
OSCAR 2012
OS DESCENDENTES (The Descendants) EUA, 2011 – Direção Alexander Payne – elenco: George Clooney, Judy Greer, Shailene Woodley, Amara Miller, Matthew Lillard, Robert Foster, Beau Bridges – 115 minutos.
Um belo exemplo de como fazer bom cinema usando o cotidiano das pessoas como matéria-prima. Honesto e realista, consegue fazer rir e chorar sem recair nos lugares-comuns típicos dos filmes do gênero drama familiar. É um trabalho belíssimo e eficiente versando sobre a condição humana e a capacidade nossa de encontrar humor e alento diante das mais atrozes adversidades. Um filme sobre resistência, sobre o ímpeto de ir adiante apesar dos inevitáveis (e muitas vezes inexoráveis) reveses da vida. Por isso, fica impossível não se identificar com as emoções vividas pelos personagens, que conquistam o espectador desde o começo de sua exibição. O modo como a personagem de Clooney vai lidando com as adversidades é uma lição de sutileza cinematográfica. O diretor Alexander Payne é um mestre na arte de trafegar com eficiência entre as fronteiras da comédia e drama. Ele optou por contar uma pequena história, mas não menos comovente e pungente. E o fez com rara eficiência. A trama é conduzida por seus personagens. É neles que está a história. O espectador vai vê-los aprendendo a lidar com a dor, com o momento de dizer adeus, com a perda. Vai viver esse filme através deles e suas idiossincrasias. George Clooney é a estrela do filme, conduzindo seu papel com destreza, comedimento e elegância.

No filme, Clooney interpreta Matt King, um dos descendentes do título. Ele e seus primos herdaram de seus ancestrais centenas de hectares de terras que um dia pertenceram à realeza havaiana. Mas enquanto a maioria deles não trabalha, vivendo apenas desta renda, Matt é um advogado e também o responsável legal por gerir tudo o que sobrou do espólio. Às vésperas de fechar um acordo imobiliário de meio bilhão de dólares, sua esposa sofre um acidente de barco e entra em coma. A situação leva Matt a se reaproximar de suas filhas e repensar seu passado e futuro. Como nos diz Matt em sua primeira interação com o público, o filme também se presta a mostrar um Havaí diferente do paraíso dos resorts de luxo que sempre se vê nos filmes e séries, ou das disputas entre locais e "haoles", como eles chamam os estrangeiros. Existe também a interessante missão não declarada de mostrar ainda que, sim, todo mundo por lá usa camisa havaiana, mesmo em eventos sociais. A forma praticamente invisível com que Payne comanda o longa-metragem quase nos faz esquecer que estamos no cinema. A trama, que já tem elementos fáceis de se encontra nos cotidianos de qualquer um, se desenrola também como a vida, deixando tudo muito fácil de degustar, até mesmo as partes mais amargas - que não são poucas.

A relação pai-filhas do trio formado por Matt, Scottie (Amara Miller) e Alex (Shailene Woodley) leva do riso ao choro sem causar estranheza, nem parecer forçado. Afinal, qual menina de 10 anos não está perdida na sua passagem da infância para a puberdade, ou qual adolescente não quer curtir a vida de quase adulto que está ali na esquina, mas não tem paciência de esperar chegar lá? Com tantas reflexões, o filme leva ao seu grande destino, o autodescobrimento. É na hora de pegar a filha mais nova na escola que o pai percebe que não existe na sua memória uma lembrança recente de ter feito isso em muito tempo. É ali no hospital, ao ver a mãe paralisada na cama do hospital, que a filha percebe o quanto é parecida com a mãe que ela se acostumou a destratar. O diretor sintetiza a diversidade e complexidade do ser humano em seu trabalho. Sem sombra de dúvida é o mais maduro dos seus filmes em clareza narrativa. Inspirador, o filme mostra que não basta ter uma boa história em mãos, é preciso saber transformá-la em experiência de cinema. Um desses filmes que são para sempre!! Indicado a vários prêmios no Oscar 2012, incluindo Melhor Filme do Ano e Melhor Ator para George Clooney. Já desponta na lista dos melhores lançamentos de 2012. Imperdível!!


























