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sábado, 1 de setembro de 2012

A REBELIÃO (L'ordre et la Morale) França, 2011



A REBELIÃO (L’ordre et la morale) França, 2011 – Direção Mathieu Kassovitz – elenco: Mathieu Kassovitz, Iabe Lapacas, Sylvie Testud, Jean-Philippe Puymartin – 136 minutos.

Ator e diretor consagrado na França, Mathieu Kassovitz já passou por Hollywood, assinando "Na Companhia do Medo" (2003) e "Missão Babilônia" (2008) – filmes que podem ter acrescentado dólares à sua conta bancária, mas não lustraram a estrela do magistral diretor de "O Ódio", vencedor do prêmio de melhor direção em Cannes e de três César, inclusive melhor filme, em 1995.



Em seu novo trabalho, "A Rebelião", em que atua e dirige, além de assinar em parceria a produção, o roteiro e a montagem, Kassovitz voltou para a cultura francesa e a política, campos em que exercita o melhor de seu talento. Sempre em cena, ele cria um clima tenso e envolvente, ao recontar um episódio verídico, uma rebelião ocorrida em 1988 na Polinésia Francesa, baseando-se em livro de um participante direto dos fatos, o capitão Philippe Legorjus, "Ouvéa, la republique et lamorale". Kassovitz interpreta o capitão da GIGN, uma força altamente preparada e especializada na negociação de crises. Ele e seu pelotão são chamados a agir quando um grupo de 30 militares franceses é tomado como refém por rebeldes Kanak, que procuram a independência da ilha de Ouvéa, Nova Caledônia - até hoje, país ultramarino dependente da França. Chamada para evitar um banho de sangue, a GIGN não vem só. Centenas de militares franceses de outras unidades, fortemente armados, já desembarcaram. O comando da operação não é da GIGN, o que obriga Legorjus e seus homens a acatar ordens num contexto político delicado.



Nesse momento, está para acontecer o segundo turno das eleições presidenciais francesas, opondo o então já presidente socialista François Mitterrand e seu primeiro-ministro centrista, Jacques Chirac. É o ponto de vista do capitão, onipresente em cena e, em alguns momentos, participando pela narração em off, que comanda a narrativa. Suas exaustivas idas e vindas no território conflagrado procuram criar um diálogo entre todas as partes, que terão voz no decorrer da trama, fornecendo um retrato límpido de uma crise extremamente complicada. O esforço incessante do capitão, tendo como interlocutor o líder rebelde Alphonse Dianou (Iabe Lapacas), evidenciará também seu isolamento diante das intrigas de gabinete cujas origens conduzem ao Champs Elysées, sede do governo central francês – onde salta aos olhos a pouca diferença entre esquerda e direita quando se trata de uma postura diante do neocolonialismo. Não por acaso, o filme pode evocar a situação da Argélia colonial, mostrada à perfeição no clássico do cinema político "A Batalha de Argel" (1966), do italiano Gillo Pontecorvo. (Neusa Barbosa – Cineweb)

terça-feira, 28 de agosto de 2012

VIAGEM A DARJEELING (The Darjeeling Limited) EUA, 2007



VIAGEM A DARJEELING (The Darjeeling Limited) EUA, 2007 – Direção de Wes Anderson – Owen Wilson, Adrien Brody, Jason Schwartzman, Anjelica Huston, Bill Murray, Barbet Schroeder, Natalie Portman, Irfan Khan – 91 min.

Em seu novo filme, o diretor norte-americano Wes Anderson aborda um tema que lhe é caro: a figura paterna. Nesse quinto longa de sua carreira, os protagonistas são três irmãos que não se falam desde a morte do pai, há um ano, e vão para a Índia à procura da mãe. Em seus trabalhos mais conhecidos, como "Os Excêntricos Tenenbaums" (2001), um pai que está com os dias contados tenta acertar as contas com os filhos. Em "A Vida Marinha com Steve Zissou" (2004), um rapaz encontra seu pai que nunca conheceu e tenta ficar amigo dele. Francis (Owen Wilson, de "Penetras Bons de Bico") é o mais bem-sucedido financeiramente entre os irmãos, e o mais controlador também. A mulher de Peter (Adrien Brody, do elogiado e belo "O Pianista") está grávida e ele crê que não saberá lidar com a paternidade. Já Jack (Jason Schwartzman, de "Maria Antonieta") brigou com a namorada mas não pára de gravar recados na caixa de recados do celular dela. O trio viaja num trem rumo a Darjeeling, na Índia, numa jornada que se torna mais inusitada a cada momento.



Além dos choques com situações e personagens do país, emergem as diferenças do passado e presente entre os irmãos - o que, no universo de Anderson, é um passo para a reconciliação. Um incidente numa vila hindu envolvendo a salvação de alguns meninos num rio cria espaço para uma nova compreensão fraterna. Mas ainda falta uma coisa: encontrar a mãe - interpretada por Anjelica Huston (de A HONRA DO PODEROSO PRIZZI e OS VIVOS E OS MORTOS) - que há anos optou pelo isolamento num mosteiro. Toda essa trama serve como base para o diretor desfilar o seu estilo, que inclui câmara lenta, trilha sonora pop e uma direção de arte colorida. Aqui, além de bandas como The Kinks e Rolling Stones, ouve-se músicas de filmes do consagrado cineasta indiano Satyajit Ray (1921-1992), vencedor de um Oscar especial de carreira em 1992. A grande diferença em relação a outros trabalhos de Anderson é que aqui o cineasta estoura a bolha que prendia seus personagens num mundo extremamente estilizado, dando-lhes a chance de viver num mundo real. Precedendo as sessões de "Viagem a Darjeeling", será apresentado o curta "Hotel Chevalier", também assinado por Anderson, trazendo no elenco o mesmo Jason Schwartzman ao lado de Natalie Portman. A história gira em torno do fim do romance de um casal e dialoga com o enredo de "Viagem a Darjeeling". Muito mais do que um filme, uma obra extraordinária!


domingo, 24 de junho de 2012

A MULHER DE PRETO (The Woman in Black) Inglaterra / Canadá, 2012

A MULHER DE PRETO (The Woman in Black) Canadá / Reino Unido, 2012 – Direção James Watkins – elenco: Daniel Radcliffe, Ciarán Hinds, Janet McTeer, Sidney Johnston, Daniel Cerqueira, Tim McMullan, Cathy Sara - 95 minutos. Essa é a nova aposta da produtora Hammer Films – dona de clássicos do horror –, um típico suspense que sustenta um terror britânico gótico. Servindo como um catalisador de idéias de horror e medo, o filme de James Watkins prioriza artifícios recorrentes em filmes de espíritos, desde a fotografia turva, névoa e um mistério com crianças mortas entrelaçado a sustos em demasia, mas com maestria. A produção aposta no talento de seu protagonista que carrega quase o filme inteiro, sempre com uma expressão rija. As razões são denunciadas numa cena inicial quando seu filho de 4 anos lhe mostra um desenho familiar. Acessamos um passado obscuro do personagem de Radcliffe, o advogado Arthur Kipps. Sua feição, entre a esposa e a babá, é a única infeliz. Logo ele se esquiva e segue até o trabalho. A progressão dessa apresentação é rápida e sutil. Ele é incumbido, sob ameaças do chefe, a viajar e resolver problemas relacionados a uma mulher morta que deixara uma mansão após seqüenciais infortúnios. Daniel Radcliffe abandona Harry Potter e arrisca um horizonte não tão distante da fantasia que lhe consagrou, todavia apresenta indícios de um ator esforçado, tal como demonstrado em recentes trabalhos ingleses, como por exemplo “Meu Filho Jack” (My Boy Jack, 2007) e “Um Verão Para Toda Vida” (December Boys, 2007). Com uma bela direção arte (os brinquedos de corda são excepcionais) e uma fotografia sinistra, mas esplendorosa, A MULHER DE PRETO merece ser conferido!!

sexta-feira, 8 de junho de 2012

FLORES DO ORIENTE (The Flowers of War) China / Hong Kong, 2011

FLORES DO ORIENTE (The Flowers of War) China / Hong Kong, 2011 – Direção Zhang Yimou – elenco: Christian Bale, Paul Schneider, Ni Ni, Tong Dawei – 146 minutos. O chamado Massacre de Nanquim, mesmo passados mais de 70 anos, ainda causa indisposições entre China e Japão. O episódio foi um crime de guerra cometido pelo Exército Imperial Japonês quando da invasão da então capital da República da China, em 1937. Historiadores estimam que cerca de 200 mil pessoas foram dizimadas pelos japoneses, que cometeram inúmeras atrocidades contra militares e civis indiscriminadamente, incluindo o estupro coletivo de milhares de mulheres. Para os chineses, o número de vítimas foi bem maior. Os japoneses adotam um política revisionista dos fatos e negam o massacre. O episódio é o pano de fundo de FLORES DO ORIENTE, o novo grande filme do cineasta chinês Zhang Yimou (O Clã das Adagas Voadoras), roteirizado por Liu Heng e baseado no romance “As 13 Mulheres de Nanquim”, de Yan Geling. Christian Bale (o atual Batman) é John Miller, um sujeito que chega à igreja para enterrar o padre morto, e acaba assumindo o seu lugar para se proteger. Beberrão e folgado, aos poucos, ele vai sendo transformado por aquelas adolescentes que esperam ajuda para fugir da cidade. A chegada de um grupo de prostitutas, liderado por Yu Mo (Ni Ni), desestabiliza o ambiente gerando a disputa de espaço entre as adolescentes e as novas refugiadas que se escondem no porão. Num primeiro momento, o filme retrata estas como vilãs. Quando japoneses invadem a igreja, matando e estuprando as estudantes, as outras mulheres nada fazem, mas se sentirão culpadas mais tarde. Miller se conscientiza do seu papel naquele ambiente, pois, ao lado de um menino que era ajudante do padre, é a única figura masculina naquele ambiente. Além de promover a paz interna, ele é o único capaz de negociar com soldados japoneses e tentar poupar a vida dessas mulheres. FLORES DO ORIENTE é uma produção belíssima e pungente. Zhang prova-se um esteta meticuloso e um diretor habilidoso na condução de cenas de ação, estejam seus personagens empunhando espadas ou fuzis. O diretor sempre equilibrou bem em seus filmes anteriores a beleza das imagens, as cenas de luta e a força emocional de seus personagens. Aqui não ficou por menos. UM GRANDE FILME!!!

sábado, 2 de junho de 2012

BRANCA DE NEVE E O CAÇADOR (Snow White and the Huntsman) EUA, 2012

BRANCA DE NEVE E O CAÇADOR (Snow White and the Huntsman) EUA, 2012 – Direção Rupert Sanders – elenco: Kristen Stewart, Chris Hemsworth, Charlize Theron, Sam Claflin, Ian McShane, Eddie Izzard, Bob Hoskins, Toby Jones, Ray Winstone, Eddie Marsan, Steve Graham, Nick Frost, Vincent Regan, Liberty Ross, Noah Huntley, Christopher Obi – 128 minutos.
Uma Branca de Neve muito guerreira (Kristen Stewart), uma madrasta com enormes poderes mágicos (Charlize Theron), e cenários de conto de fadas de uma cuidadosa produção. Essa é a enésima versão cinematográfica do conto dos irmãos Grimm. A direção é de Rupert Sanders, cineasta egresso de uma publicidade mais inovadora, apresenta um grande apuro estético e repleto de imagens impactantes. Além de decorações e paisagens, esta nova versão da Branca de Neve apresenta um grande duelo de personagens e de atrizes. Charlize Theron empresta sua estonteante beleza e seu talento ao estereótipo da vilã no cinema, a madrasta malvada, uma mulher que no conto original usa disfarce e fala com espelho. No entanto, nesta versão, a personagem aparece com mais poderes do que qualquer super-herói da Marvel.
Do outro lado, aparece a até então Bella Swan, da saga "Crepúsculo", que ganha uma personalidade real para se transformar em uma Branca de Neve guerreira. Trata-se da atriz Kristen Stewart, que, por sua vez, demonstra que é muito mais que uma vampira e que está muito acima de seus companheiros masculinos de elenco, Chris Hemsworth e Sam Claflin. O duelo entre Charlize e Kristen é algo prá se comentar mesmo, apesar das duas aparecerem juntas em poucas ocasiões. Está entre os grandes trunfos do filme. As duas se alternam na missão de carregar o peso de uma história que eleva o papel da madrasta e, por consequência, endurece o da Branca de Neve, que é capaz de enfrentar soldados e encantar com a mesma tranquilidade.
Apesar da rivalidade do duelo, Charlize parece levar vantagem nesta disputa, já que a mesma se recria em uma personagem marcada por tiques nervosos e manias e favorecida por um espetacular figurino, capaz de se transformar em um corvo. Entre as duas protagonistas também há espaço para algumas incursões de outros personagens, como a dos anões, que aparecem como bandidos da floresta e se responsabilizam pelos poucos toques de humor presentes no filme. Trata-se de uma história interessante, bem narrada e com cenas espetaculares, especialmente as das transformações da madrasta, que abandona momentaneamente a doçura do conto para se fazer mais amarga, mais adulta e mais interessante.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

SHAME (Shame) Reino Unido, 2011 - O FILME POSSUI UMA CAPACIDADE EXTRAORDINÁRIA DE ENVOLVER O ESPECTADOR!!
SHAME (Shame) Reino Unido, 2011 – Direção Steve McQueen – elenco: Michael Fassbender, Carey Mulligan, James Badge Dale, Nicole Beharie, Alex Manette, Robert Montano – 101 minutos.
O ator alemão de origem irlandesa Michael Fassbender representa um viciado em sexo em "Shame", filme do vídeo artista britânico Steve McQueen que disputou o prêmio máximo no festival de Veneza em 2011. Fassbender - que despontou em "Bastardos Inglórios" (2009) e também já está sendo visto como o psicanalista Carl Jung no novo filme de David Cronenberg, "Um Método Perigoso" - é Brandon, um charmoso executivo de trinta e poucos anos morando em Nova York, cuja única distração é seduzir mulheres, se masturbar em casa ou no escritório e buscar sexo na Internet. O ritmo da sua vida começa a desmoronar quando sua carente irmã Sissy, representada por Carey Mulligan, chega para uma visita surpresa.
Sua presença e desejo pela atenção de Brandon desorganizam ainda mais a existência solitária do executivo, e sua única saída parece ser rondar pelas ruas à noite em busca de novas aventuras sexuais. UM DOS MAIS BELOS E MAIS CONTROVERTIDOS FILMES DO ANO!!

domingo, 1 de abril de 2012

(500) DIAS COM ELA (500 Days of Summer) EUA, 2009



(500) DIAS COM ELA (500 Days of Summer) EUA, 2009 – Direção de Marc Webb – Elenco: Zooey Deschanel, Joseph Gordon-Levitt e Minka Kelly

Este é um filme romântico, mas não é um filme romântico como os outros. Houve quem dissesse que ele é um típico “chick flick” (termo utilizado para definir filmes que têm como público-alvo as mulheres), mas isso é pura besteira, e essa pequena grande obra-prima não se encaixa nesse rótulo preconceituoso. Em sua estreia como diretor de longa-metragem após vasta experiência com videoclipes, Marc Webb brinca com os clichês do gênero, invertendo situações e personagens, aproximando o espectador dos dramas vividos por Tom Hansen (Joseph Gordon-Levitt). Ele toca seus dias sem muitas cores, trabalhando numa empresa que cria cartões comemorativos, aqueles que distribuímos no natal e nos aniversários. Quando ele descobre a colega de trabalho Summer (Zooey Deschanel), acredita que é a mulher perfeita para ele.



Tom é o tipo de pessoa que cresceu ouvindo músicas e vendo filmes de amor, supervalorizando o sentimento. Quando descobre que tem uma colega de trabalho fã de Smiths, projeta nela todas as suas expectativas afetivas. Quando normalmente é a mulher quem idealiza o amor – pelo menos nos filmes do gênero -, em (500) DIAS COM ELA é o personagem masculino que carrega esse estigma. Summer, por sua vez, nunca esconde a falta de crença em relação ao amor, fruto de um lar desfeito ainda na infância. Claro que uma relação entre dois personagens com expectativas tão opostas nunca dará certo (pelo menos em tese), fato já revelado nos primeiros minutos. Além de reverter os papéis no quesito “expectativas”, o diretor também apresenta uma narrativa entrecortada por animações, dividindo em dias a relação entre Tom e Summer. Transitando entre o fim e o início da relação em ordem não-cronológica, (500) DIAS COM ELA apresenta um retrato mais honesto e sincero sobre o amor do que a maioria das produções do gênero. Tom idealiza o amor e não é assim que as coisas são, o que aprendemos depois de alguns relacionamentos desfeitos e dezenas de paixões não-correspondidas. Mas o filme não chega a apontar erros, mas apresenta, de uma forma honesta e clara, como uma separação, principalmente, é superestimada.



O roteiro, escrito por Scott Neustadter e Michael H. Weber, valoriza os diálogos rápidos e divertidos, repletos de referências tanto ao mundo pop quanto ao universo dos amores desfeitos. São valores universais e, por isso, (500) DIAS COM ELA sai do universo “chick flick” para conquistar um público maior. Esse belíssimo drama é uma espécie de antídoto, um verdadeiro lembrete da realidade, aquela que o ser humano sofre, mas supera e segue em frente. UM DOS GRANDES FILMES DO CINEMA!!