do término do romance, ele deverá arranjar um concerto para Grieg em Estocolmo. Quando finalmente viaja para Roma, é que ele começa a ter seus dotes como compositor verdadeiramente apreciados. Mas o romance, na verdade, nunca foi completamente terminado, e o auto-sacrifício da apaixonada Nina é sempre superado pelos ricos e grandes presentes de Therese. Será que algum dia esse casamento que começou com um escândalo familiar, conseguirá realmente virar um verdadeiro amor? O filme vale pelo elenco que embala uma história bonita, pelas paisagens lindíssimas e deslumbrantes da Noruega e pelos inesquecíveis números musicais. Um filme raro que marcou época!!!! 



sexta-feira, 18 de novembro de 2016

AS MARAVILHAS (Le Meraviglie) Itália / Suíça / Alemanha, 2014 – Direção Alice Rohrwacher – elenco: Sam Louwyck, Alba Rohrwacher, Maria Alexandra Lungu, Monica Bellucci, Sabine Timoteo, Luis Huilca, Agnese Graziani, André Hennicke, Eva Lea Pace Morrow, Maris Stella Morrow, Carlo Tamarti, Margarete Tiesel – 110 minutos

                    NADA PERMANECERÁ IGUAL AO FIM DESSE VERÃO


Povoado de elementos autobiográficos, AS MARAVILHAS, o terceiro filme da cineasta italiana, Alice Rohrwacher, é uma obra de inegável relevância, sobre a passagem da infância para a adolescência, narrado do ponto de vista essencialmente feminino. E que encontra beleza na forma simples com que consegue transformar todos esses elementos em bom cinema. Todo rodado na região onde a diretora cresceu – interior da Itália, entre a Umbria e a Toscana – e tem como protagonistas uma família “duplo sangue” (mãe italiana, pai alemão), que se sustenta da criação de abelhas e produção de mel. Aqui a infância tem um ar adocicado para as filhas mais novas, mas para a primogênita Gelsomina (interpretada com perfeição por Maria Alexandra Lungu), que vive no campo com sua numerosa família, a conversa é outra. 


Ela age e é reconhecida como a cabeça da família, aquela que coordena e é responsável por todas as tarefas que os pais delegam. A vida no campo não tem nada a ver com férias, como o pai aponta mais de uma vez. O trabalho é árduo e a ajuda é necessária, mas a menina parece sobrecarregada com obrigações e expectativas em cima dela. Muito disso, se deve à figura do pai que fala três línguas diferentes, às vezes em uma mesma sequência. Sam Louwyck interpreta o pai e passa bem o sentimento de sonhador e ao mesmo tempo tímido, mas que tem orgulho da família e de seu mel. Ele protagoniza boas cenas com Alba Rohrwacher (irmã da diretora e que faz a mãe das meninas) e Sabine Timoteo (a cunhada agregada) na clássica dinâmica de família italiana confusa e barulhenta.  A relação entre pai e filha é muito próxima, e, mesmo com arroubos de gritos e brigas, ele não consegue esconder a predileção que tem por ela com um presente inusitado. É quando Gelsomina vê uma esperança para si e sua família com a chegada de um programa de televisão que busca premiar os principais agricultores do interior. Há um toque felliniano quando entra em cena a grande diva italiana, Monica Bellucci, fazendo a fada madrinha do programa televisivo e também na personagem principal, Gelsomina – o mesmo nome da personagem de Giulieta Masina, em “A Estrada da Vida” (1954). Uma grande homenagem a Federico Fellini. É importante verificar como a cineasta impressiona com a capacidade de colocar o espectador como um acompanhante do dia-a-dia de Gelsomina. 


Ao escolher tocar a lente na jovem Maria Alexandra Lungu, a diretora explora cenas que guardam bastante proximidade com pinturas renascentistas, tal como “Moça com Brinco de Pérola”, de Vermeer. Isso condiz com o cenário cheio de afazeres que ela tem e o espaço para certo encantamento encapsulado na presilha de cabelo que ela ganha da apresentadora de televisão, que a renomada atriz Monica Bellucci faz com suavidade e leveza, possibilitando fazer referência ao “Nascimento de Vênus”, de Botticelli. A vida de Gelsomina, e de sua família, sofre uma mudança radical com a chegada do garoto alemão Martin, menino problemático que faz parte de um programa do governo de reabilitação, e que é de certa forma adotado pelo patriarca e passa a trabalhar na casa. Gelsomina e Martin desenvolvem uma relação de cumplicidade que é focada totalmente no silêncio, uma vez que o jovem praticamente não fala. O pai de Gelsomina se beneficia duplamente com a adoção de Martin, pois além de receber uma quantia por cuidar do menino, este acaba se tornando a materialização das projeções que tanto possuía para um descendente masculino.   A capacidade da cineasta de produzir um sentimento de memória, recorrendo a elementos bastante sensoriais, é o que torna a experiência desse pequeno filme bastante especial. A escolha por filmar em película, na hoje raríssima 16 milímetros, que acentua os grãos da imagem projetada na tela grande, só reforça a sensação de memória. AS MARAVILHAS é um filme simples, porém profundo e recheado de simbologias e sutilezas; e rico em imagens de beleza naturalista. Foi premiado com o Grande Prêmio do Júri em 2014 no Festival de Cannes. 


quinta-feira, 17 de novembro de 2016

EU TRANSO... ELA TRANSA – Brasil, 1972 – Direção Pedro Camargo – elenco: Sandra Barsotti, Marcos Paulo, Jorge Dória, Darlene Glória, Rodolfo Arena, Daisy Lúcidi, o cantor Marcello, Fernando Torres, Suzy Arruda, Orlandivo, Sadi Cabral, Rose Di Primo, Mary Daniel, Moacyr Deriquém, Almir Gurgel, Arthur Maia, Abel Pera, Luiz Tadeu, Leda Zeppelin – 100 min

UMA PEQUENA CRÔNICA DA FAMÍLIA BRASILEIRA!!!!


O cinema brasileiro dos anos 1970 foram marcados por movimentos como a pornochanchada e muitos filmes da melhor qualidade. EU TRANSO... ELA TRANSA, dirigido por Pedro Camargo, faz parte dessa época e desse contexto cultural. A sinopse discorre sobre Roberto (Jorge Dória), um executivo de 45 anos, que mora na Zona Sul do Rio de Janeiro, é um chefe de família sempre bem disposto e com a simpatia peculiar a certos homens de negócio que costumam resolver facilmente todos os problemas. Vivem ao seu lado a Dedé, sua mulher (Daisy Lúcidi); Maria Inês, a cunhada solteirona e antiquada (Suzy Arruda); Afonso, o sogro aposentado, que perambula pela casa numa cadeira de rodas, criticando tudo e todos (Rodolfo Arena); Carlinhos, o filho mais velho, garotão de Ipanema, que jamais enfrentou qualquer problema na vida (o saudoso Marcos Paulo); Vanda, a filha de 17 anos, que começa a sentir o problema da afirmação pessoal (Rose di Primo); e Kiko, de 14 anos, ainda completamente inconsequente (o cantor Marcello). O filme é baseado na peça teatral “Copacabana S/A”, de Jota Gama. Financiado parcialmente pela Embrafilme, o filme contou com produção executiva de ninguém menos do que Mozael Silveira – este intrépido mártir do cinema popular –, agregado do clã Faria (responsável pela R.F.F. Produções Cinematográficas, Refefê). “Eu Transo... Ela Transa” constrói uma pequenina crônica da família brasileira, quando os bifes do jantar eram consumidos no centro da mesa, os integrantes reunidos, mas já se percebia o dilúvio dessa fragmentação que teimou em crescer. Um filme delicioso de se ver e curtir!! Merece ser conferido!!





terça-feira, 15 de novembro de 2016

O REGRESSO (The Revenant) EUA, 2015 – Direção Alejandro González Iñárritu – elenco: Leonardo Di Caprio, Tom Hardy, Domhnall Gleeson, Will Poulter, Forrest Goodluck, Lukas Haas, Paul Anderson, Brendan Fletcher, Robert Moloney, Arthur RedCloud, Joshua Burge, Christopher Rosamond, Fabrice Adde – 156 min
                UM VERDADEIRO EXERCÍCIO DE CONTEMPLAÇÃO!!!!

O diretor Alejandro Iñárritu apresenta uma de suas obras mais audaciosas e impactantes. Seu cinema sempre foi selvagem e visceral, basta lembrar de suas obras anteriores. Aqui em O REGRESSO (The Revenant) é essencial notar como nada é mais brutal do que o próprio ecossistema natural. O homem, nesse mundo, é um mero carro desgovernado à mercê do clima, de outros animais e, porque não, de sua própria espécie, facilmente sem um papel em um mundo vasto e perigoso. Este grande filme conta a história do caçador de peles, Hugh Glass (Leonardo DiCaprio), por volta de 1820, que estava trabalhando com um grupo de caçadores de peles do Forte Kiowa, localizado perto do Rio Missouri, no atual Estado de Dakota do Sul, comandado pelo capitão Andrew Henry (Domhnall Gleeson). Glass parece ter se integrado bem aos índios Pawnee, tendo inclusive uma mulher e um filho, Hawk (Forrest Goodluck). Ao retornarem da última caça, o grupo liderado por Henry acaba sendo atacado por índios Arikara. Eles querem o carregamento de peles. Os sobreviventes do ataque conseguem fugir subindo no barco com alguns dos fardos do carregamento. Porém, Glass aconselha ao capitão para abandonarem o barco antes que fossem emboscados pelos índios. Um dos integrantes, Fitzgerald (Tom Hardy), que já não ia com a cara de Glass, não gosta nada dessa ideia.

Visceral, o filme não poupa o público de sua selvageria. São muitos cortes explícitos, dedos arrancados, flechadas certeiras e machucados mortais. Um dos grandes trunfos de O REGRESSO é transformar todo esse martírio em poesia. Há muito lirismo e a beleza estética como cinematografia é esplendorosa. Iñárritu é um cineasta autoral e o seu fotógrafo, Emannuel Lubezki, sempre testa seus próprios limites. Com isso, a obra é recheada de planos-sequência já característicos dos nomes envolvidos que agregam valor artístico à obra. O combate inicial, em especial, chama a atenção pelo nível técnico e pela perfeita execução de dias e mais dias de exaustivos ensaios. Filmes que se exigem tanto assim e se esforçam para sair do lugar comum merecem ser vistos com muita atenção. A proposta do diretor de fotografia, Emmanuel Lubezki é a mais clara possível: o realismo pelo realismo. Eis que assim surge uma das experiências mais audaciosas da cinematografia: gravar o filme inteiro apenas com luz natural. Tem-se apenas o domínio do homem sobre a câmera e a técnica cinematográfica. Esse fator foi um dos mais importantes para tornar a fotografia do filme em algo magnífico.

Leonardo Di Caprio com certeza mereceu o Oscar de Melhor Ator do ano, mas acredito que ele ganhou também pelo alto padrão que vem apresentando em diversos outros filmes. Na verdade, foi um prêmio de reconhecimento pelo conjunto de sua obra. Mas há que se destacar que ele é o fio condutor da produção e entrega uma performance inesquecível e absolutamente estupenda. Tom Hardy, que desponta cada vez mais como um ator de alto nível, é muito mais do que apenas o vilão. Trata-se de um homem complexo, com medos e objetivos. Ele complementa o personagem de forma assustadora como se tivesse nascido para o papel. Fora que é um personagem frustrado e recalcado com Glass por não assumir o protagonismo que almeja dentro do grupo. Além de Leonardo DiCaprio e Tom Hardy, há performances excelentes de Domhnall Gleeson e Will Poulter, que encarnam os melancólicos Andrew Henry e Jim Bridger, que surgem com atuações intensas e bem desenvolvidas. 


O REGRESSO é um dos grandes filmes lançados em 2016, um trabalho subjetivo, um verdadeiro exercício de contemplação que tenta provocar uma experiência cinematográfica impactante e extraordinária. Sobre o lado selvagem irracional inerente à nossa violenta existência, é uma obra ainda mais radical sobre o homem, sua luta para sobreviver e seu desejo por vingança. Trata-se da selvageria indomável da natureza do ser. A luta pela sobrevivência é parte importante da história, mas não mais importante que a poesia visual. O espectador é confrontado com cenas absolutamente brutais e muito realistas, mas o que fica mesmo é o belo e o arrebatador. Em 1971, essa fantástica história de sobrevivência e vingança originou o filme FÚRIA SELVAGEM (A Man in the Wilderness), com Richard Harris. O REGRESSO tem momentos notáveis, como a neutralidade da natureza, bela e implacável, com árvores filmadas a partir do solo, distantes como deuses. O mundo é quase amoral, reduzido a instintos primários, muita violência, e um ambiente onde todos são lobos de todos. É um dos mais belos filmes dos últimos dez anos. É um filme que nasce da dimensão trágica e banal da existência; é uma obra tensa, arrebatadora e deslumbrante, que traz uma atuação poderosa de um dos maiores e mais importantes atores da atualidade.