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domingo, 23 de outubro de 2011

50º Lugar - FANNY & ALEXANDER (Fanny och Alexander) Suécia, 1983



OS 100 MELHORES FILMES DE TODOS OS TEMPOS!!

50º Lugar - FANNY E ALEXANDER (Fanny och Alexander) Suécia, 1983 – Direção Ingmar Bergman – elenco: Bertil Guve (Alexander), Pernilla Allwin (Fanny), Ewa Fröling (Emilie), Lena Olin (Rosa), Kristina Adolphson (Siri), Allan Edwall (Oscar Ekdahl), Maria Granlund (Petra), Eva von Hanno (Berta), Pernilla August (Maj), Börje Ahlstedt (Carl Ekdahl), Kristian Almgreen (Putte), Siv Ericks (Alida), Majlis Granlund (Srta. Vega), Sonya Hedenbratt (Tia Emma), Gunn Wällgren (Helena Ekdahl), Jan Malmsjö (Bispo Vergerus), Jarl Kulle (Gustav Ekdahl) – 178 minutos.

Um dos maiores nomes do cinema mundial, o diretor Ingmar Bergman realiza, aqui, uma obra-prima e um dos seus trabalhos mais acabados, ao refletir com delicadeza e perfeccionismo, sobre os terrores e os prazeres da infância. O tom autobiográfico é flagrante no filme: o garoto Alexander é sem dúvida um alter-ego de Bergman, vivendo entre o puritanismo hipócrita (representado pelo bispo Vergerus) e os prazeres mundanos que o garoto encontrou nas fartas refeições, no bom humor e na liberação da casa da avó. O pai do diretor era pastor luterano, tendo várias vezes castigado-o severamente na infância. Com grande sensibilidade para descobrir e dirigir talentos femininos, Bergman descobre uma nova musa: Ewa Froeling, que vive a mãe de Fanny e Alexander, tão bela e fascinante como as estrelas anteriores do diretor: Harriet Andersson, Bibi Andersson, Kabi Laretei e Liv Ullmann. Realizada com capital sueco, francês e alemão, a produção utilizou cerca de 140 atores e mil figurantes, com o cineasta planejando tudo minuciosamente como é do seu estilo, inclusive a reconstituição de uma mansão burguesa do início do século XX. Vários temas e obsessões já presentes nos filmes anteriores de Bergman se entrecruzam com grande magia e humor: a angústia da morte, a neurose familiar, o amor pela arte (em especial pelo teatro), o horror pelo fanatismo religioso e a celebração da sensualidade.



É um dos filmes mais belos da década de 1980. Tudo gira em torno de uma cidade sueca, no começo do Século XX, dominada por sua Catedral. Um rio de curso caudaloso com suas ondas sombrias que corta a cidade. Lá está o tradicional Teatro, a secular Universidade e um bispado poderoso. As únicas mudanças são aquelas que resultam do ritmo invariável das Estações. A vida é próspera, mas sem escândalos, a segurança não tem falhas, e a felicidade é sensível a todos. Nesse cenário vamos conhecer os membros da família Ekdahl e seus empregados durante as faustosas celebrações do Natal. Há também o Mosteiro do Bispo, velho e úmido, que exprime a abnegação puritana de seus ocupantes, exatamente o oposto da casa dos Ekdahl. O garoto Alexander e sua irmã Fanny são membros dessa poderosa família de burgueses suecos no início do Século XX, criado em meio ao rígido puritanismo luterano do padrasto – o bispo Vergerus. Alexander descobre um mundo mágico e surpreendente na casa da avó, uma atriz abastada e sem preconceitos. De indiscutível beleza, um elenco impecável e um roteiro extraordinário, este excelente filme é a quintessência de Bergman e algo diferente de tudo o que ele já fez.



É uma grande crônica familiar, sombria, generosa e bela, que aborda muitos dos temas já explorados em filmes anteriores, ao mesmo tempo que introduz algo que, em Bergman, pode passar como sendo serenidade. A obra se movimenta entre os mundos da realidade e da imaginação com a facilidade característica da grande ficção, enquanto conta a história de uma família maravilhosa, mas mergulhada num mundo sombrio e de severos preconceitos. Apesar da maior parte do filme ser vista através dos olhos de Alexandre, tudo em FANNY E ALEXANDER tem a qualidade de algo lembrado à distância – eventos lembrados ou como foram vivenciados, ou como se imagina que eles tenham acontecido. Desta forma, Ingmar Bergman, consegue misturar fatos e fantasias de forma que jamais negam o que nós, no público, julgamos ser verdade. Foi indicado a 06 Oscar, incluindo Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original, ganhando nessas quatro categorias: Melhor Filme Estrangeiro, Melhor Fotografia, Melhor Figurino e Melhor Direção de Arte. Sem dúvida alguma, é um marco na história do cinema, um espetáculo soberbo e magnífico e mais um triunfo fabuloso na carreira de um dos maiores diretores de toda a história do cinema. Imperdível!!!!

sábado, 22 de outubro de 2011

51º Lugar - BEN-HUR (Ben-Hur) EUA, 1959



OS 100 MELHORES FILMES DE TODOS OS TEMPOS!!

51º Lugar - BEN-HUR (Ben-Hur) EUA, 1959 – Direção William Wyler – Elenco: Charlton Heston (Judas Ben-Hur), Stephen Boyd (Messala), Haya Harareet (Esther), Hugh Griffith (Sheik Ilderim), Jack Hawkins (Quintus Arrius), Martha Scott (Miriam), Cathy O’Donnell (Tirzah), Sam Jaffe (Simonides), Finlay Currie (Balthasar), Frank Thring (Pôncio Pilatos), Terence Longdon (Drusus), George Relph (Tiberius), André Morell (Sextus), John Glenn – 219 minutos.

É um dos mais belos filmes de todos os tempos! A epopéia de um mercador judeu que é escravizado por seu amigo de infância e que consegue uma chance única para se vingar. Em Jerusalém no início do século I vive Judah Ben-Hur (Charlton Heston), um rico mercador judeu. Mas, com o retorno de Messala (Stephen Boyd), um amigo da juventude que agora é o chefe das legiões romanas na cidade, um desentendimento devido a visões políticas divergentes faz com que Messala condene Ben-Hur a viver como escravo em uma galé romana, mesmo sabendo da inocência do ex-amigo. Mas o destino vai dar a Ben-Hur uma oportunidade de vingança que ninguém poderia imaginar. BEN-HUR, junto com TITANIC (1997) e O SENHOR DOS ANÉIS – O RETORNO DO REI (2003), são os três únicos filmes recordistas do Oscar, até hoje. Premiado com 11 estatuetas, incluindo Melhor Filme do ano, Melhor Diretor (William Wyler), Melhor Ator (Charlton Heston), Melhor Ator Coadjuvante (Hugh Griffith), Melhor Direção de Arte - A Cores, Melhor Fotografia - A Cores, Melhor Figurino - A Cores, Melhores Efeitos Especiais, Melhor Edição, Melhor Trilha Sonora e Melhor Som. Foi ainda indicado na categoria de Melhor Roteiro Adaptado.



O ator Burt Lancaster recusou o papel de Judah Ben-Hur porque, segundo ele, a história continha morais violentas as quais discordava. Além de Lancaster, Marlon Brando e Rock Hudson também recusaram. A produção foi uma bem-sucedida tentativa da MGM de sair da ameaça de falência. Gore Vidal declarou certa vez que o roteiro original previa um relacionamento homossexual entre Ben-Hur e Messala. Como o diretor William Wyler sabia que Charlton Heston nunca aceitaria interpretar um personagem com nuances homossexuais, Vidal instruiu Wyler a apenas contar a Stephen Boyd, intérprete de Messala, sobre este relacionamento. Este fato pode ser notado no próprio filme pelas diferenças no modo de falar de Ben-Hur e Messala. A MGM, produtora do filme, queria que um autêntico barco romano fosse utilizado nas cenas de batalha. Para tanto, contratou um engenheiro que havia estudado durante toda sua carreira a arquitetura romana. Quando ele apresentou o design do barco aos engenheiros da MGM, estes disseram que ele afundaria, pois era muito pesado. Ainda assim o construíram e, ao ser colocado no oceano, inicialmente flutuou. Porém, logo após, uma pequena onda fez com que o barco afundasse. Deste modo, o estúdio resolveu colocá-lo em um gigantesco tanque onde suas cenas seriam rodadas, com cabos prendendo o barco ao tanque. Após a construção do tanque, um problema enfrentado era conseguir dar à água o tom azul-mediterrâneo necessário para que as cenas ali rodadas parecessem reais. A água inicialmente era marrom e escura e, para conseguir a tonalidade de cor necessária, foi utilizado um composto químico que, apesar de fazer com que a água ficasse azul, fez também com que fosse formada uma crosta em toda a superfície da água, que precisou ser toda retirada do tanque por operários da MGM. Durante as filmagens de uma das cenas de batalha realizadas no tanque, um dos extras caiu na água e lá ficou por muito tempo. Ao sair, este extra estava totalmente azul e teve seu salário pago pela MGM até que a cor saísse de sua pele.



Na época de sua produção, foi considerado o filme mais caro até então; em valores de hoje seria em torno de 230 milhões de dólares. O filme levou dois anos para ser concluído e utilizou pela primeira vez câmeras de 65 mm, técnica mais tarde conhecida como Super Panavision. Uma das seqüências mais famosas e mais espetaculares até hoje realizada pelo cinema, é a da corrida de quadrigas. Ela foi realizada pelo diretor de segunda unidade Andrew Marton e consumiu 94 dias de filmagens. Para a construção da arena, em Cinecittá, foram mobilizados mil operários durante um ano e custou um milhão de dólares. Foram utilizados na seqüência oito mil extras e 78 cavalos. Para a entrada dos corredores, o diretor de fotografia Robert Surtees usou uma grua de mais de 30 metros de altura: o espectador vê as quadrigas desfilando na pista como se estivesse sobrevoando o circo. Esta é a 3ª versão. As anteriores ocorreram em 1907 e em 1926, ambas sendo mudas e também com o mesmo título. O romance “Ben-Hur” foi escrito em 1880 pelo general Lewis Wallace, herói da Guerra de Secessão. O famoso escritor Gore Vidal colaborou com o roteiro, sem ser creditado. BEN-HUR é até hoje insuperável pela sua grandiosidade e pela sua beleza cinematográfica sem precedentes. É o mais espetacular filme épico já realizado pelo cinema!! Majestoso, belo, magnífico e absolutamente obrigatório!!!!

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

52º Lugar - TÁXI DRIVER (Motorista de Táxi) EUA, 1976



OS 100 MELHORES FILMES DE TODOS OS TEMPOS!!

52º Lugar - TÁXI DRIVER – MOTORISTA DE TÁXI (Táxi Driver) EUA, 1976 – Direção Martin Scorsese – elenco: Robert De Niro, Albert Brooks, Harvey Keitel, Cybill Shepherd, Jodie Foster, Leonard Harris, Peter Boyle, Norman Matlock – 114 minutos.

Travis Bickle (Robert DeNiro) é um homem desencantado, perdido numa das maiores cidades do mundo, perturbado pelo ambiente que o rodeia, ainda com muitas feridas por cicatrizar da sua experiência na guerra. Travis é um homem que sonha com o dia em que alguém limpe das ruas de Nova York toda a escumalha, as prostitutas, os chulos, os traficantes de droga... Travis é um homem prisioneiro do seu próprio mundo, mas uma bomba relógio prestes a arrebentar, ansioso por "sair lá para fora e fazer algo com um verdadeiro significado". Em 1976, Martin Scorsese apresentou TAXI DRIVER ao mundo e, conseqüentemente, apresentou um dos melhores filmes já produzidos em toda a história do cinema. Um relato cru, assustador, saído do pior dos pesadelos, que assenta na solidão o epicentro de toda uma espiral de ódios, horrores e crimes. Na sua primeira colaboração com o argumentista Paul Schrader, Scorsese deu-se a conhecer em definitivo ao mundo como um dos melhores cineastas vivos, estatuto que mantém ainda nos dias de hoje, com lugar reservado entre os maiores nomes da realização.



Mas afinal, o que faz TAXI DRIVER merecer especial destaque na filmografia de um homem que tem no seu currículo obras tão marcantes como O TOURO INDOMÁVEL (1980) ou OS BONS COMPANHEIROS (1990)? Acima de tudo, ser um filme que em momento algum tem receio de virar as costas à sua personagem central, que se apresenta como alguém com quem será à partida muito difícil o espectador identificar-se. Mas a câmera de Scorsese nunca abdica de acompanhar Travis, captando o seu mundo degradante, a sua humilhação e o distanciamento deste para com o mundo 'real', seja ele representado por aqueles que passam pelo seu táxi, seja por Betsy (Cybill Shepherd), a 'mulher mais bonita' que alguma vez viu, que trabalha no gabinete de campanha de Charles Palantine, candidato à presidência. Ou por Iris (Jodie Foster), uma prostituta que Travis tenta resgatar da sua vida. À sua volta, Travis é incapaz de ver mais do que o ódio, que se encontra ao virar de cada esquina, ou mesmo refletido no retrovisor do seu táxi.



TAXI DRIVER é um filme que lida de perto com um dos grandes momentos da história norte-americana que, de formas mais ou menos evidentes, se refletiu em todos os cineastas desta geração: a Guerra do Vietnã. As suas feridas estão espalhadas por todo o filme, especialmente na personagem de Travis, que carrega consigo não só as consequências diretas da sua participação no conflito como também surge como uma imagem da própria América, à procura da sua identidade, no interior de todo um turbilhão de conflitos interiores. E não é por acaso que o discurso de Palantine refere em todas as cenas onde aparece, a problemática da guerra e apela à união das massas. Acima de tudo, é um filme que pretende ter lugar nos recantos mais obscuros na mente de um homem perturbado, e não poderia ter sido mais bem sucedido. Tudo, desde a brilhante banda sonora de Bernard Herrmann, ao trabalho de fotografia de Michael Chapman contribui para o sucesso absoluto desta obra-prima. Tudo isto surge acompanhado por um trabalho implacável de Robert DeNiro, que apesar de tudo, nos obriga a conectar com a sua personagem. Porque no fundo, o sucesso do filme está talvez naquilo que reflete em cada um de nós, pois, afinal, todos temos um pouco de Travis Bickle. Um dos mais extraordinários filmes da história do cinema!!

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

53º Lugar - EM BUSCA DO OURO (The Gold Rush) EUA, 1925



OS 100 MELHORES FILMES DE TODOS OS TEMPOS!!

53º Lugar - EM BUSCA DO OURO (The Gold Rush) EUA, 1925 – Direção Charles Chaplin – elenco: Charles Chaplin, Mack Swain, Georgia Hale, Tom Murray, Henry Bergman, Malcolm Waite – 96 minutos.

É um dos mais tocantes filmes do cinema! A genialidade de Charles Chaplin é incontestável! Ao lado de LUZES DA CIDADE (1931), é também a sua grande obra-prima. Carlitos tenta a sorte como garimpeiro no Alasca durante a corrida do ouro em 1889. Sempre à procura de um grande amor e de aventuras, apesar do tipo trapaceiro, é um vagabundo bem-intencionado que se envolve e escapa das confusões com um imbatível ar de triunfo, pois quem leva uma vida errante não espera recompensa. Apesar dos momentos de extrema ironia, EM BUSCA DO OURO tem final feliz, praticamente o único de toda a carreira do diretor. Big Jim recupera a memória e lembra o caminho que antes o fizera achar a maior mina de ouro da região. Ele e Carlitos ficam milionários e partem num navio, onde o vagabundo reencontra Georgia (Georgia Hale), a adorável dançarina de saloon que antes não lhe dava a mínima bola e ainda o usava para provocar ciúmes no homem que amava, o valentão da cidade. Os dois acabam juntos e, até o apagar das luzes, felizes para sempre.



EM BUSCA DO OURO reúne seguramente algumas das cenas antológicas do cinema, como a da famosa dança dos pãezinhos, ou a que mostra o devaneio do bolachudo aventureiro Big Jim (Mack Swain) que, alucinado pela fome, vê Carlitos metamorfoseado em frango. A mais célebre, porém, é a do cozido das botinas de Carlitos. Com ares de gourmet, ele faz dos cordões um delicioso espaguete, das solas um fino e saboroso pássaro de caça e dos pregos seus ossinhos delicados. Carlitos e seu desmemoriado companheiro realmente comeram as botinas, feitas de alcaçuz por um confeiteiro especialmente contratado para a tarefa. Perfeccionista às raias da loucura, Chaplin fez dezenas de tomadas e mais de 20 pares de botinas saírem do forno antes de a cena ser aprovada. A mesma disciplina meticulosa envolveu as filmagens, de início realizadas nas geleiras de Truckee, e depois transferidas para Hollywood. As expressões faciais, reforçadas sempre pelo uso de maquiagem, são tão maravilhosas que fazem com que não se sinta falta das falas. Além da presença de Chaplin, o filme tem, como pontos fortes, a magnífica trilha sonora e as atuações de Mack Swain e da estreante Georgia Hale, na época com 20 anos de idade. Vencedor do Oscar nas categorias de Melhor Trilha Sonora e Melhor Som em 1942, quando foi reeditado o filme. Com uma ironia fina, o filme trata dos conflitos de classe presentes ainda hoje. No fim da vida, Chaplin declarava várias vezes que esse seria o filme pelo qual gostaria de ser lembrado. E é o filme que o público e a crítica mais se lembram. Memorável e inesquecível!!

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

54º Lugar - RASTROS DE ÓDIO (The Searchers) EUA, 1956



OS 100 MELHORES FILMES DE TODOS OS TEMPOS!!

54º Lugar - RASTROS DE ÓDIO (The Searchers) EUA, 1956 – Direção John Ford – elenco: John Wayne, Jeffrey Hunter, Natalie Wood, Vera Miles, Ward Bond, John Qualen, Olive Carey, Henry Brandon, Ken Curtis, Lana Wood, Harry Carey Jr. – 119 minutos.

Há filmes que são maiores do que a vida. RASTROS DE ÓDIO é um deles. Obra-prima de John Ford, o filme marcou uma difícil transição no cinema feito em Hollywood. Em 1956, quando foi produzido, a indústria do cinema vivia uma crise feia, causada pela concorrência com a televisão. Numerosos artifícios técnicos estavam sendo experimentados como reação. O sistema technicolor era um deles. No aspecto técnico, o filme de John Ford se notabilizou como um dos trabalhos mais bem acabados a utilizar as cores vibrantes e explosivas do novo sistema. Portanto, RASTROS DE ÓDIO foi um triunfo de tecnologia, bem ao modo que Hollywood gosta de valorizar. De certa forma, a fase de transição do cinema não era apenas tecnológica, mas sobretudo temática. As fantasias inocentes “sonhadas” pelos cineastas na chamada Era de Ouro de Hollywood, entre os anos 1930 e 1940, já eram. Os filmes mainstream – ou seja, as grandes produções – precisam ser mais realistas. Precisavam renunciar à simplificação, a mostrar um mundo cor-de-rosa demais, e passar a refletir a complexidade do mundo real. Em suma, necessitavam mostrar a dureza e o cinismo da vida em sociedade da época, algo que só aparecia em produções menores, como os policiais do chamado film noir.



E John Ford também atacou nesse campo, produzindo um dos primeiros faroestes realistas. É possível afirmar que o desafio de RASTROS DE ÓDIO tinha que ser enfrentado por alguém do calibre de John Ford. Único cineasta a embolsar três Oscar, inovador por excelência e dono de domínio total da arte cinematográfica, Ford era uma figura emblemática de uma Hollywood à beira da decadência. Ainda por cima, tornara-se especialista em westerns, um gênero que sempre coube muito bem no cinema romântico e nostálgico da Era de Ouro. Um faroeste realista? Só de pensar nisso, muito diretor de prestígio suava frio. Somente mitos como Ford e seu ator preferido, John Wayne, poderiam enfrentar uma parada daquelas. RASTROS DE ÓDIO poderia ser um fracasso definitivo, mas se desse certo, o sucesso também o seria. E o filme deu certo. De forma impressionante, John Ford fez um faroeste a seu modo, e levou o gênero um passo à frente sem abrir mão de nenhuma das características presentes na sua obra. Ford não renunciou sequer a sua locação favorita, o Monument Valley, em Utah (EUA). As montanhas poeirentas em formas de mesa, pontuando longas planícies vermelhas de terra seca, mostraram-se o cenário perfeito para tomadas panorâmicas belíssimas. Filmados no novo sistema technicolor, os picos do deserto norte-americano ganharam uma profundidade e um senso épico inigualáveis. A paisagem emoldura com perfeição absoluta a trajetória de um homem anti-social e solitário, ecoando a solidão e a aspereza do protagonista do filme.



O Monument Valley funciona como uma metáfora visual da alma deserta de Ethan Edwards (John Wayne), um ex-oficial da Guerra Civil que viaja de passagem pela fazenda do irmão. Durante a estadia dele por lá, um ataque indígena mata toda a família. Os cherokees raptam a sobrinha caçula, Debbie (Lana Wood, depois Natalie Wood). É apenas o início de uma perseguição épica, que vai durar vários anos, empreendida por Ethan, junto com o irmão adotivo da menina e mestiço de cherokee, Martin Pawley (Jeffrey Hunter). O rapaz é desprezado e ridicularizado pelo torturado Ethan, um homem que tem um passado traumático – o filme não faz nenhuma menção esclarecedora a esse respeito, mas isso fica bastante evidente – e um futuro sombrio. Cineastas de prestígio, como Steven Spielberg e Martin Scorsese, colocam RASTROS DE ÓDIO no topo das obras-primas produzidas em Hollywood. A fotografia deslumbrante de Winton C. Hoch, junto com o roteiro bem amarrado e cheio de nuanças de Frank Nugent, respondem pela maior parte dos méritos. A complexidade dos personagens é tão profunda que não cabe na tela. Um filme eterno e para sempre!!

terça-feira, 18 de outubro de 2011

55º Lugar - A FILHA DE RYAN (Ryan's Daughter) Inglaterra, 1970



OS 100 MELHORES FILMES DE TODOS OS TEMPOS!!

55º Lugar - A FILHA DE RYAN (Ryan’s Daughter) Inglaterra, 1970 – Direção de David Lean – Elenco: Robert Mitchum, Trevor Howard, Sarah Miles, Christopher Jones, John Mills, Leo McKern, Barry Foster, Arthur O’Sullivan – 206 minutos.

Depois dos sucessos de A PONTE DO RIO KWAI (1957); LAWRENCE DA ARÁBIA (1962) e DOUTOR JIVAGO (1965), David Lean pensou em filmar a vida de Gandhi, mas desistiu do projeto, pedindo um roteiro a seu roteirista habitual Robert Bolt. Inspirado em “Madame Bovary”, de Flaubert, Bolt cria então A FILHA DE RYAN, um drama de costumes que se passa durante a Guerra Civil na Irlanda em 1916, estrelado por um elenco de primeira. Robert Mitchum é Charles Shaughnessy, o pacato professor; Sarah Miles é Rose Ryan, a filha de Ryan; Trevor Howard é o Padre Collins; John Mills é o bobo da aldeia, mas que não podia falar (brilhante interpretação que lhe valeu o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante); Christopher Jones é o Major Randolph Doryan, o oficial britânico pivô de um amor infiel; Leo McKern é Tom Ryan, o delator. Ao lado do diretor de fotografia Freddie Young, o cineasta construiu novamente uma série de imagens grandiosas, de plasticidades tão comoventes como em harmonia com a trama. Em 206 minutos de poesia visual, há inicialmente uma leve comédia, que apresenta os irlandeses como seres excêntricos, bem distantes do típico esnobismo britânico. Aos poucos, os personagens fluem como em um romance do Século XIX, em que o autor se concentra apenas em narrar a trama, e não comentá-la.



Em um primeiro contato, é impossível não imaginar como esse filme pode ter influenciado outro gênio do cinema: Stanley Kubrick, que cinco anos depois faria um filme sob diversos aspectos próximos a esse magnífico A FILHA DE RYAN. Há atores neste filme que iriam figurar em BARRY LYNDON (1975), assim como paisagens rupestres que notavelmente tornariam o filme de Kubrick uma overdose plástica dificilmente recriada. Assim como Kubrick, Lean tem uma forma singular de apresentar a sua história. Desde LAWRENCE DA ARÁBIA, ele compreende que os diálogos em um filme são apenas um elemento secundário, que as imagens e sons de uma narrativa devem conduzir o espectador a um terreno incerto, no entanto, dinâmico, com um certo frescor natural. Munido de uma câmera 65mm da Panavision, Freddie Young cria imagens que simbolizam o estado de espírito de seus personagens. Há vários exemplos disso em todo o filme: as nuvens ligeiras que acompanham Rose na praia; o nascimento de algumas plantas quando Rose conhece o amor; as luzes variáveis que entram em seu quarto na noite de núpcias, etc. Mesmo com todo esse rigor visual, Freddie Young ainda reserva ao espectador uma seqüência mágica, de forte impacto emocional e cinematográfico: a cena da tempestade. Não se sabe ao certo como ele conseguiu extrair tanta autenticidade nessa seqüência, pois o que se vê no filme é um furor da natureza tentando irromper sobre os homens, algo que não pode ser criado artificialmente de forma alguma. Young capta em sua lente uma força natural, tão própria ao mundo como a paixão que envolve os personagens.



Diante de uma praia isolada, com maré altíssima, os poucos habitantes daquele vilarejo ajudam soldados refugiados a encontrar um armamento alemão que se dispersou pelo mar. O impacto visual e emotivo dessa seqüência é tão grandioso que por si só ela já resume o que é o cinema - o momento mágico em que um filme desvela o que é a vida, em que uma câmera capta, mesmo que de forma fragmentada, todas as pulsações orgânicas, metafísicas e dramáticas que podem haver na trajetória de um homem. Com um final trágico, mas com a belíssima trilha sonora de Maurice Jarre, David Lean reduz o espectador a um mero sobrevivente, a uma sensibilidade convalescente quando um grande contador de histórias está se aproximando de seu grande final.

A FILHA DE RYAN é um marco na carreira de Lean e do cinema nos anos 1970. Para aqueles que nunca tiveram a oportunidade de assistí-lo, é uma rara chance de se ter contato com um filme tão belo quanto o cinema de David Lean. Foi lançado em DVD. É um desses filmes imperdíveis que o cinema realizou com paixão, esmero e qualidade. TÃO GRANDIOSO QUANTO A VIDA!!

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

56º Lugar - DERSU UZALA (Dersu Uzala) Japão/Rússia, 1975



OS 100 MELHORES FILMES DE TODOS OS TEMPOS!!

56º Lugar - DERSU UZALA (Dersu Uzala) Japão/Rússia, 1975 – Direção Akira Kurosawa – Elenco: Maksim Munzuk (Dersu Uzala), Yuri Solomin (Capitão Vladimir Arseniev), Svetlana Danilchenko, Dmitri Korshikov, Suimenkul Chokmorov, Vladimir Kremena, Aleksander Pyatkov, Mikhail Bychkov – 141 minutos.

DERSU UZALA é um belíssimo drama contemplativo e pode ser definido como um poema ecológico, uma ode à natureza, um grito em favor da liberdade interior do homem e uma grande lição de humanismo! A profunda beleza do bosque siberiano, a força do vento, a ternura da neve e o mistério da vida também fazem parte da tônica dessa extraordinária história contada pelo olhar sensível de Akira Kurosawa. Delicado e extremamente tocante, não tem como imaginar esse filme com outro diretor. Obra-prima que celebra virtudes como a amizade, a lealdade, o amor e o respeito pela natureza. Baseado nos relatos de um explorador czarista, o Capitão Arseniev, que é resgatado na Sibéria por um caçador mongol. Mesclando uma lição de humanismo e amizade com a natureza, filmada em seu esplendor pela magnífica fotografia de Asakazu Nakai, a atualidade do filme reside na sua mensagem de esperança, de alegria, contra o fatalismo e o desespero expressos na sociedade moderna. Vê-se uma sensível lição de educação quando Arseniev aprende, humilde, sobre a natureza com Dersu, um conhecimento que não agrega valor, mas nos recompõe com a vida.



Produção soviética dirigida por um dos maiores diretores japoneses de todos os tempos, Akira Kurosawa. Melhor filme do Festival de Moscou e Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1976, Dersu Uzala, dos livros de viagem do explorador russo Vladimir Arseniev, conta uma bela história de amizade entre duas pessoas. Em 1902, numa região selvagem ao longo do rio Ussuri, na divisa entre a Sibéria e a Mandchúria, um simples e solitário caçador mongol (toda a família foi morta por uma epidemia de peste), nômade da taiga siberiana, encontra com a pequena expedição cartográfica do capitão russo Arseniev, com o qual inicia uma profunda amizade. Dersu é convidado pelo russo para servir de guia ao grupo, aceita o convite e se mostra bastante útil, ensinando a todos os segredos na natureza, e até salvando a vida de Arseniev numa noite de intensa tempestade de vento. Depois é o russo que salva a vida de Dersu. Os dois amigos sofrem com a despedida quando termina a expedição, mas voltarão a se encontrar na segunda expedição cartográfica, em 1907, onde o russo descobre que Dersu está ficando cego. Arseniev, temendo pela vida do amigo, convence Dersu a abandonar a floresta e ir morar com ele e sua família na cidade, mas o velho caçador sentirá muita nostalgia da taiga. O músico e ator amador Maksim Munzuk interpreta brilhantemente Dersu, o velho caçador que vive em harmoniosa simbiose com a natureza, fala com o fogo, com as plantas e com os animais. DERSU UZALA é um filme de intensa beleza e poesia, que transmite um enorme respeito pela natureza e pela vida.



Os atores são russos, as locações são russas (na Sibéria literalmente gelada e em Moscou), o filme é falado em russo, mas é dirigido pelo japonês Akira Kurosawa, o mais famoso internacionalmente dos diretores japoneses. O filme também marca o “renascimento” de Kurosawa, porque anos antes ele tentara suicídio. Foi o primeiro filme depois do incidente o qual, por anos, fechou as portas do diretor no Japão. Achou abrigo na Rússia e DERSU UZALA faturou o OSCAR DE MELHOR FILME ESTRANGEIRO em 1976, numa época em que o Oscar ainda era levado a sério. DERSU UZALA é um dos melhores filmes da história do cinema, um dos melhores filmes do cinema russo e um dos melhores filmes do cineasta japonês Akira Kurosawa. Não apenas é uma obra-prima, como também é fascinante tudo que ele representa e o que não é contado no filme.