
UMA BELA OBRA-PRIMA DO CINEMA BELGA QUE FALA DE MUITAS COISAS, MAS DE ESCOLHAS MAIS DO QUE TUDO!!
O GAROTO DA BICICLETA (Le Gamin au Vélo) Bélgica, 2011 – Direção Jean-Pierre e Luc Dardenne – elenco: Thomas Doret, Cécile de France, Jérémie Renier – 87 minutos.
A nova realização dos Irmãos Dardenne – Jean-Pierre e Luc Dardenne - (diretores de O SILÊNCIO DE LORNA e A CRIANÇA) é uma maravilhosa encenação sobre a prisão e a liberdade, o isolamento e a socialização, o pertencer e o marginalizar-se. O filme tem a sensibilidade de apresentar os dilemas dos personagens sem nos incentivar ao julgamento ou à condenação - o abandono e o medo que dele surge é o principal. Até mesmo o pai que renega o filho tem suas razões. Todos nós temos nossos motivos, justificativa que, todavia, não torna nossos atos menos daninhos. É isso que também está em jogo: o daninho dos nossos atos, estejamos conscientes dos efeitos ou não. Entrando no labirinto proposto pelo filme, descobriremos quem é o pai irresponsável, a cabeleireira que aceita cuidar do menino nos fins de semana e a dor de Cyril. A bicicleta é o gesto de liberdade de um garoto que não foi ensinado a expressar sentimentos. Cyril é instintivo como um animal irracional. Não à toa, ganha o malicioso apelido de Pitbull. Enquanto um adulto equilibrado usa a palavra para lutar, o confuso menino morde – e isso não é figura de linguagem. Qualquer presença indesejada que se acerque é mordida. Quando o desespero se apodera dele, Cyril age como um cachorro. Quando a cabeleireira, sua guardiã, lhe oferece um cego afeto, ele verbaliza – mesmo que pelo choro. A construção de cada detalhe pelos Dardenne é mais que cuidadosa, do lençol que envolve o garoto como uma camisa de força às pedaladas desordenadas na entrada do orfanato. São esses detalhes na encenação que colocam O GAROTO DA BICICLETA acima de outros filmes sobre infância problemática. Adeptos de um cinema humanista e prestigiados por uma vasta série de prêmios, dos quais se destacam duas Palmas de Ouro em Cannes (por ROSETTA, 1999 e A CRIANÇA, 2005), os cineastas e irmãos belgas introduzem duas mudanças em seu novo filme, O GAROTO DA BICICLETA: o uso da música e a presença de uma atriz famosa no elenco, no caso, Cécile de France, sua compatriota que faz sucesso no cinema francês e filmou com o norte-americano Clint Eastwood (em ALÉM DA VIDA). Ao ver o filme, a conclusão que salta aos olhos é que os Dardenne mudaram apenas para permanecerem os mesmos, já que "O Garoto da Bicicleta", novamente brindado em Cannes em 2011 com um Grande Prêmio do júri, é mais um cuidadoso capítulo de uma cinematografia centrada no ser humano. Se os diretores e roteiristas continuam atentos às mazelas do mundo contemporâneo, desta vez, dedicam um espaço mais generoso à bondade.

Samantha (Cécile de France) é uma cabeleireira solteira cujo destino cruza-se por acaso com o do menino Cyril (Thomas Doret), de 11 anos. Quando ele entra no consultório médico em que ela se encontra e agarra-se a ela para não ser levado de volta ao orfanato, ele fracassa, naturalmente. Mas o abraço, um verdadeiro pedido de socorro, plantou a semente de uma irresistível curiosidade em Samantha. O pai de Cyril (Jérémie Renier, de A CRIANÇA) pura e simplesmente o abandonou no orfanato, prometendo voltar em um mês. Mas desapareceu sem deixar pistas. No momento em que Cyril encontra Samantha, está no auge do desespero. Não consegue acreditar que o pai simplesmente o tenha deixado para trás sem nenhuma palavra. Nem que tenha vendido até sua bicicleta, como descobre depois. Recomprando a bicicleta do novo dono, Samantha tem sua primeira intervenção na vida de Cyril, devolvendo-lhe a primeira parte de sua identidade radicalmente fraturada pela rejeição. Quando o menino lhe pede que venha buscá-lo no orfanato nos fins de semana, mesmo sem entender direito porquê, ela aceita. Este princípio de uma maternidade opcional abre várias frentes de conflito, até porque Cyril tem sua curiosidade despertada para caminhos mais tortuosos, a partir de sua convivência com Wes (Egon di Mateo), o jovem valentão da vizinhança de Samantha. O GAROTO DA BICICLETA fala de muitas coisas, mas de escolhas mais do que tudo. As opções de Cyril especialmente, suas consequências e desdobramentos, ainda que várias delas dependam de Samantha. Uma grande parte dos sentimentos do filme, e do risco corrido pelos diretores, passa pelo estreante Thomas Doret, escolhido em um cuidadoso processo de seleção. Somente com o olhar, ele é capaz de transmitir boa parcela do tormento interior de seu personagem, num momento crucial de contato com sua fragilidade no mundo. Merece ser visto e admirado, um dos mais belos e sensíveis filmes do ano!!




























