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sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

OS DESCENDENTES (The Descendants) EUA, 2011



OSCAR 2012

OS DESCENDENTES (The Descendants) EUA, 2011 – Direção Alexander Payne – elenco: George Clooney, Judy Greer, Shailene Woodley, Amara Miller, Matthew Lillard, Robert Foster, Beau Bridges – 115 minutos.

Um belo exemplo de como fazer bom cinema usando o cotidiano das pessoas como matéria-prima. Honesto e realista, consegue fazer rir e chorar sem recair nos lugares-comuns típicos dos filmes do gênero drama familiar. É um trabalho belíssimo e eficiente versando sobre a condição humana e a capacidade nossa de encontrar humor e alento diante das mais atrozes adversidades. Um filme sobre resistência, sobre o ímpeto de ir adiante apesar dos inevitáveis (e muitas vezes inexoráveis) reveses da vida. Por isso, fica impossível não se identificar com as emoções vividas pelos personagens, que conquistam o espectador desde o começo de sua exibição. O modo como a personagem de Clooney vai lidando com as adversidades é uma lição de sutileza cinematográfica. O diretor Alexander Payne é um mestre na arte de trafegar com eficiência entre as fronteiras da comédia e drama. Ele optou por contar uma pequena história, mas não menos comovente e pungente. E o fez com rara eficiência. A trama é conduzida por seus personagens. É neles que está a história. O espectador vai vê-los aprendendo a lidar com a dor, com o momento de dizer adeus, com a perda. Vai viver esse filme através deles e suas idiossincrasias. George Clooney é a estrela do filme, conduzindo seu papel com destreza, comedimento e elegância.



No filme, Clooney interpreta Matt King, um dos descendentes do título. Ele e seus primos herdaram de seus ancestrais centenas de hectares de terras que um dia pertenceram à realeza havaiana. Mas enquanto a maioria deles não trabalha, vivendo apenas desta renda, Matt é um advogado e também o responsável legal por gerir tudo o que sobrou do espólio. Às vésperas de fechar um acordo imobiliário de meio bilhão de dólares, sua esposa sofre um acidente de barco e entra em coma. A situação leva Matt a se reaproximar de suas filhas e repensar seu passado e futuro. Como nos diz Matt em sua primeira interação com o público, o filme também se presta a mostrar um Havaí diferente do paraíso dos resorts de luxo que sempre se vê nos filmes e séries, ou das disputas entre locais e "haoles", como eles chamam os estrangeiros. Existe também a interessante missão não declarada de mostrar ainda que, sim, todo mundo por lá usa camisa havaiana, mesmo em eventos sociais. A forma praticamente invisível com que Payne comanda o longa-metragem quase nos faz esquecer que estamos no cinema. A trama, que já tem elementos fáceis de se encontra nos cotidianos de qualquer um, se desenrola também como a vida, deixando tudo muito fácil de degustar, até mesmo as partes mais amargas - que não são poucas.



A relação pai-filhas do trio formado por Matt, Scottie (Amara Miller) e Alex (Shailene Woodley) leva do riso ao choro sem causar estranheza, nem parecer forçado. Afinal, qual menina de 10 anos não está perdida na sua passagem da infância para a puberdade, ou qual adolescente não quer curtir a vida de quase adulto que está ali na esquina, mas não tem paciência de esperar chegar lá? Com tantas reflexões, o filme leva ao seu grande destino, o autodescobrimento. É na hora de pegar a filha mais nova na escola que o pai percebe que não existe na sua memória uma lembrança recente de ter feito isso em muito tempo. É ali no hospital, ao ver a mãe paralisada na cama do hospital, que a filha percebe o quanto é parecida com a mãe que ela se acostumou a destratar. O diretor sintetiza a diversidade e complexidade do ser humano em seu trabalho. Sem sombra de dúvida é o mais maduro dos seus filmes em clareza narrativa. Inspirador, o filme mostra que não basta ter uma boa história em mãos, é preciso saber transformá-la em experiência de cinema. Um desses filmes que são para sempre!! Indicado a vários prêmios no Oscar 2012, incluindo Melhor Filme do Ano e Melhor Ator para George Clooney. Já desponta na lista dos melhores lançamentos de 2012. Imperdível!!


quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

TOLERÂNCIA ZERO (The Believer) EUA, 2001



UM DOS FILMES MAIS PERTURBADORES DA HISTÓRIA DO CINEMA!!

TOLERÂNCIA ZERO (The Believer) EUA, 2001 – Direção Henry Bean – elenco: Ryan Gosling, Summer Phoenix, Billy Zane, Theresa Russell, Glenn Fitzgerald, Joshua Harto, Judah Lazarus – 100 minutos.

Na época do seu lançamento, o filme foi marqueteado como a história de um judeu nazista, mas o resultado supera com folga a publicidade. Seu protagonista não é uma aberração patológica, histórica e cultural por, como nos sugere sua aparente esquizofrenia, viver a traumática fissura entre origem e opção. Estudante da Torá na adolescência, Danny Balint (Ryan Gosling), é líder de uma gangue de skinheads. Veste uma camiseta estampada com uma suástica, espanca judeus pelas ruas e colabora com uma organização fascista. Embora entre em cena com olhar de psicopata e beicinho de monstro adestrado pela Gestapo, o personagem vai sendo relativizado até o ponto de expor os meandros de sua linha de raciocínio. Acompanhando os movimentos de sua mente, mas também a inclusão de flash-backs (alguns deles diluidores da carga dramática), conhecemos as razões de sua ruptura com o judaísmo. Basicamente, é teológica. Ele rejeita a visão de um Deus cujo poder é sobretudo opressor. Apóia-se na passagem bíblica em que, para revelar sua onipotência, o Criador pede a Abraão o sacríficio do filho, Isaac. Não suporta a passividade de Abraão no episódio e não tolera a não reação dos judeus na Segunda Guerra Mundial.



A maioria dos críticos viu no filme apenas mais uma denúncia contra a intolerância, mas não é. Trata-se de um estudo sobre a similaridade de campos opostos em seus postulados hierarquizantes. Entre a raça pura pretendida por Hitler e a superioridade do "povo escolhido" não há diferença de fundamento. A história é toda baseada num fato verídico - um integrante judeu da Ku Klux Klan, que em 1967, em Nova York, matou-se um dia depois de ter sido desmascarado pelo The New York Times. Antes de rodar o filme, Henry Bean, o diretor, ensaiou-o em um curta em 16mm, Thousand, mas com outro elenco. Sabia estar diante de terreno explosivo e queria sentir-se preparado para pisar nele. Seu esforço e coragem foi premiado no Sundance Festival de 2001.



TOLERÂNCIA ZERO emprega uma textura visual granulada, um dos chavões estéticos dos filmes independentes da segunda metade dos anos 1990, pós Dogma 95, mas o faz de modo a potencializar o impacto narrativo. Está a serviço de um tema que, em seu desenvolvimento, jamais se torna plano. Não são poucas as arestas na trajetória pela mente e pelas ações de Balint. Ora parece um maluco para o qual não se deve dar nenhum crédito. Ora abre a boca para provocar ouvidos e cerébros. Em um das sequências, diz a executivos fascistas, embora com outras palavras: "Os judeus se fortalecem no sofrimento. Precisam ser perseguidos. Se Hitler não existisse, eles o criariam". A frase remete ao monólogo final de Kedma, de Amos Gitai, no qual se fala da força extraída da vitimização. Henry Bean evita julgar essa ou aquela postura de seu protagonista. Não faz nenhuma questão de reprová-lo ou legitimá-lo. Mantém-se distante, observador, mas não imparcial. Pois, ao fugir de uma visão unidimensional do personagem, faz sua escolha. O alvo não são os fascistas, e os coitadinhos não são os judeus. Um lado e outro se confundem pelo fundamentalismo. E se essa confusão não é esclarecida de forma didática isso só torna seu filme mais interessante para ser discutido.



TOLERÂNCIA ZERO é um filme verborrágico como poucos e corajoso também. Ao perfilar um protagonista perturbado mas extremamente talentoso, o longa acabou gerando enorme polêmica no meio cinematográfico norte-americano. Depois de ser exibido, no Festival de Sundance, em 2001, o trabalho gerou uma onda de protestos de cinéfilos que viam o filme como perigoso, pois poderia influenciar cabecinhas mais fracas por parecer, na superfície, um libelo fascista. Mas só na superfície. A mensagem de “Tolerância Zero” é completamente oposta e, depois de muita batalha por parte dos realizadores, a obra acabou lançada comercialmente, quase um ano depois. É interessante perceber que ninguém jamais questionou a qualidade do filme de Henry Bean. “Tolerância Zero” venceu o prêmio do júri em Sundance, conseguiu uma vitória consagradora em várias categorias do Spirit Award (premiação importante do circuito independente nos EUA) e ganhou fartos elogios da crítica. Esses elogios, porém, sempre vinham acompanhados de advertências. Temia-se que o filme pudesse despertar uma onda de fúria anti-semita, por conta do discurso surpreendentemente bem articulado de Danny Balint.



Nada disso aconteceu, em parte porque o filme ficou muito tempo na geladeira. O canal a cabo Showtime o comprou e depois cancelou a exibição, após os atentados de 11 de setembro de 2001. A distribuição só aconteceu meses depois, em salas limitadas. Uma pena. Se mais crédito fosse dado ao longa-metragem, o público teria sido presenteado com um dos personagens mais bem construídos dos últimos tempos – e, por conseqüência, com um dos mergulhos mais profundos nos medos, desejos e hesitações de uma figura emblemática. Tudo isso faz de “Tolerância Zero” um filme excelente. Os momentos mais fascinantes são, sem dúvida, (além da interpretação soberba e excepcional de Ryan Gosling, defendendo o papel principal com uma ferocidade inesgotável), os longos discursos do rapaz. A trama do filme é pontual e secundária, já que interessa muito mais ao cineasta enfocar o conflito interno do protagonista e o diretor faz isso de maneira admirável. A trama também lembra muito outros dois grandes filmes imortais – CLUBE DA LUTA (1999) e A OUTRA HISTÓRIA AMERICANA (1998). A diferença entre esses dois filmes é que “Tolerância Zero” escolhe o caminho mais difícil e jamais escorrega para uma redenção pura e simples dos pecados do protagonista. Sim, isso acontece, mas de uma forma complexa e jamais maniqueísta, muito apropriada para o desenvolvimento da história. O enredo desemboca, aliás, num final ambíguo e muito original. São muitos predicados para um filme que serve tanto como lição de oratória quanto como libelo anti-racista. UM DOS MELHORES FILMES DA DÉCADA!! OBRIGATÓRIO!!

domingo, 22 de janeiro de 2012

ENTRE SEGREDOS E MENTIRAS (All Good Things) EUA, 2010



ERA A HISTÓRIA DE AMOR PERFEITA... ATÉ SE TORNAR NO CRIME PERFEITO!!

ENTRE SEGREDOS E MENTIRAS (All Good Things) EUA, 2010 – Direção Andrew Jarecki – elenco: Ryan Gosling, Kirsten Dunst, Frank Langella, Lily Rabe, Phillip Baker Hall, Michael Esper, Nick Offerman, Kristen Wiig – 101 minutos.

Baseado numa história real, envolvendo o filho de um empresário do ramo imobiliário de Nova York e seu turbulento relacionamento com uma jovem que não admite ser aprisionada pelo casamento, o filme marca a estréia na direção de Andrew Jarecki, conhecido pelo documentário "Na Captura dos Friedmans" (2003), sobre um pai de família acusado de molestar crianças. Deixe um pouco de lado a história de amor que marca o início do filme, pois, como no documentário de 2003, Jarecki está mais interessado no lado sombrio e dúbio do ser humano. No caso, o de David Marks (Ryan Gosling, um dos melhores atores da atualidade), que vive o espírito libertário dos anos 1970 e hesita em assumir um papel mais ativo na empresa do pai, Sanford Marks (Frank Langella). David era portador de algum transtorno psiquiátrico, cujo início se deu na sua infância quando ele tinha 3 anos de idade e testemunhou o suicídio de sua mãe na garagem de casa. Seu pai não o tirou do local com a idéia que isso iria dissuadir a sua mãe de dar um fim à vida. O filme cobre o período de 1971 a 2003, período em que David já era adulto, e conhece Katie (Kirsten Dunst) com quem se casará.



O pai comanda um esquema de cobrança de aluguéis de casas noturnas, clubes de strip-tease, casas de massagem e apartamentos baratos na mal afamada Rua 42. Katie (Kirsten Dunst) mora num desses apartamentos baratos de seu pai e ao casar vai morar com David. Tudo parece caminhar para a felicidade do casal. David continua querendo se envolver nos negócios nebulosos do pai, enquanto Katie, que vem de uma família bem-estruturada, luta para realizar o sonho de estudar medicina. Ambos chegam a abrir uma loja de produtos orgânicos no melhor estilo hippie de voltar à natureza. Mas David começa a apresentar mudanças em seu comportamento, mostrando-se agressivo e pouco tolerante com Katie. Ele decide trabalhar com o pai, mas parece muito pouco confortável com a tarefa de arrecadar o dinheiro dos aluguéis. O ambiente doméstico não é mais o mesmo do início do casamento. A tensão entre os dois personagens passa a conduzir a trama, num clima de desconfiança mútua. Ela sai de casa, mas concorda em voltar, mesmo sabendo que nada vai mudar, apesar dos insistentes pedidos dela. A atriz Kirsten Dunst, que tinha acabado de superar um período de depressão na vida real, não poderia ter escolhido filme mais aterrorizante para marcar sua volta ao cinema. E ela se sai muito bem nessa convivência com Ryan Gosling, que encarna um papel mais do que sinistro. Mesmo com toda essa fragilidade, ela consegue fazer emergir uma força interior surpreendente.



Um erro crasso cometido no filme ocorre logo no início, quando a trama se passa no ano de 1971 e a música que toca é “Daddy Don’t Live in That New York City no More”, do Steely Dan. O problema é que esta canção foi lançada em 1975, no álbum "Katy Lied". O diretor Andrew Jarecki estreia no longa demonstrando habilidade na arte de deixar o público descobrir tudo aos poucos, felizmente sem se preocupar em ficar dando explicações redundantes, muito menos subestimando a percepção de quem mergulha no filme. Acerta de forma competente na reconstituição de época e na direção de atores. A trilha sonora faz diversas brincadeiras e referências às trilhas de PSICOSE (1960) e UM CORPO QUE CAI (1958). Ryan Gosling mostra mais uma vez que os adjetivos superlativos que vêm recebendo dos críticos são mais que merecidos. Seus filmes são todos de primeira linha e da melhor qualidade. Como exemplos BLUE VALENTINE (que recebeu o título ridículo no Brasil de “Namorados Para Sempre”); TOLERÂNCIA ZERO (2001), um dos filmes mais perturbadores do cinema americano; DIÁRIO DE UMA PAIXÃO (2004); O MUNDO DE LELAND (2002); DRIVE (2011); TUDO PELO PODER (2011), ao lado de George Clooney; A PASSAGEM (2005), ao lado de Ewan McGregor, entre outros. Indiscutivelmente, um dos melhores filmes do ano!!


sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

AMORES IMAGINÁRIOS (Les Amours Imaginaires) Canadá, 2010



PARA QUEM JÁ VIVEU A ILUSÃO DE UM GRANDE AMOR!!

AMORES IMAGINÁRIOS (Les Amours Imaginaires) Canadá, 2010 – Direção Xavier Dolan – elenco: Xavier Dolan, Niels Schneider, Monica Choki – 95 minutos.
Tão fascinante quanto AMORES IMAGINÁRIOS é seu diretor: canadense de Quebec, Xavier Dolan provocou sensação em Cannes já com seu filme de estreia, EU MATEI MINHA MÃE (2009), que abocanhou três prêmios. Um ano depois, voltou ao festival para convencer quem duvidava de seu talento e, informalmente, assumiu o cargo de diretor indie do momento. Tudo isso munido de um topete exagerado, óculos gigantes, um certo ar blasé e apenas 21 anos.



Enquanto sua posição não está bem definida, ao menos claras são suas fontes. Neste segundo longa, o jovem cineasta, que também atua e escreve, escancara suas referências do cinema e da cultura pop para contar a história de Francis e Marie, dois amigos que se apaixonam à primeira vista por Nico, um loiro inalcançável, classificado como um Adonis. Seu estilo é todo forjado no passado: personagens "cool", figurino retrô, penteados descolados e canções sessentistas embalam o triângulo amoroso.



No filme emerge a questão sobre o que vale mais: um desejo carnal ou uma amizade? Para falar de amor, desejo e afins, o filme põe em cena entrevistas, rodadas como se fossem um documentário. Esses jovens, que falam olhando direto para a câmera, formam uma espécie de painel de como se ama fisicamente e emocionalmente em Quebec. O resultado é um filme irresistível, que, se para alguns não passa de um pastiche da nouvelle vague, consegue falar para qualquer alma que já viveu a ilusão de um amor. E ainda há um brilho extra: Louis Garrel, ator que torna infinito o jogo de sedução. Um filme que merece ser visto por sua proposta moderna e descolada!!

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

PATAGÔNIA (Patagonia) Reino Unido / Irlanda do Norte, 2010



UM FILME QUE PRIVILEGIA A BELEZA DAS PRIMOROSAS IMAGENS DA PATAGÔNIA E DO PAÍS DE GALES!!

PATAGÔNIA (Patagonia) Reino Unido / Irlanda do Norte, 2010 – Direção Marc Evans – elenco: Matthew Gravelle (Rhys), Marta Lubos (Cerys), Nahuel Pérez Biscayart (Alejandro), Nia Roberts (Gwen), Matthew Rhys (Matteo), Rhys Parry Jones (Martín), Duffy (Sissy) – 118 minutos.



Percorrendo paisagens amplas e deslumbrantes, duas mulheres realizam um trajeto íntimo decisivo em suas vidas: uma procurando o seu futuro; a outra, o seu passado. A primeira é Gwen, atriz galesa que vive junto ao fotógrafo Rhys há sete anos. Suas mal sucedidas tentativas de ter um filho desgastaram a relação, que eles esperam recuperar em uma viagem à Patagônia Galesa. A segunda é Cerys, senhora diabética do Sul da Argentina, que sonha em conhecer a cidade de onde suA mãe foi expulsa, no País de Gales. Ao lado do vizinho adolescente Alejandro, ela cruza o oceano na esperança de descobrir suas origens.



A história da senhora Cerys e do adolescente Alejandro cativa bastante. Já a história do casal em crise é motivo de reflexão. Mas ambas as histórias desse road movie são extremamente notáveis e fazem dele um grande filme. O mais interessante e peculiar desse filme em questão é o foco em personagens complexos, buscando, na verdade, a si mesmos em distintas jornadas. A trilha sonora é inesquecível e deliciosa!! A fotografia primorosa dos ambientes da Patagônia e do País de Gales são puro encantamento para os olhos de qualquer espectador. Filme raro, belo, tocante, comovente e inesquecível!! Vale o ingresso, a locação ou baixar na Internet!!


terça-feira, 17 de janeiro de 2012

CARO SR. HORTEN (O'Horten) Noruega, 2007



UM DESSES FILMES EUROPEUS BELÍSSIMOS QUE DISCUTE VELHICE E SOLIDÃO COM SUTILEZA E SENSIBILIDADE!!

CARO SR. HORTEN (O’Horten) Noruega, 2007 – Direção Bent Hamer – Elenco: Baard Owe (Odd Horten), Espen Skjønberg (Trygve Sissener), Ghita Nørby (sra. Thoegersen), Kai Remlov (Steiner Sissener), Kari Lolland (Vera Horten) – 84 minutos.

Este filme norueguês de 2007 é daqueles que se chama de pequenas obras, em tom menor. Música de câmara, para poucos instrumentos – não uma sinfonia. Pequeno retrato – não um grande afresco. Narra, com economia de palavras e sem qualquer fogo de artifício, alguns poucos dias na vida de um homem de 67 anos que está se aposentando. Em "Caro Sr Horten", o diretor coloca no centro do palco um homem que precisa colocar sua vida em novos trilhos depois da aposentadoria. Extremamente metódico, até seu pequeno apartamento está sob a sombra da ferrovia e o barulho dos trens é a trilha sonora quase incessante. Sempre munido de seu cachimbo, Horten começa a experimentar coisas novas, como passear por Oslo com os olhos cobertos.
Depois de 40 anos de serviço prestados à rede ferroviária, sempre com dedicação e disciplina, Horten é homenageado com uma locomotiva em miniatura. Nessa cena, durante um jantar, ele faz uma composição visual métrica que lembra o visual de filmes do sueco Roy Andersson, como "Vocês, Os Vivos", com a ação acontecendo com uma perspectiva de profundidade na imagem.



A vida do protagonista começa finalmente a mudar quando, no seu último dia de trabalho, ele perde a hora. A partir de então, a ação transcorre como um sonho estranho, com os fatos acontecendo numa ordem fora de cronologia. O ator Bård Owe, que trabalhou com Lars von Trier em "Europa" e na série televisiva "O Reino", parece um Buster Keaton norueguês com seu rosto pétreo - algo conhecido como deadpan - capaz de mostrar as emoções sendo cozidas em seu interior em fogo brando. A vida de O'Horten - como o personagem é conhecido - parece sem graça e corre o risco de ficar ainda mais. No entanto, Hamer aborda o poder de transformação que cada um traz dentro si. É algo que em "Caro Sr Horten” acontece de forma sutil – o que pode ser ainda mais poderoso. Marcado por situações inusitadas que beiram o surreal, o longa norueguês faz da jornada de Odd uma reflexão sobre ações mal conduzidas. Ao restabelecer seu contato com o mundo exterior, o protagonista se obriga a seguir um caminho que não obedece ao itinerário vicioso da via férrea, que sempre serviu para distrair os fantasmas do passado. Seja numa conversa sincera com uma solitária dona de pensão. Ou na companhia a uma criança com medo do escuro. Ou com a própria mãe. Pouco a pouco, ele percebe a necessidade de uma mudança que o leve pra bem longe da fiel locomotiva, e tudo de previsível que ela representa.



E como acontece na maioria dos filmes, coube a um desajustado dizer as palavras certas para Odd abrir os olhos. É no encontro com o etílico diplomata Trygye Sissener (Espen Skjønberg) que ele encontra a inspiração para seguir em frente. Colecionador de armas primitivas (“o que é uma contradição, pois todas as armas são primitivas”) seu amigo é o típico bon vivant que possui o hobby de dirigir com os olhos vendados. Conduta totalmente oposta à personalidade insegura do protagonista. É com ele que Odd aprenderá algo muito simples e importante: ainda há tempo! Com bela atuação do desconhecido ator Bård Owe, “Caro Sr. Horten” é um trabalho sensível e cativante, que merece ser descoberto. Feito com poucos diálogos, belas paisagens e com uma trilha minimalista que não incomoda, o filme faz da instrospecção do seu personagem-título uma fábula singela e bem-humorada. Longe de ser didático, é surpreendente. Na longa e boa crítica sobre o filme, assinada por Nathan Southern, o AllMovie traz uma definição justa, corretíssima: “Esta saga sobre uma fatia de vida se diverte com a mágica do banal. Tudo é tão aparentemente sério, tão nas entrelinhas, tão minimalista, que audiências mais míopes podem sequer conseguir detectar a comédia. Mas é essa qualidade de aparência de falta de expressão que faz o filme imensamente admirável.”

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

ROMÂNTICOS ANÔNIMOS (Les Émotifs Anonymes) Bélgica, 2010



O FILME QUE É UMA GRATA SURPRESA DO ANO!!

ROMÂNTICOS ANÔNIMOS (Les Émotifs Anonymes) Bélgica, 2010 – Direção Jean-Pierre Améris – elenco: Isabelle Carré, Benoît Poélvoorde, Lorella Cravotta, Lise Lamétrie, Swann Arlaud, Pierre Niney, Stéphan Wojtowicz, Jacques Boudet, Alice Pol, Céline Duhamel - 80 minutos.

Jean-René (Benoît Poélvoorde) é o dono de uma pequena fábrica de chocolate e Angélique (Isabelle Carré) é uma brilhante confeiteira que começa a trabalhar para ele. Unidos pelo chocolate, não demora muito para que os dois acabem se apaixonando. Mas o sentimento terá de superar uma prova difícil: ambos dividem outra grande característica, uma timidez patológica que quase lhes impossibilita relações com outras pessoas. Agora, para viver essa história, eles terão de passar pelas situações mais inusitadas na tentativa de lidar com suas emoções descontroladas. Uma relação que parece estar condenada ao fracasso, mas, assim como um bom chocolate, é deliciosa e surpreendente. Os protagonistas são duas pessoas feitas uma para a outra, mas precisam descobrir isso e tomar coragem para lidar com o amor que surge entre eles. Especialista em chocolate, Angélique é uma solitária à procura de emprego. Toda semana frequenta um grupo de apoio a pessoas com problemas emocionais. Já Jean-René é dono de uma pequena fábrica de chocolate à beira da falência. Mal fala com os quatro empregados e distribui um chocolate que, pela falta de renovação, vem perdendo mercado ao longo dos anos. É uma jogada do destino Angélique chegar batendo na porta da empresa dele em busca de emprego. O retrato que o diretor faz desses românticos é bastante carinhoso. É como se ele se colocasse no mesmo patamar deles, sem julgá-los, ou tentar lançar alguma psicologia de botequim para explicar suas atitudes. Eles são como são, só precisam aprender a lidar com isso. O processo todo, é claro, é mais engraçado do que dramático. Um dos filmes mais deliciosos do ano!!