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segunda-feira, 18 de julho de 2011

O MURO DAS MARAVILHAS (Wonderwall) 1968



O MURO DAS MARAVILHAS (Wonderwall) Inglaterra, 1968 – Direção Joe Massot – Elenco: Jack MacGowran, Jane Birkin, Iain Quarrier, Brian Walsh, Irene Handl, Richard Wattis – 92 minutos.

O cinema inglês concilia aqui o velho e o novo numa narrativa moderna e profundamente diferente. Representou o cinema de seu país no II FIF do Estado da Guanabara (na época do lançamento era o nome do Estado do Rio de Janeiro). O ator Jack MacGowran, que Roman Polanski utilizou em ARMADILHA DO DESTINO (1966) e A DANÇA DOS VAMPIROS (1967), é um professor solitário e ocupadíssimo, que um belo dia descobre algo de novo e insuspeitado em sua existência. Por razões extra-cinematográficas Jane Birkin, a grande estrela do filme, ficou muito famosa. O diretor era estreante e o filme ficou conhecido como um espetáculo muito curioso. Fez muito sucesso na época de seu lançamento. Aqui, em São Paulo, aconteceu em outubro de 1969, no extinto Cine Palmela, na Rua Pamplona. No Brasil, ainda não foi lançado em DVD e só se consegue uma cópia do filme na Internet. Em 1969, quando foi lançado só se sabia que era algo estranho e muito surreal.

A trilha sonora ficou por conta de George Harrison (numa época que os Beatles eram tudo). Alguns críticos disseram que não existe razão para ver o filme se o espectador não for fã de George Harrison, ou dos Beatles, mas isso não procede. O filme merece ser descoberto e visto, porque retrata bem as idéias de 1968, um ano que ficou para sempre na história do Século XX; apresenta a onda psicodélica da época com graça e beleza, e vale também por toda a efervescência cultural, social, política, dos anos dourados de 1960. Lá nos EUA foi restaurado e remasterizado e foi relançado com a promessa de permanecer para a eternidade, pela simples razão de ter tido a colaboração de um Beatle. Com certeza, um deleite reflexivo!!



EM SETEMBRO - OS 100 MELHORES FILMES DE TODOS OS TEMPOS!!

domingo, 17 de julho de 2011

BRAVURA INDÔMITA (True Grit) 2010



BRAVURA INDÔMITA (True Grit) EUA, 2010 – Direção Joel e Ethan Coen – Elenco: Jeff Bridges, Hailee Steinfeld, Matt Damon, Josh Brolin, Barry Pepper, Elizabeth Marvel, Paul Rae, Ed Corbin – 110 minutos.

Para quem conhece o "Bravura Indômita" de 1969, de Henry Hathaway, com John Wayne como protagonista - existe em DVD e Blu-Ray -, a história é certamente muito semelhante, mas com diferenças que assinalam a personalidade da nova encarnação. Os Coen voltaram à fonte original, ou seja, o romance de Charles Portis de 1968, e fizeram a sua própria leitura.

O trio principal, certamente, está lá - a garota Mattie Ross (a impressionante novata Hailee Steinfeld, indicada ao Oscar), aos 14 anos empenhada na vingança do assassinato do pai; o oficial beberrão Rooster Cogburn (Jeff Bridges), que ela contrata para caçar o assassino; e LaBoeuf (Matt Damon), um Texas Ranger também na cola do mesmo criminoso, por causa de uma recompensa.

Se a trama que une os três é a mesma, o tom da história não é. Muito menos a maneira como os três atores se apropriam de seus personagens. A maior atualização recai sobre a figura de Mattie, nesta nova versão muito mais dura e realista do que a meiga Kim Darby de 1969. Um detalhe que aproxima mais Hailee de Mattie é que ela realmente tem 14 anos - enquanto Kim era uma moça de 21. Boca-dura, voluntariosa e muito esperta, Hailee tem o maior desafio - encaixar-se num mundo adulto e convencer Cogburn e LaBoeuf de que ela não abre mão de participar pessoalmente da captura de Tom Chaney (Josh Brolin). E ela dá conta espetacularmente bem do recado. A cena em que ela veste as roupas e coloca o chapéu do pai e se põe a caminho do território indígena, onde se esconde Chaney, neste sentido, é emblemática. Mattie realmente está deixando a infância para trás e definitivamente tornando-se adulta. Ela nem sabe ainda o quanto.



Jeff Bridges dá um show de interpretação. Está muito bem como Rooster Cogburn, um sujeito endurecido, forjador das próprias leis e que não costuma fazer prisioneiros, só cadáveres. O seu brilho é tão bom quanto o papel de John Wayne em 1969, ambos estão insuperáveis. Na encarnação sutil de Matt Damon, igualmente o texano LaBoeuf torna-se mais interessante, menos dândi e mais cowboy. Depois de mencionar essas três figuras, não há como deixar de citar o Josh Brolin, que está fantástico como o criminoso Tom Chaney, que matou o pai de Mattie. Sua interpretação com convicção é um primor de coadjuvante.

Uma outra diferença a favor desta versão é aprofundar mais o contexto. No filme de 1969, apesar de se passar em território indígena, não se vê um índio. Aqui há vários, começando pela cena inicial do enforcamento - em que ao único condenado nativo é negado o direito das últimas palavras. Há outras situações que denotam o tratamento politicamente incorretíssimo destinado aos donos da terra pelos valentões brancos de passagem. Os tipos estranhos que povoam esse tipo de cenário, descritos no livro, aqui entram em cena - como Bear Grit (Ed Corbin), um estranho curandeiro, vestindo pele de urso, que cruza o caminho de Cogburn e Mattie. São detalhes que reforçam a atmosfera, criando verossimilhança.



Outra diferença essencial está nas cores do filme. Onde vibrava o technicolor da produção de 1969, aqui predominam os cinzas e azuis, fieis à paisagem invernal - com muita neve à vista. A primeira incursão de Joel e Ethan Coen no western resulta num filme belo e extraordinário. A direção conscienciosa e eficiente dos irmãos aliada a uma fotografia primorosa (o filme concorreu ao Oscar nessa categoria) presenteiam o espectador com imagens que se imprimem profundamente em nossas retinas e memórias afetivas, sem função meramente plástica e ornamental. Elas dialogam conosco, sugerem-nos coisas sobre as situações e personagens. Os diretores confiam nas imagens e se apoiam firmemente nelas. Sabem que são fundamentais para contar uma boa história. UM DOS DEZ MELHORES FILMES DO ANO!! ABSOLUTAMENTE ESPETACULAR!! IMPERDÍVEL PARA QUEM GOSTA DE VER UMA BOA HISTÓRIA BEM CONTADA NO CINEMA!!

sábado, 16 de julho de 2011

A DEFESA DO CASTELO (Castle Keep) 1969



A DEFESA DO CASTELO (Castle Keep) – EUA, 1969 – Direção Sydney Pollack – elenco: Burt Lancaster, Patrick O’Neal, Jean-Pierre Aumont, Peter Falk, Astrid Heeren, Bruce Dern, Scott Wilson, Tony Bill, James Patterson, Al Freeman Jr. – 107 minutos.

Uma história forte de um grupo de homens do Século 20 que amam como deuses e lutam como demônios num castelo do Século 10.

Uma superprodução do renomado diretor hollywoodiano Sydney Pollack, com a ação passada na Bélgica durante a Segunda Guerra Mundial e girando em torno de um esquadrão norte-americano comandado por um dos maiores e mais importantes atores da era de ouro de Hollywood - Burt Lancaster, em brilhante atuação - fazendo o papel do Major Abraham Falconer, que vai parar num castelo do Século X, de propriedade de um conde sofisticado e impotente (brilhantemente interpretado por Jean-Pierre Aumont). Este, precisando de um herdeiro, a fim de continuar na posse do castelo e dos objetos de arte nele existentes, tudo faz para que sua esposa Therese (a estreante Astrid Heeren, que está muito bem no papel) tenha relações com o Major Falconer. E em meio a essa intriga tão “peculiar” há a ameaça nazista. As tropas nazistas avançam e cercam a edificação.



O diretor Pollack não só se deixou atar pelo entretenimento espetacular, como procurou apresentar uma obra de empenho artístico. Com uma direção primorosa e um elenco de primeira, é um espetáculo obrigatório para aqueles que são fãs de filmes que tratam do assunto da Segunda Guerra Mundial. Merece destaque no elenco Patrick O’Neal como o Capitão Lionel Beckman, Peter Falk como o Sfc. Rossie Baker e Bruce Dern como o Lt. Billy Byron Bix. Um filme espetacular, com grandes cenas de ação, uma fotografia esplêndida e reconstituição de época magnífica. Vale a pena conferir.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

EU SOU A LENDA (I Am Legend) 2007



EU SOU A LENDA (I Am Legend) EUA, 2007 – Direção de Francis Lawrence – Elenco: Will Smith, Alice Braga, Emma Thompson, Salli Richardson, Charlie Tahan – 101 minutos.

Nesta ficção futurista, Will Smith, assume mais uma vez o papel de herói. O ano é 2012. Nova York tornou-se uma cidade deserta, onde as suas largas avenidas transformaram-se em matagais, seus imensos edifícios, em estruturas abandonadas. Nas ruas atulhadas de detritos, um único carro, um possante Shelby Mustang GT-500, passa a toda velocidade. Dentro dele, Robert Neville (Smith), e sua cadela, a pastora alemã Sam. Médico virologista, Neville é o único habitante humano sadio de Manhattan. Todos os demais ou morreram ou foram transformados em pavorosos zumbis canibais, que saem à noite à caça de carne. Apesar de não serem exatamente vampiros, eles também têm pouca resistência à luz. Neville, portanto, só circula durante o dia à procura de algum outro ser humano que possa ter sobrado da maciça contaminação que varreu o país, quem sabe o mundo. O culpado: um vírus que surgiu de um tratamento pioneiro que, anos atrás, erradicou o câncer, mas gerou este terrível efeito colateral. Quando a tarde cai, Neville e Sam recolhem-se à sua casa na Washington Square, fechando portas e janelas previamente fortalecidas com barras metálicas. Tudo para resistir aos ataques das hordas canibais. No subsolo, o virologista realiza experiências com animais - e, quando consegue, com algum zumbi -, procurando chegar a uma vacina, a uma fórmula que reverta os efeitos da epidemia. Por uma incrível coincidência, ele é, misteriosamente, o único ser humano imune, ainda que seja mordido pelos canibais. Fora os sucessivos fracassos com seus experimentos científicos, a solidão está enlouquecendo Neville, que perdeu a mulher e a filha em circunstâncias que o filme revela aos poucos. Em "flashbacks", traça-se o histórico do surgimento da doença, a quarentena da cidade e o mergulho no caos.

EU SOU A LENDA é a terceira adaptação cinematográfica do livro homônimo de Richard Matheson, lançado em 1954. A primeira foi em 1964, em MORTOS QUE MATAM, de Sidney Salkov, tendo como protagonista Vincent Price. A segunda, em 1971, A ÚLTIMA ESPERANÇA DA TERRA, de Boris Sagal, estrelada por Charlton Heston. Durante anos se pensou numa refilmagem com Ridley Scott e Arnold Schwarzernegger, mas sairia muito cara. Até que, finalmente, o desenvolvimento dos efeitos digitais que permitem criar tanto os vampiros quanto limpar a cidade de Nova York de vestígios de vida permitiu levar o projeto às telas. Se não for um dos melhores filmes do ano, pelo menos tem uma das melhores histórias! Sucesso no Brasil e no Exterior esta ficção científica estrelada por Will Smith, que se confirma como um dos maiores astro de cinema da atualidade, é uma competente aventura futurística, ao qual se assiste com atenção. Um filme imperdível e empolgante!!


terça-feira, 12 de julho de 2011

BRAVURA INDÔMITA (True grit) 1969



BRAVURA INDÔMITA (True Grit) EUA, 1969 – Direção Henry Hathaway – Elenco: John Wayne, Glen Campbell, Kim Darby, Jeremy Slate, Robert Duvall, Dennis Hopper, Alfred Ryder, Strother Martin, Jeff Corey, Ron Soble, John Fiedler, James Westerfield, Donald Woods – 133 minutos.

Em 1970, John Wayne ganhou um Oscar por sua inigualável performance como o bêbado, grosseiro e totalmente destemido comissário Rooster Cogburn. O rabugento Rooster é contratado por uma decidida garota (Kim Darby) para encontrar o homem que matou seu pai e fugiu com as economias da família. Quando a nova patroa de Cogburn insiste em acompanhá-lo na empreitada, voam faíscas. Mas a situação vai de problemática a desastrosa quando o inexperiente, mas entusiasmado, Texas Ranger (Glen Campbell) entra na festa. Risos e lágrimas pontuam a movimentada aventura neste extraordinário western que apresenta ainda Robert Duvall e Strother Martin no elenco.

Além de premiado com o Oscar de Melhor Ator (John Wayne), foi também vencedor na categoria de Melhor Canção Original ("True Grit"). Ganhou o Globo de Ouro de Melhor Ator - Drama (John Wayne), além de ter sido indicado em outras duas categorias: Melhor Canção Original ("True Grit") e Melhor Revelação Masculina (Glen Campbell). Recebeu uma indicação ao BAFTA, na categoria de Melhor Revelação (Kim Darby).

Este é o único filme pelo qual John Wayne ganhou um Oscar. Por insistência do próprio John Wayne foi ele mesmo, e não um dublê, quem realizou a cena a cavalo em que este pula uma cerca. O filme ficou famoso por trazer o ator num premiado papel de um pistoleiro bêbado e caolho, de certa forma uma paródia de si mesmo. Um grande filme que merece ser visto!! Foi recentemente realizado o seu remake pelas mãos competentes de Joel e Ethan Cohen.



EM SETEMBRO - OS 100 MELHORES FILMES DE TODOS OS TEMPOS!!

domingo, 10 de julho de 2011

O DISCURSO DO REI (The King's Speech) 2010



O DISCURSO DO REI (The King’s Speech) Reino Unido / Austrália / EUA, 2010 – Direção Tom Hooper – elenco: Colin Firth, Helena Bonham Carter, Geoffrey Rush, Guy Pearce, Michael Gambon, Timothy Spall – 118 minutos.

DOIS MUNDOS QUE SE UNIRAM PARA DAR À NAÇÃO UMA SÓ VOZ!!

Esta é a história do rei George VI (nascido Albert Frederick Arthur George), cuja gagueira torna-se um empecilho toda a vez que ele vai se dirigir à nação. Em tempos de paz isso já seria um problema. Em tempos de crise, isso coloca uma espada sobre sua cabeça.

Interpretado com perfeição por Colin Firth que, por ser inglês, não precisa fingir o sotaque, mas teve trabalho para criar seu personagem, e por isso acabou ganhando o Oscar de Melhor Ator. O filme foi o campeão de indicações deste ano, com 12, ganhando também de Melhor Filme e Melhor Diretor (Tom Hooper).

Albert tentou diversos métodos para superar seu problema, mas nada funcionou. Sua mulher, Elizabeth (Helena Bonham Carter), descobre um sujeito com métodos nada ortodoxos. Mas, para quem já tentou falar com a boca cheia de bolas de gude, nada poderá ser mais radical. O sujeito é Lionel Logue (Geoffrey Rush), um terapeuta que mais com falação do que ação pode ser capaz de curar o futuro monarca. Como esse é um filme de visão intimista, a política é reduzida ao básico, apenas para dar tom à trama. A questão central é George falar à nação e, com sua voz potente, ajudar os ingleses a superar um período conturbado e sobreviver à guerra que se avizinha.

Um filme absolutamente irretocável!! A direção de arte reconstroi cenários, figurinos e opta por uma luz que recorde os anos 1930 de forma colorida. A direção é discreta e competente. O roteiro, com diálogos perspicazes, desenvolve a história de forma correta. E o trio principal de atores – Colin Firth, Geoffrey Rush e Helena Bonham Carter – brilha e engrandece o filme de forma muito rica.

A Academia de Hollywood acabou dando o Oscar de Melhor Filme ao O DISCURSO DO REI, porque a história de um homem que supera seus problemas e, além de tudo, governa um império, tem mais o perfil da Academia do que o de um jovem nerd que cria um espaço na internet onde pessoas "vivem" relacionamentos virtuais, retratado no concorrente mais forte A REDE SOCIAL. Merece ser visto, mas é para público inteligente e selecionado!!

sexta-feira, 8 de julho de 2011

O CONFORMISTA (Il Conformista / Le Conformiste) 1970



O CONFORMISTA (Il Conformista/Le Conformiste) Itália/França, 1970 – Direção Bernardo Bertolucci – elenco: Jean-Louis Trintignant, Stefania Sandrelli, Dominique Sanda, Pierre Clementi, Gastone Moschin, Enzo Tarascio, Fosco Giachetti – 115 minutos.

Marcello Clerici (Jean-Louis Trintignant) quer ser normal, igual a todo mundo. Esse desejo foi se transformando em obsessão ao longo de uma vida enfadonha e burguesa, a qual nos é apresentada por meio de flashbacks, extraídos da mente do protagonista no decorrer de uma misteriosa viagem de carro. Na realidade, Marcello é a efígie de uma geração narcotizada pelo fascismo de Mussolini, no fim dos anos 1930. Contudo, isso não explica sua busca desenfreada pela normalidade. As lembranças, que vão sendo pouco a pouco reveladas, tentam esboçar o perfil psicológico do rapaz — perfil entremeado por uma sexualidade mal resolvida, uma ideologia política resignada, uma ausência latente de fé e um ambiente familiar sem qualquer solidez.

Crescido, segue não encontrando apoio ou exemplos positivos nos pais — a mãe é um fantasma dos tempos áureos da Itália pré-fascista, uma mulher que vive de aparências e artificialidades; o pai é uma figura doente e letárgica, aprisionada em um sanatório. Curiosamente, a concepção máxima de normalidade, para ele, é o matrimônio. Marcello então se casa com a rica e pouco inteligente Giulia (Stefania Sandrelli), apesar de não amá-la.

Adaptado do livro de Alberto Moravia, o roteiro (indicado ao Oscar) unifica uma série de detalhes numa composição cíclica: uma experiência homossexual na juventude é relatada após uma cena em que Marcello, já adulto e noivo de Giulia, se insere na Polícia Secreta do "Duce". Em seguida, vemos a proposição de uma tarefa arriscada: matar um dissidente que agora vive em Paris. O sujeito, no caso, é o Professor Quadri (Enzo Tarascio), com quem Marcello, aliás, teve aulas na época da faculdade. Acusado de subversão pelos "camisas negras", Quadri conseguiu escapar da execução na Itália. Exilado agora na França, ele aceita a visita do ex-aluno, ignorando por completo o trágico destino que o aguarda. Bertolucci propõe aqui um trabalho de tensão sexual bastante refinado. A bissexualidade dos personagens principais — Marcello e Anna (Dominique Sanda), a bela esposa do Professor Quadri — é somente sugerida, nunca escancarada ou explicada. Um seduz o outro por meio da frágil e inocente Giulia.

Muito mais do que uma alegoria política, é uma obra ímpar. O filme faz apelo para discussões filosóficas sobre o amadurecimento de um indivíduo em meio a uma sociedade reprimida pela ditadura. O protagonista esconde dentro de si uma angústia que o faz sofrer em silêncio desde a infância. É um filme deslumbrante e de alta categoria. Possui as mais impressionantes e barrocas imagens que sempre se desejou ver; com um estilo cinematográfico rico e poético, além de uma minuciosa e soberba descrição da média burguesia em decadência. Com um requintado visual, que recria cuidadosamente a década de 1930 e a ascensão do fascismo na Itália, esta obra-prima é um interessante estudo sobre o papel da ideologia como suporte identificatório para uma estrutura de ego desorganizada e frágil. Poucas vêzes um filme tão individualizado conseguiu transmitir tanto sobre uma tragédia coletiva e um trágico período histórico!